10 de Agosto de 2004

Meus planos

Sujeito a cobrança por   Paulo Brabo

 

Estocado em Homens e Mulheres, Pormenor

Dei muita risada lendo uma confissão de Renata Oxendorf no seu blog Mulherzinha, pelo tremendo contraste entre a abordagem dela e a minha.

Estava aqui conversando com A Menina do Didentro sobre como a gente tem mania de sair contando para os outros sobre os nossos planos. Sabe aquela coisa de não dizer o que tem em mente para que os outros não agourem? Então. Eu deveria ter um pouco dessa coisa.

Fiquei me questionando por que raios tenho que contar as mínimas idéias de planos de trabalho e até mesmo de vida para as pessoas. Não, não entenda que eu saio por aí parando as pessoas na rua para dizer “olha, tiozinho, estou concorrendo a uma vaga na XXX, viu?”. São poucas pessoas, é verdade, mas eu poderia reduzir esse universo de sabedores-de-todos-os-meus-planos em mais ou menos uns 90%.

Em contraste, o universo de sabedores-de-todos-os-meus-planos não poderia ser mais reduzido: ele definitivamente não existe. Não conto todos os meus planos para quem quer que seja, nem para os amigos mais surrealmente próximos – e veja que os tenho. Não conto pra eles nem a maior parte dos meus planos.

Nem a metade.

Sabe o que acontece? Eu traço o plano a, o plano b, o plano c, o plano d e o plano e. Tenho tudo isso em mente porque, você sabe, nem tudo depende só da gente. Aí conto o plano a. O plano a não dá certo por um motivo ou outro, ou porque eu resolvi mudar de idéia, apostar no plano b, sei lá. Parto para o plano b, que é automaticamente arrebatado por um adianto não previsto para realizar o plano c. Só que eu já havia contado também o plano b para as pessoas. O que parece? Parece que eu sou uma mulherzinha volúvel que não sabe o que quer da vida. Mas eu sei muito bem o que eu quero! Aliás, a cada dia eu sei mais.

Essa necessidade de falar pode ser traduzida de duas formas. A primeira é a insegurança. Você quer compartilhar para ouvir uma segunda opinião, quer apoio, incentivo ou quer que o outro lhe abra os olhos caso o que você tem em mente seja completamente absurdo. A segunda é que a cobrança pessoal e das outras pessoas é imensa. É necessário mostrar o tempo inteiro que você está fazendo algo, que não está parado no tempo, que tem planos e que entre tantos, um tem que dar certo. Caso contrário, as pessoas podem achar que você não se esforça, que é acomodado. Ah, tá bom, vai. Sabe o que é? A gente precisa é de aprovação. É isso. Pronto, falei.

Acho que entendo o que a moça está querendo dizer, mas no meu caso algumas das mesmas preocupações produzem a atitude oposta. Na minha lúcida cabeça masculina um plano que a gente suspeita absurdo é aquele que deve receber o maior sigilo, pra que não aconteça que alguém abra os nosso olhos pra o quanto absurdo ele é. Do jeito que penso, se você não tiver certeza que é impossível, pode até ser que aconteça.

Eu poderia ir mais longe e dizer, por exemplo, que informação é poder e que é arriscado abrir o jogo quando em jogo estão os seus sonhos. Eu poderia argumentar que as mulheres divulgam aos quatro ventos absolutamente qualquer pensamento ocioso que lhes passam pela cabeça, e os homens pelo menos esse decoro têm.

Eu teria na verdade muito mais a dizer sobre o assunto, mas se eu continuar falando alguém pode acabar adivinhando algum dos meus planos.

Planos de dominação mundial a gente não conta pra ninguém.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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