Quando eu era criança (bom, quem sabe ainda hoje) minha mãe insistia que eu andasse bem arrumado, cabelo penteado, devidamente calçado e — isso parecia especialmente importante – camisa dentro da calça. Havia aparentemente um propósito pedagógico nessa neura: minha mãe deixava isso claro cada uma das vezes. Ela não queria que eu andasse como um maloqueiro.
Nasci no timing errado para conviver com os eles, muito menos para ser um, mas em retrospecto preciso admitir que aprendi lições valiosas com os hippies (quase tanto quanto com minha principal categoria de heróis, os combatentes da 2a Guerra).
A coisa fundamental e básica, que se não fosse o exemplo compassivo dos hippies duvido que eu tivesse chegado a aprender a tempo, é que (pasme) andar mal vestido não é uma falha moral. Trata-se do princípio mais simples, algo que eu deveria ter aprendido sozinho lendo a Bíblia, mas que não chegou até mim na interpretação sanitizada dela que me chegava dos pastos verdes dos flanelógrafos e das admoestações bem-intencionadas de pais e mães.
Fica evidente que os hippies lutavam em várias frentes, mas sua luta primordial era contra a hipocrisia – a mesma luta, digamos, do ministério terreno de Jesus e dos profetas. Naturalmente, hoje todo mundo é oficialmente contra a hipocrisia, mas no que diz respeito à maioria essa é em si uma posição hipócrita. Poucos são os que abominam a hipocrisia a ponto de expô-la da forma mais crua, na própria carne – abrindo mão de todas as convenções e matérias acessórias na tentativa de atingir o cerne da questão.
A Bíblia, ferramenta principal dos que se opuseram de forma mais contundente à postura dos hippies, está cheia de exemplos de gente que assumiu essa postura marginal na sociedade a fim de expor a hipocrisia e a insuficiência dos seus mecanismos.
Dentro do nosso assunto um dos exemplos bíblicos mais radicais é o de João Batista, que vivia no deserto, usava roupas precárias de pêlo de camelo e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre – como um maloqueiro, diria minha mãe. Outro exemplo é o do profeta Isaías, que teve de pregar por três anos inteiramente pelado – obedecendo uma ordem direta e muito constrangedora do próprio Deus. Apesar de Woodstock, duvido que o comprometimento de um hippie o levaria a abandonar as convenções a esse ponto.
Para gente como minha mãe o desleixo do guarda-roupa dos hippies era reflexo irreversível e incontestável da sua falta de caráter. Para não andar como um maloqueiro eu deveria proteger o meu caráter tomando efetivas medidas de prevenção moral – entenda-se com isso, andar penteado e com a camisa sensatamente dentro da calça. Não devia também, lembro agora, chutar latas pela rua. Coisa de maloqueiro.
Os exemplos bíblicos estão aí pra confirmar que o assunto não é tão simples assim. O jeito de vestir, e convenções associadas, não revela coisa alguma sobre o caráter. Pode sim, ocultar uma falha de caráter: isto é, servir de cobertura para a hipocrisia. Um adúltero de camisa pra dentro da calça não é menos adúltero do que um hippie que advoga o amor livre.
A moral não tem nada a ver com os bons costumes, é o que os exemplos da Bíblia parecem indicar. Não há mesmo, na verdade, “bons” costumes . São apenas costumes. Como uma roupa qualquer, as sociedades despem um costume para vestir outro.
A moral, espera-se, continua a mesma, quer por dentro quer por fora da calça.




