
Quando contei ao meu amigo inglês Julian que estávamos para comemorar o aniversário de 20.000 dias do meu tio Carlos, o Bondoso, ele não escondeu a sua surpresa: Vocês contam os dias??????? Tive de explicar que o Caco nasceu no dia 23 de dezembro, muito perto da comemoração do Natal, e por isso nunca teve, na minha memória, uma festa de aniversário só pra ele. Comemoramos os 20.000 dias do Carlos com reunião de família na casa dele, ao redor de barreado, pirão, fatias frescas de manga, sobremesas sem fim e um bolo que nem tivemos tempo de abrir. Minha irmã Alice do Mississippi, a cronista da família, escreveu para a ocasião uma crônica que não tive tempo de ler por inteiro na festa, e que por isso deixo registrada aqui.
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Alice Purim Blalock
Ontem à tarde, enquanto regava minhas plantas lá fora, senti claramente repetidas dentro de mim algumas sensações da minha infância. Não sei se foi o cheiro da grama seca e a poeira que sobe dos quintais sem chuva há quase um mês que me fizeram isso. Talvez foi o sol meio amarelado de outono que batia nas folhas das árvores vermelhas e amarelas também que provocaram essa sensação. Pode ter sido o vento, uma brisa bem fresca que soprava contrastando claramente com o dia de sol ou ainda pode ter sido uma combinação de tudo isso. Tenho a certeza, no entanto, de que senti claramente a sensação de estar no quintal, aí em Curitiba, aquele enorme quintal, no final dos anos 60 e início dos 70. Senti uma lembrança forte da brisa fria num dia ensolarado, da grama seca do outono/inverno e de todas as sensações anexas, como o cheiro da panqueca sendo feita na frigideira de ferro e o aroma do café passado agora. Eu tive saudades.
Uma sensação quase melancólica me invadiu nesse momento. Eu estava tão perto, tão presente, mas tão longe ao mesmo tempo. Foi bom lembrar, mas doeu ao mesmo tempo.
Daqueles dias em que tive o privilégio de morar em Curitiba quando criança eu lembro da casa da vó e do vô. Poucos são os netos que lembram com a clareza que eu lembro da tia Leni, tia Lili e do tio Carlinhos, todos solteiros, morando naquela casa pequena, naquela casa de baixo. Nós morávamos na casa de cima.
Minha visita lá era diária. Posso chamar de constante. Ia na vó muitas vezes ao dia. Era um privilégio tomar a limonada de limões vermelhos, comer a bolacha e a panqueca que ela fazia. Eu sei que, eu e a Isa, brincamos com a tia Lili de casinha, fizemos aniversário pra ela com bolo de barro e salada de mato. Comemos do “Sorvete de Café” que ela fazia na forma de gelo da geladeira de design arrendodado da vó. A tia Leni eu lembro dela me ajudando nos trabalhos da escola, namorando na sala e eu sempre interrompendo. Lembro do tio Donald e dela sempre me convidando pra estar com eles lá e conversarmos sobre todos os assuntos. Foi lá, naquela salinha (que dava pra uma varandinha onde SEMPRE tinha ninho de vespas), que o tio Donald me explicou pela primeira vez como ler um mapa. Talvez ele nem saiba disso, mas a partir dquela explicação tive paixão por leituras cartográficas e, no fim, (quem diria, tio Donald?) cheguei a lecionar Geografia por alguns anos.
Foi lá, naquela salinha que o tio Donald me explicou pela primeira vez como ler um mapa.
Lembro de eu cuidando da vó, como “médica” especial e particular dela, quando ela deitava naquele quarto “verde piscina cheguei” que era o dela e o do vô. Pouca gente sabe, mas eu escolhi a cor e a vó brigou pra que fosse pintado na cor que eu queria, enquanto a casa foi pintada de marrom. Uma loucura de design que eu amei na época. A mesma vó matou UM galo e preparou pra eu comer como vingança só porque ele tinha me bicado quando nós visitávamos o galinheiro. A vó sempre foi minha amiga especial. Eu amo a vó muito.
Lembro do vô que não gostava que a gente pisasse nos canteiros da horta dele. Lembro que o vô (acreditem!) ficava brabo quando a gente emprestava ferramentas dele e deixava largadas, sem devolver. São claras as lembranças do vô no paiol consertando sapatos, guarda-chuvas e lendo. Sempre o vô estava lendo.Lembro do vô voltando a pé ou de bicicleta da “Móveis Cimo”.
Sem dúvida outra grande lembrança que tenho daquela casa era o “tio Carlinhos”. Ele SEMPRE me recebeu com um OI enorme e sempre de braços abertos prum abraço. Ele ainda faz isso hoje, mas, agora, as proporções são diferentes e eu lembro como era bom estar envolta pelo abraço e pelo sempre sorriso do tio Carlinhos. Eu tenho CLARÍSSIMAS lembranças dele.
O Carlos, o Caco, o tio Carlinhos dormia ou na sala pequena ou num dos quartos do paiol. Eu lembro dele andando de bicicleta e carregando a gente na garupa pra dar uma volta na quadra. Isso era pra mim e pra Isa. E quannnntta paciência dele quando a gente pedia: Mais uma vez!, e ele pensava e dizia: Tá bom, mas só mais uma. Isso significava que ele daria, pelo menos, mais duas voltas na quadra, com sobrinhas na garupa, pois nunca podia fazer o agrado só pra uma. Tudo era igual pra todas.
