Meu conto O Homem no Limiar foi aparentemente escolhido para aparecer na edição em PDF da revista de ficção científica Scarium. Os primeiros parágrafos:
A casa era absurdamente velha, foi a única coisa que pensei, sentado na soleira da porta, meus olhos colocados na altura do caixilho da fechadura. Velha e decrépita e fedia aos móveis antigos que já haviam sido levados dali, e ostentava por dentro como por fora o bronzeado descascado de incontáveis pinturas. Assim que vi a casa naquele começo de tarde, erguendo-se taciturna por trás das dunas, e conhecendo o Mozella, pensei que ele ia tentar me convencer que era mal-assombrada.
– É melhor que isso – ele havia sorrido enigmaticamente, quando levantei minha suspeita.
Quando entrei, surpreendi-me com o bom estado da aparência geral: por mais velho que fosse, o casarão dava impressão de que havia estado ocupado até recentemente. A vasta e arejada cozinha, por cuja porta entramos, era equipada com uma impossivelmente longa pia de alumínio, de cinco cubas, e luminárias ordinárias mas muito contemporâneas penduravam-se do teto de pé direito alto.
– Teve gente morando a maior parte do tempo – o Mozella havia dito, abrindo as janelas de madeira, a luz branca da tarde prendendo-se de imediato às tábuas gastas e recurvadas do assoalho. – Desde mil e seiscentos e tanto.
– Então é esse o lugar – eu havia dito, largando a chave do carro sobre a pia e lembrando com desgosto o rosário de vezes em que o Mozella havia insistido para que eu viesse. Eu havia finalmente cedido, menos por interesse sincero do que para pagar uma daquelas curiosas promissórias que os amigos acabam sempre assinando no nosso nome.
Você tem que conhecer.
Eu estava de alguma forma indignado com a minha capitulação, e decidi contaminar tudo que acontecesse naquela tarde com o meu justificado rancor: não importava o que o Mozella tivesse pra me mostrar, eu não deixaria que ele saísse por cima.
– Na época da ditadura foi local de tortura, e logo no começo, uns dois anos depois de pronta, o capataz do dono da casa, que morava com a família no quarto pegado aqui à cozinha, foi acusado de bruxaria. – Depois de ver minha reação ele sentiu-se obrigado a reforçar: – Está na Biblioteca, nos autos da inquisição. Estou com as cópias no carro.
E talvez estivesse mesmo.
O Mozella acreditava em aromaterapia e anjos e elfos e, fazia menos de seis meses, havia abandonado esposa e filhos para morar com um rapaz de vinte e tantos anos: nossa amizade havia vencido, de alguma forma, todos esses percalços, mas ainda assim não me agradava em nada a idéia de estar finalmente sozinho com ele na droga da casa. Eu não acreditava que ele fosse tentar algum movimento na minha direção: ele me conhecia bem demais para tentar, eu esperava – e a isso, eu estava certo, a nossa amizade não sobreviveria.
– Nada ficou provado – ele tinha concluído, mas a essa altura eu havia perdido o fio da sua narrativa.
E não importava: o que quer que fosse, era provável que ele já tivesse me contado antes, como aparentemente todo o resto a respeito da casa. E eu havia provavelmente feito bem em ignorar da primeira vez.
O que importava é que eu havia me submetido e estava agora ali sentado, as costas apoiadas na ombreira de uma das portas internas da cozinha, tentando pensar em nada como o Mozella havia sugerido, mas me recriminando a cada instante por não ter, no instante anterior, me levantado para ir embora. Eu não sabia dizer, nesse ponto, se o que mais me indignava era a minha própria rendição à vontade de um amigo que ultimamente eu mal reconhecia, ou o que eu percebia como a intolerável compulsão do Mozella pelo lugar.
O casarão, está certo, não era a primeira obsessão do Mozella, mas depois de tudo que havia testemunhado nos dois últimos anos eu me via agora, incrédulo, forçado a concluir que fosse talvez a última.
