18 de Maio de 2004

O diálogo da internet

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos, The Net

Semana passada saiu a notícia de uma queda sensível na venda de livros nos Estados Unidos. A reportagem alega como causas possíveis uma economia em crise e a competição de outros meios de comunicação.

Aposto na segunda. A concorrência é tamanha que o livro na sua forma tradicional corre risco inusitado de extinção (ou pior, de transformação). As pessoas parecem preferir a interatividade da palavra teclada à passividade da palavra impressa. Preferem ler blogs a jornais, mensagens de email e chat a livros.

Platão acreditava que para que houvesse diálogo significativo o comunicador deveria se libertar da retórica formulaica e envolver-se de fato com a sua audiência, coisa que a palavra escrita não tinha como fazer. Ninguém interrompe um livro e diz: “livro, não concordo com o que você está dizendo. Qual é então a sua opinião sobre esse determinado assunto?” Foi para corrigir essa falha que Platão escreveu diálogos: para permitir que idéias contraditórias e quem sabe complementares fossem preservadas sob a forma de texto.

A palavra escrita, o monólogo silencioso, em que o leitor é conduzido passivamente ao lugar onde quer levá-lo o escritor, teve seus milênios de primazia, mas agora está encontrando adversário a altura: a sociedade conectada da internet. O diálogo interativo é tão real quanto esta mensagem – que você é, por exemplo, livre para responder. Você pode interferir, deixar o seu comentário, fazer perguntas, contribuir, desafiar-me a mudar de idéia. A internet é um vasto, interconectado e aberto Diálogo de Platão.

Em 1985 Daniel Chandler já previa que a sociedade conectada provocaria o declínio do conceito de autor individual e a ascensão da escrita colaborativa. Numa sociedade conectada, ao contrário da sociedade das prateleiras, os textos não precisam ser definitivos; podem ser mantidos eternamente abertos, sujeitos a colaboração e atualização online. Na sociedade conectada, os escritores podem publicar os seus próprios textos. Na sociedade conectada, cai o conceito de leitura privada e silenciosa e entra em cena o conceito de leitura participativa: cada comentário que alguém deixa faz com que o mesmo texto seja lido de forma diferente.

Bem-vindo ao futuro. Bem-vindo à Bacia das Almas, onde as idéias estão condenadas à reformulação eterna.

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Leia também:
O não-banquete: a internet e a aparência do diálogo



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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