(continuação da parte 1)
O problema está, evidentemente, na diferença aparentemente irreconciliável de visão de mundo, de mindset, entre homens e mulheres (na nossa discussão, entenda por favor “homem” e “mulher”, como arquétipos universais, símbolos, não necessariamente entidades reais. Antes que alguém me acuse de generalização – bem, tarde demais pra isso – quero lembrar que o poder do mito, e de toda boa ficção, está nisso mesmo: tocar cordas específicas da experiência real através de personagens e situações simbólicas).
Para tentar deslindar o enigma de Páris, deixe-me introduzir na discussão dois termos para definir os “modos” mentais que diferenciam homens de mulheres, respectivamente. Vou chamá-las de o jogo© e a partilha©.
Agora sim, vamos às generalizações.
Primeira generalização:
Os homens só tem tempo para o jogo©.
O jogo© pode ser uma atividade mental, física ou moral. Não interessa: o que define o jogo© é que ele é aquilo que ocupa a mente de um homem. Para homens que viviam numa época menos hipócrita que a nossa, como Aquiles e Menelau, o jogo© era a guerra nua e crua. Para muitos homens contemporâneos, o jogo© é mesmo um esporte; digamos, o futebol – mas pode ser também uma causa, um projeto, uma pesquisa, um sonho, um ideal ou, com impressionante freqüência, a guerra nua e crua.
Os componentes básicos de um jogo© são (1) o desafio, (2) o código e (3) o prêmio. Esses componentes estão presentes em todas as atividades tipicamente “masculinas”, como a guerra, o esporte e a caça, mas também em outras mais improváveis, como a evangelização, a filosofia, a política e a arte. Um soldado, um evangelista, um senador e um filósofo são todos movidos pelo seu compromisso com o seu próprio jogo©. Com freqüência o prêmio final é inatingível, mas para o homem isso não interessa. O objetivo do jogo© é jogar.
O homem dedica toda a sua atenção ao seu jogo© porque no fundo ele sabe que é o jogo© que o define. Para o homem impossível é não jogar.
Segunda generalização:
As mulheres não apenas não jogam o jogo©. Elas o desprezam.
Não interessa qual seja, o jogo© não faz sentido algum para a mulher. Elas não entendem como alguém pode gastar tempo e neurônios como algo tão imponderável quanto o jogo©.
A guerra, por exemplo, que é o jogo© por excelência, só faz sentido entre homens. Tente visualizar um filme tipo Tróia ou O Senhor dos Anéis com vastos exércitos de mulheres se enfrentando com espadas, armaduras e lanças. A sério mesmo, derramando sangue por uma causa. É inconcebível ao ponto de ser, por antecipação, cômico.
Para as mulheres, a guerra é que é (tragi-)cômica. Elas não entendem como o compromisso de um homem com o jogo© pode levar a extremos como esse. A mulher questiona na verdade, toda a estrutura do jogo©. Ela não se sente empolgada pelo (1) desafio, não entende a submissão ao (2) código, e desconfia da validade do (3) prêmio.
Mas, de longe, não é isso o pior que a mulher tem contra o jogo©.
Terceira generalização:
O problema do jogo©, para a mulher, é que o homem só tem tempo para o jogo© e, portanto, para outros homens.
A mulher não quer jogar o jogo©. Ela quer a partilha©. A partilha© não tem códigos nem prêmios, só tem fluxos, canais, trocas. A partilha© busca o contato e o equilíbrio. O que a mulher quer fazer com um homem é a partilha©.
O homem não tem tempo para a partilha© porque só tem tempo para o jogo©.
A mulher não entende, por exemplo, como um homem pode escolher gastar tanto tempo com os amigos (homens). Ela sabe que, se não está jogando com os amigos o jogo©, o homem está com eles falando sobre ele. Mas ela não entende como jogar, ou pior, conversar sobre o jogo© pode ser melhor do que a partilha©.
O problema é que, como está limitado ao jogo©, o homem não tem outra opção de companhia que não a de outros homens comprometidos com o seu jogo (o mesmo desafio, o mesmo código, o mesmo prêmio). Para um homem, a única companhia que existe é a masculina. Não que exista partilha© entre homens. Só existe o companheirismo enfadado que um guerreiro pode fornecer ao outro. Nenhuma partilha©, nenhum contato, nenhum equilíbrio entre homens, só o código compartilhado, o elo imponderável que liga the band of brothers.
Isso não quer dizer, também, que uma mulher não possa ser aceita no círculo dos homens. Ela pode e será bem-vinda, desde que ceda e decida jogar o jogo©. Ela só não pode esperar nenhuma partilha©.
Páris conquistou Helena porque, como deixou claro quando pegou a espada para lutar contra Menelau, ele era uma exceção: um homem que não se submetia às regras do jogo©. Páris era, fica claro, um homem vulnerável, uma alma sensível, que soube oferecer a Helena o que um bruto como Menelau não podia: a partilha©.
Não digo que Helena não se sentisse atraída por heróis como Ulisses, Aquiles, talvez o próprio Menelau – mas estavam todos esses irremediavelmente mergulhados no jogo© da guerra e da política. Mergulhados demais para terem tempo para outra companhia que não fosse a masculina, quer na pessoa de amigos ou inimigos – heróis fedendo a testosterona, todos eles.
Homens, como sempre, ocupados demais nas suas próprias pretensões auto-importantes para terem tempo para a partilha©.
[conclui na próxima e última parte]


Alice
“Não existe partilha entre os homens. Só existe o companheirismo enfadado que um guerreiro pode dar ao outro.”
Os homens vivem eternamente vivendo o “comitatus” bárbaro. Um tipo de submissão ao mais valente, uma relação de irmandade com o guerreiro ao lado, com o grupo a que pertence. BAH!:mad:
jubis
Gostei! Realmente verdadeiro! Dez!
Pritt
Gostaria tanto, tanto, tanto de ler a ultima parte…
ela ainda não foi publicado correto??
Por favor São Brabo, nos prestigie com a ultima parte… a tanto tempo eu o aguardo.
Um Anônimo do sexo Masculino
Eu durmo de mei-aaaaaaa.
OPS errei de post
Na verdade só vim fazer coro e pedir pela última parte do texto.
Que tal?