03 de Agosto de 2004

Dessa vida

Fermentado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Que nada na vida nos pertence deveria ficar claro pela facilidade com que podemos perder tudo.

Nossa vida, senhoras e senhores, resume-se à nossa própria carcaça e uma malinha de roupas: literalmente, aquilo que podemos carregar. Todo o resto, quer sejam pessoas ou coisas, tem marcadas em si mesmas o status terrível de temporário; Deus, o destino, a iniciativa dos outros ou nossa própria incompetência podem levá-los para irremediavelmente longe a qualquer momento.

Haverá um momento, asseguram-me ainda, em que até mesmo a carcaça será tirada de nós, e então a malinha de roupas não nos terá finalmente qualquer utilidade. Até lá parece prudente amar as pessoas e fazer uso das coisas sem apegar-se nem a uns nem a outros, porque não nos pertencem e a vida pode querer deixar isso muito claro pelo menos uma vez.

A privação total e a solidão absoluta não deveriam de fato nos surpreender; o milagre é que tenhamos tido, em algum momento, alguma coisa. A súbita pobreza de Jó não deveria nos parecer especialmente notável; surpreendente, na verdade, é que tenhamos sido felizes.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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