28 de Julho de 2004

O outro rei

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Para Marcos

Na véspera de uma batalha de campo contra um exército inimigo, o rei decidiu sondar por si mesmo como andava o moral de suas tropas. Oculto debaixo de uma capa comum de sentinela e sob o manto da noite ele começou a percorrer uma a uma as rodas de combatentes que orlavam as fogueiras.

As conversas que ouviu deixaram-no extremamente encorajado. Todos os seus soldados estavam relaxados e confiantes quanto ao resultado da batalha do dia seguinte, e só faziam exaltar as virtudes do rei.

– O rei está descansando com justiça agora em sua tenda – disse um experiente soldado, – mas amanhã vai estar tinindo como uma espada sarracena contra o inimigo.

Todos concordaram.

– Dizem que o rei inimigo é implacável – arriscou o rei, disfarçando a voz e ocultando-se sob as dobras do manto.

– Pois o nosso é mais – respondeu imediatamente e com convicção o mesmo soldado, sem saber com quem estava falando. Seus companheiros dirigiam a conversa na mesma direção enquanto o rei se afastava, congratulando-se com a sagacidade do seu disfarce e por ter sido capaz de gerar tamanha confiança e garra nos que dependiam dele.

Ele descobriu-se então na orla do acampamento, e pôde divisar ao longe o que parecia ser uma fogueira do acampamento inimigo. Ele resolveu arriscar o seu disfarce, que havia até ali se mostrado tão eficaz, e sondar ele mesmo o moral dos seus antagonistas, como havia feito com seu próprio exército.

O rei disfarçado atravessou em segurança os sentinelas inimigos, que tomaram-no por um companheiro seu, e estava no momento seguinte no centro do acampamento adversário. Todos os combatentes inimigos, ele descobriu, formavam um único e heterogêneo grupo reunido ao redor de uma gigantesca fogueira.

Para sua satisfação, o rei constatou que os guerreiros inimigos estavam unanimemente apreensivos: eles conversavam em voz cautelosa, discutindo rigorosamente os pontos fortes do exército adversário, abertamente temerosos diante do risco da campanha do dia seguinte.

Satisfeito com o que havia descoberto, o rei virou-se e começou a refazer o seu caminho para longe da multidão, quando ouviu uma voz rude falando austeramente no centro do grupo inimigo e virou-se instintivamente para ver quem era. O rei disfarçado abriu então a boca de supresa, porque na orla da fogueira, sentado majestosamente mas sem qualquer distinção e sem qualquer disfarce entre os seus próprios soldados, estava o rei inimigo, ele mesmo compartilhando sem constrangimento com as suas tropas a preocupação que elas lhe transmitiam.

O rei disfarçado voltou tropeçando para o seu acampamento, já não certo quanto ao resultado da batalha.



3 Comentários a respeito de "O outro rei"

Flávia Fráá [Piraquara]

Gostei!:grin:



Alice

Paulo, vc se inspirou no Henrique V TOTAL, hein? Ficou bom. O texto de lá é de Shakespeare.
:grin:



Paulo [brabo!]

Bom? BOM?

Fiquei pensando num um rei que fosse ainda mais absoluto do que o Henrique V, e imaginei-o ao mesmo tempo vulnerável e majestoso entre os seus soldados, sem disfarce nenhum.



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