Um sonho da minha irmã Alice, narrado por ela mesma.
Estávamos numa reunião. Num lugar cheio de pessoas conhecidas, e lá estava o Dinho, com um balde na mão, cheio de uma tinta branca, jogando nos outros na tentativa de que todos se pintassem de palhaço. Ele atirava aquela tinta em mim e só ficou satisfeito quando eu o encarei, passei os dedos dentro do balde e passei a tinta branca no rosto, como um índio. Todo mundo me aplaudiu. O Dinho sorriu e sumiu.
Todo o ambiente da reunião era branco, paredes brancas, cortinas de voal branco, voando com o vento. No banheiro, encontrei a Larice e o Roberto com algumas crianças (não eram as filhas, pareciam netos, mas o casal ainda eram jovem) e, enquanto eu limpava meu rosto, eles me contavam da praia: como ela estava boa, como eu devia ir.
Estava saindo do banheiro e o Caco veio me abraçar dizendo que estava indo. Pra onde não sei. Ele falou que estava feliz com meu Green Card e feliz por me ver tão bem. O Robson Luiz também me abraçou e me desejou felicidades.
Fui pra fora do edifício branco e lá estavam sentadas as tias Leni e Lili, a vó, o vô, a mãe e eu percebia que elas recebiam a fresca da noite do vento. Ele era o que entrava pelas janelas e faziam as cortinas de voal flutuarem pela sala.
Fiquei ali parada observando e percebendo o vento e, minutos depois, a vó disse que era hora de ir. As tias disseram pro vô ajudar a vó a levantar. Quando ele levantou eu percebi o quanto ele estava magro. Não conseguia firmar as pernas. Corri pra ajudar e perguntei se ele estava bem. A vó ficou pra trás. Ele me falou, com aquela voz típica, que estava bem, só que estava muito fraco. Falou que estava pesando 39 quilos. Eu carregava o vô como uma pena e comecei a chorar ao ver que podia carregar aquele homem, com tanta facilidade.
Passos adiante, eu vi o tio João. Ele se condoeu pelo vô e disse que levaria o vô em frente. Pegou firme o vô pelo braço e eles sumiram. Eu vi a vó, andando de cadeira de rodas indo no mesmo destino desconhecido.
Continuando a caminhar, cada vez mais longe da luminosidade da casa, vi pra onde outras pessoas estavam indo. Eram ruínas. O Paulo estava lá. Colunas quebradas e um antigo anfiteatro onde as pessoas sentavam. Muitas. Eram milhares, homens e mulheres todos que eu reconhecia. Era como se tivessem sido colocados na minha frente todas as pessoas com as quais convivi. Milhares de rostos conhecidos desde a minha infância. Estavam todos lá.
O Paulo se põe na frente da arena no anfiteatro, apoiando-se em pedaços de uma coluna quebrada e sob a fraca iluminação do lugar, faz o movimento pra que todos se levantem. Eu tinha visão total, do rosto de todos. As pessoas estavam sentadas em degraus de pedra rústica. Pedra que podia ter sido polida nos tempos antigos do anfiteatro, mas agora eram somente uma marca de um passado glorioso.
Quando todos se levantam o Paulo faz o gesto de regência e todos começam a cantar. Primeiro as mulheres. Começo a chorar convulsivamente porque o que eles cantam me toca muitíssimo. Em contracantos e contrapontos, num arranjo inimaginável pra uma melodia tão simples, milhares de vozes, acompanhadas por uma orquestra anônima e escondida, cantam que são meninas de Jesus. Começam os homens. São os meninos de Jesus. Lembro de me dobrar na areia e chorar, reconhecendo que essas pessoas eram todas que tinham passado pela minha vida e eram agora “meninos e meninas de Jesus”. Chorava de alegria e de emoção. O coral faz arranjos maravilhosos com a música e suas últimas palavras são “Sim, de Jesus”. Tudo silencia. A orquestra emudece, todos emudecem e tudo agora é escuro.
Não há movimento. De repente, um grande raio, um clarão imenso desce do céu e arrebenta o que havia restado de um grande círculo de colunas. As pessoas gritam. As pessoas festejam. Deus tinha se agradado do seu louvor, como nos antigos holoucastos e se manifestara.
Eu não podia olhar. Dobrada, com o coração em prantos, percebia todas essas coisas ao redor de mim mas não conseguia olhar.
Minutos depois, percebi alguém se aproximando.Eram passos na areia grossa. Era o Paulo. Ele veio em minha direção, se abaixou e juntou, de defronte de mim, uns cacos de azulejos verdes que se solidificaram na explosão do grande clarão. Esses azulejos tinham fixado em palavras que eu tinha escrito, sem perceber, abaixada ali, durante o cântico do coral da minha vida. O Paulo olhou pra mim, tentou sorrir e, agachado do meu lado, montou, com os cacos que juntara, a frase : “E esta noite, mais uma estrela brilhou no céu!”.
O fogo que ainda restava ainda tirilava. Havia fumaça e as pessoas estavam mudas e, sentadas no anfiteatro desconhecido, assistiam toda a cena. O Paulo me abraçou. Juntos choramos. Soluçamos.
Acordei chorando.




