Há heróis celebrados e há heróis anônimos. Minha simpatia tende, naturalmente, por essa última categoria. Morreu ontem e foi enterrado hoje um homem que talvez pouca gente reconheça como herói, porque em sua humildade residia sua grandeza.
Eu queria poder cantar do fundo da alma uma canção que celebrasse os valores do homem simples, do homem generoso, o homem que se sujeita a servir, o homem generoso, o homem forte, o homem pai de família, o homem companheiro, o homem fiel, o homem bem-humorado, o homem constante, o homem disponível, o homem dócil, o homem supremamente gentil – o homem em cuja mansidão e humildade se entrevê a singular glória do Filho do Homem.
Em minha boca, no entanto, essa canção soaria hipócrita, fantasiosa e suja, destituída de absolutamente qualquer autoridade. A música no entanto existe e foi cantada a plenos pulmões, trovejante mas em silêncio perfeito, por esse de quem estou falando. Eu a ouvi.
Reconheço com assombro que amei e fui amado por esse homem. Lembro da vez em que ele me deu de comer e da outra em que ele me deu de vestir. Morreu, num acidente de carro, João Maria de Deus Santana, o Manso.
Creio na ressurreição dos mortos mas não na ressurreição dos exemplos: um exemplo como o do tio João só se tem uma vez. É aprender com ele, ou desonrá-lo.




