06 de Novembro de 2004

Das tais

Auditado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas, História, Política, Sociedade

O fundador do cristianismo era homem especializado em crianças. Em 1819 foi proposta uma lei que limitava o trabalho de crianças de até nove anos a quatorze horas diárias.Ele não tinha medo de ver seus discursos perturbados por elas, e não as considerava supérfluas. “Das tais é o reino dos céus”, ele disse; e sua igreja herdou essa tradição – “apascentai meus cordeirinhos”. Havia crianças na Grã-Bretanha na primeira parte do século XIX, e podemos saber o que era feito delas recorrendo à História Industrial da Inglaterra, de Gibbins:

Algumas vezes traficantes comuns tomavam o lugar dos donos de indústrias e transferiam um certo número de crianças para uma região fabril e ali as mantinham, em algum porão escuro, até que pudessem repassá-las para um dono de moinho que precisasse de mão de obra, o qual então viria e examinaria sua altura, força e habilidades corporais, exatamente como faziam os proprietários de escravos nos mercados da América. Depois disso as crianças estavam simplesmente à mercê dos seus proprietários, nominalmente na qualidade de aprendizes, mas na verdade como meros escravos, sem direito a salário, que não valia à pena sequer alimentar e vestir de forma adequada, pois eram muito baratos e podiam ser facilmente substituídos. Normalmente as autoridades paroquianas providenciavam, a fim de livrar-se dos deficientes mentais, que um idiota fosse assumido pelo proprietário do moinho a cada vinte crianças sadias. O destino desses infelizes deficientes mentais era ainda pior que o dos outros. O segredo de seu destino final nunca foi revelado, mas podemos gerar uma idéia de seus pavorosos sofrimentos pelas tribulações enfrentadas pelas outras vítimas da ganância e da crueldade capitalistas. As horas de trabalho eram limitadas apenas pela exaustão, depois que diversos modos de tortura haviam sido aplicados sem resultado para obrigá-los a continuar trabalhando. As crianças freqüentemente trabalhavam dezesseis horas por dia, dia e noite.

No ano de 1819 foi proposta no Parlamento uma lei que limitava o trabalho de crianças de até nove anos de idade a quatorze horas diárias. Essa pareceria ser uma providência muito razoável, com grande probabilidade de ganhar a aprovação de Cristo; ainda assim a proposta foi violentamente oposta pelos empregadores cristãos, apoiados pelo sacerdócio cristão. Ela interferia na liberdade de contratação e portanto na vontade da Providência; era anátema para uma igreja estabelecida, cuja função era em 1819, como é em 1918 e como era em 1918 a.C., ensinar a origem e a sanção divinas da ordem econômica vigente. “Anu e Baal convocaram-me, ó Hamurabi, adorador dos deuses…” é como começa o código legal mais antigo que chegou até nós, de 2250 a.C., e a cerimônia de coroação da igreja da Inglaterra está fundamentada na mesma tese. O dever de submissão, não apenas ao rei divinamente escolhido, mas ao divinamente escolhido Latifundiário e ao divinamente escolhido Dono de Indústrias, está implícita em cada cerimônia da igreja, e explícita em inúmeros de seus credos. Na litania o povo suplica por mais abundante graça de modo a ouvirem mansamente “a Tua Palavra”; e transcrevo a seguir a “Palavra” na forma que obriga-se as criancinhas a decorarem. Se existe no mundo um sumário mais perfeito da ética escravagista, desconheço-o.

Meu dever para com meu próximo é [...] honrar e obedecer ao Rei e a todos que são colocados em posição de autoridade abaixo dele; submeter-me a todos os meus governantes, professores, pastores espirituais e mestres; conduzir-me de forma subserviente e reverente diante de todos que gozam de padrão social superior ao meu; não cobiçar os bens de outros homens, mas aprender a trabalhar verdadeiramente de forma a merecer meu sustento e cumprir meu dever dentro daquele nível social para o qual agradou a Deus chamar-me.

Upton Sinclair, em Os lucros da religião (1918)

Leia também:
A teologia do capital
As variedades da experiência capitalista
Verme maldito



Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail