16 de Setembro de 2004

Fica vendo

Sujeito a cobrança por   Paulo Brabo

 

Estocado em Família

O Arthur, filho do Hélio, acaba de fazer dois anos e não pára de me surpreender. Outro dia o Hélio sentou-se pra tomar café e o Arthur foi chegando:

– O Arthur vai tomar café com o papai. A barriga do Arthur está dizendo: “Me dá pãozinho!” “Me dá pãozinho!”

Terminado café o ele disse:

– Papai, o Arthur vai descer da cadeira sozinho. Fica vendo.

Fica vendo. E desceu mesmo sozinho, mas ele já faz isso há meses.

Minhas visitas na casa do Hélio são às vezes muito curtas, e certa noite eu anunciei, não muito depois de ter chegado, que estava indo embora. O Arthur fez cara de triste, mas enquanto eu me despedia do Hélio e da Karline ele sumiu. Voltou depressa trazendo na mão um daqueles bichinhos de madeira que a gente esfrega nas costas dos outros pra fazer massagem, e anunciou:

– O Arthur vai fazer massagem no tio Paulão.

Puh.

Pois é, tive de ficar e ele ficou fazendo massagem nas minhas costas, por pelo menos uns cinco segundos. Uma hora depois, enquanto tentava fazer ele dormir depois de brincar de carrinho (“já é de noite”, ele observou com toda a lucidez, “tem a lua e as estrelinhas”), fiquei pensando como um pirralho daquela estatura tinha conseguido passar a perna num sujeito esclarecido como eu. Como ele me conhecia ao ponto de saber que a única coisa a que não resisto é uma massagem nas costas? Se consegue me manipular com dois anos, o que ele não me levará a fazer quando tiver três?

Droga, preciso arranjar um jeito de ter filhos sem ter de me casar.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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