28 de Agosto de 2004

O centro-burguês e a responsabilidade

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Politica

Hoje em dia quem estamos acostumados a ouvir descendo a lenha na burguesia são, invariavelmente, os comunistas. Nem todos os comunistas brasileiros são burgueses, mas todo comunista que se preza acaba tendo de falar mal da burguesia. É requerimento da profissão. Na propaganda eleitoral deste ano no meu estado, por exemplo, o slogan de um inócuo candidato de esquerda é “contra burguês, vote 16”.

Pois uma das coisas curiosas de documentos nazi-integralistas como a Carta aos inconscientes de Plínio Salgado é ver alguém que se postava no extremo oposto do espectro político, um sujeito de extrema direita que não podia ver um comunista pela frente, malhando o mesmo Judas que os comunistas. Sim, porque o cidadão “inconsciente” que Salgado quer despertar com a sua Carta é o indiferente burguês, o sempre indiferente burguês:

Vós, burguezes grosseiros, que tresandaes a vícios…

O que os nazi-integralistas criticavam na burguesia era, basicamente, seu liberalismo e seu individualismo, frutos irmãos de uma democracia liberal que Hitler e Salgado julgavam decadente e prestes a dar os seus últimos suspiros.

Quando passo, porém, pela praia de Copacabana; quando vos vejo fúteis e ocos, perversos e commodistas, negligentes e displicentes, a tomar vosso chazinho nas casas chics; quando vos vejo sahir hypocritamente das igrejas, com a mesma cara com que vos entregaes às “coquetteries” e facilidades impróprias ao vosso estado civil e religioso; quando vos vejo vadios, indolentes, novidadeiros e rídiculos, aboletados às mesinhas de café do centro; quando vos observo, frívolos literatos discutindo os últimos livros que a França judaizada nos envia, ou gastando o vosso tempo a coçar a sarna do vosso desprezível humorismo, ou a sorrir com um rictus alvar, em que se espelha o vosso espírito dyspeptico e o vosso secpitismo (sic) dedecadentes (sic); quando vos vejo, ó burguezes pôdres, e penso no sacrifício que os meus camisas-verdes estão fazendo por vós, chego a pensar que Deus na sua infinita Justiça não deverá poupar-vos.

E assim por diante. Plínio Salgado teria muito mais e pior para falar a respeito da burguesia se tivesse sobrevivido ao milênio passado, mas não é este o ponto. Quero ressaltar o fato fundamental que, por vias diferentes e com objetivos opostos, faz parte do discurso tanto da extrema esquerda (comunista-socialista) quanto da extrema direita (nazi-fascista) malhar o onipresente burguês e tudo que ele representa.

Extrema esquerda e direita condenam, mais do que qualquer outra coisa, o inquebrantável individualismo da sociedade capitalista. Os comunistas pretendem diluir os males do indivíduo na vala comum dos comitês, os nazi-fascistas pretendem conter o prejuízo das iniciativas individuais mergulhando o cidadão numa infalível máquina patriótica lubrificada pela devoção inconteste a um único e suficiente ditador.

Em ambas as soluções o indivíduo como entidade desce para o segundo plano. O problema com ambas as soluções tem sido que o subproduto da diluição do indivíduo é a diluição da responsabilidade, que é por definição individual. Quando os grandes regimes comunistas e nazistas caíram, ficou muito difícil encontrar entre os escombros alguém a responsabilizar pelas atrocidades que haviam sido cometidas. Como não havia indivíduos, a responsabilidade não podia ser atribuída a quem quer que seja. Tecnicamente, ninguém foi responsável pelo Holocausto ou pelas torturas nos gulags. Estavam todos, absolutamente todos, cumprindo ordens.

Politicamente habito como que uma dobra espacial, um ponto que fica ao mesmo tempo longe da esquerda, da direita e do centro. Irrita-me o senso de superioridade moral da direita, a apatia do centro (a indiferença da burguesia, diria Salgado) e na esquerda a sua capacidade de se iludir. Dos discursos políticos, o único que penso não ter falha alguma é mesmo o socialismo; falho mesmo é o ser humano que nunca conseguirá implantar o socialismo como convém, e depois de tudo que vi não quero mesmo que volte a tentar. Leia-se A Revolução dos Bichos.

Devo confessar, finalmente, que as falhas morais da burguesia me afetam pelo menos tanto quanto pareciam afetar Plínio Salgado. Como a burguesia é quase tudo que resta, e o Brasil é hoje uma imensa versão da Copacana descrita na Carta aos inconscientes, tenho muito que me irritar. Fora a menção antisemita à “França judaizada”, acho muito pouco que discordar no parágrafo que citei acima.

O centro é na verdade hoje tão onipresente e onipotente que gostaria de poder chamá-lo, ameaçadoramente, de “extremo centro”. Quando só houverem burgueses, o capitalismo em nada será diferente das versões mais extremas do fascismo e do comunismo. Ninguém será responsável.

Talvez ninguém já seja.



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