Lembro dele estudando pro vestibular no terceiro quarto do paiol, onde ele morava. Era o quarto do fundão. A vó lavando roupa na varandinha detrás da casa ficava dizendo que a gente não podia ir lá porque o Carlos estava estudando pra fazer vestibular. Sempre que eu podia, e conseguia, eu ia lá falar com ele e NUNCA fui recebida com menos que um sorriso ou um “Entra aqui!” Era maravilhoso.
Eu perdi as contas de quantas e quantas vezes o Carlos leu gibi pra mim. A gente deitava do lado dele e ele lia as histórias mostrando os detalhes dos desenhos que afirmavam as expressões que ele lia com gosto. Isso ele fez muito antes de eu saber ler e depois que aprendi, ainda ler gibi era muito melhor com ele. Ele dava emoções às histórias. Fiquei bem feliz que soube, por ele, que ele faz isso com os filhos. Somos todos privilegiados.
Lembro dele indo no Mercadinho e no armázem do Seu Guido muitas vezes por dia. Antes de ir, passava na mãe pra saber se a gente não precisava de alguma coisa. O leite vendido em garrafas de vidro, as carnes empacotadas com papel e seguras com barbante, o café moído na hora e colocado em pacotes marrons. Foi do Mercadinho que o Carlos, a pedido da mãe, me trouxe o meu primeiro chicletes.
Lembro dele sentado na mesa pequena da cozinha dessa casa velha e, sempre que dava, comia uma fatia de pão com nata. A nata era colocada dentro de um vidro transparente coletada do leite diário comprado por eles. Até um dia que ele quase comeu pão com cola. A cola tinha sido deixada em cima da mesa, no exato lugar da nata, num vidro exatamente igual ao da nata e a cola já estava no pão quando alguma das tias gritou pra ele parar. Salvo literalmente no grito. Eu não estava lá, mas morava do lado. Soube do fato minutos depois do acontecido. Não sei se ele lembra. Eu lembro.
Perdi as contas quantas vezes eu e ele (já adulta agora) ouvimos juntos o Messias de Handel. Sempre tão bom.
Eu vi o Carlos sendo aluno e professor. Lembro do Carlos sendo regente e cantor. O regente Carlos sabia quando era eu que tinha errado no contralto do coral. O Carlos que fica regendo com aquela baqueta amarela, no escuro da sala, me ensinou muito a apreciar a música. Perdi as contas quantas vezes eu e ele ( já adulta agora) ouvimos juntos o Messias de Handel. Sempre tão bom.
A criatividade dele também me inspirou. Desde as campanhas publicitárias que ele criou. Lembra do Mude o sentido da sua vida? Eu achei impressionante. Dos logotipos que ele criou, das horas da madrugada trabalhando com Letraset (lembra?), das noites e noites trabalhando com serigrafia no paiol. Tive o prazer de compartilhar muito disso com ele e sempre fui inspirada pela fidelidade e pela gentil liderança com que ele administrava tudo.
Sempre estive perto do Carlos. Trabalhei com ele na Igreja, na Schause e em casa, muitas vezes. Estava com ele muitas vezes enquanto ele tomava o café com leite depois do almoço, enquanto desenhava projetos de circuito impresso, enquanto ele punha discos pra gente ouvir músicas diferentes ou enquanto ele lia as revistas técnicas ou a Veja (ou os gibis). A leitura do Carlos tem um jeito peculiar. Ele sempre dobra a revista na leitura e pra mudar a página ele usa o polegar. Eu notei isso. Não sei se alguém mais notou. Peculiaridades dele.
Eu lembro dos carros dele: o Dolphini branco, o Fusca Branco AC-1371 e o que eu mais gostava, a Brasília vermelha AG6525. Depois vieram outros, mas desses “mais velhos” eu vou lembrar pra sempre. Lembro quando ele quebrou o tornozelo brincando com os sobrinhos de Salto com vara. Lembro dele carregando os tijolos pra construção do muro, substituindo a cerca velha que rodeava os terrenos. Lembro dele explicando as tecnologias do futuro que estava descritas nas revistas técnicas que ele lia sempre.
Eu fui testemunha de quanto o Carlos lutou pela Sheilla. O quanto ele gostava dela e o quanto ele estava e é feliz do lado dela. Eu concordo! Ele fez uma excelente escolha. A Sheylla é mais um presente do Carlos pra todos nós e todos os primos vindos deles são presentes pra nossa família.
Posso afirmar que não vi, mas soube do Carlos vendendo alface na vizinhança do Cajuru pra aumentar a renda familiar nos tempos difíceis do começo. Soube que o Carlos escrevia pra Rádio Estadual do Paraná e ouvia as músicas clássicas que ele pedia pra ouvir no rádio. Também não conheci (só vi a foto) do famosíssimo carrinho de madeira que ele tinha em Rio Novo. Eu vi o Carlos pintando a casa, fazendo faixas, falando na frente de auditórios, dirigindo assembléias da Jubepar, visitando a gente em Londrina, sorrindo sempre. Mesmo cansado, sorrindo.
Os dias passaram e passam rápido e eu já estou aqui faz tempo. Tudo isso parece tão distante. Estou tão longe, mas tão perto ao mesmo tempo. Os dias são novos, mas poucas coisas boas se repetem. Fico feliz porque minhas lembranças são ótimas. Especiais. Lembro do Carlos sorrindo e, facilmente, choro de saudades de todos daí. A melancolia quer tomar conta, mas eu não vou deixar. Por aqui, parece que hoje ainda não vai chover. O dia já acordou, o sol está alto e brilhante. Vai ser mais um dia de sol. Mais um dia especial pras nossas vidas. Mais um dia pra vida do Carlos. Mais um dia pra gente agradecer por ele. Hoje é um dia de festa pra novas lembranças serem criadas. Parabéns, Carlos!
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