26 de Maio de 2004

O enigma de Páris, parte 1

Fermentado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Homens e Mulheres

Sobre a Guerra de Tróia, cabe deixar um esclarecimento.

O enigma da tragédia de Tróia não é entender porque dois exércitos se degladiaram por anos, ao custo de milhares de vidas, por causa de uma mulher – mesmo se tratando, nesse caso, da esposa de um dos reis envolvidos. Fato é que homem não precisa de desculpa alguma para guerrear, e para um macho guerreiro o rapto/fuga da esposa é caso clássico de honra perdida que nada como uma longa série de mortes para recuperar.

O enigma da tragédia de Tróia não é entender porque dois exércitos se degladiaram por anos por causa de uma mulher.

O verdadeiro mistério da história é porque Helena se deixou apaixonar por um pirralho, um pulha, como Páris. Essa sim, é a pergunta que não quer calar. As versões da lenda diferem: em algumas, Helena é seduzida e depois raptada pelo filho de Príamo; em outras, ela foge com ele de livre e espontânea vontade. A deusa Afrodite, em cujas graças Páris havia caído depois de escolhê-la como primeiro lugar num concurso de beleza, parece ter dado um empurrãozinho. Mesmo assim, fica a dúvida. O que uma mulher como Helena, que podia ter aos pés da sua cama o homem que quisesse, viu num cara fraco, sem tutano e sem graça como Páris?

A resposta diz muito sobre as mulheres, e traz todo o tipo de más notícias para o modelo clássico de homem.

Que Helena podia ter escolhido outro cara, todos os indícios deixam claro. Ao que parece, ela mesmo havia escolhido o maridão de quem acabou fugindo, o desafortunado Melenau. Melenau podia ter uma multidão de defeitos, mas a história registra que o rei de Esparta era um homem básico: masculino, lutador, determinado, bom provedor. Tudo que, espera-se, uma mulher deveria desejar.

Se quisesse desesperadamente fugir com alguém, Helena poderia ter se dado o respeito de se deixar seduzir por um homem de verdade. A oferta no seu círculo não era pequena. Eu não ficaria tão indignado se a moça tivesse resolvido fugir com um guerreiro suado, um herói fedendo a testosterona como Ulisses, Heitor ou o próprio Aquiles.

Mas não, a menina escolheu Páris, o palha do Páris, que tinha sangue de barata e provou não ter garra nem pra segurar uma espada quando esteve mais tarde frente a frente com Menelau. Um cara que se mostrou incapaz de defender a mulher que tinha tido a ousadia de raptar. Um pastorzinho de ovelhas, um pusilânime, um fleumático, um fraco: um “poeta”, como diria meu pai. Para todos os efeitos, Páris não era menos feminino do que Helena. Uma moça.

E Helena escolheu Páris.

É aqui que está o poder da história, porque as Helenas sempre escolhem os Páris, e nada deixa um homem fedendo a testosterona mais indignado do que contemplar uma cena dessas. Acreditem, eu sei.

A história da mulher aparentemente sã que troca o maridão maduro, masculino, determinado, guerreiro, por um jovem fraco, andrógino, indefeso e indeciso reaparece da forma mais contundente na peça Cândida, de Bernard Shaw. Como Helena, a protagonista escolhe um fracote anônimo e rejeita o herói consagrado.

Na lenda de Tróia Páris era muito bonito. Aparentemente, não era necessário. As escolhas das mulheres, já ficou provado, são determinadas por muita coisa – mas nada que poderia fazer algum sentido, como beleza física, aparece na lista.

[continua na parte 2]



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