O bater enfezado de asas do lado de fora atrapalha enquanto tento trabalhar; quando vou olhar vejo o tico-tico disputando uma luta de morte contra a sua própria imagem no espelho retrovisor do carro. Ele foge quando me vê, mas retoma o desesperado combate assim que desapareço da janela.

A luta se prolonga por dois dias, até que decido (não sei se por compaixão ou por tédio) levar o carro para longe do seu território.
Como o tico-tico, como os antagonistas do conto Os Teólogos, de Jorge Luis Borges, ignoro quantos de nós escolhem seu adversário sem saber que está combatendo a si mesmo.
Todo combate tem um pouco de narcisismo.

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