Fui sozinho ao cinema e estava lendo enquanto esperava as luzes diminuírem e o filme começar.
Meu filtro auditivo defletor, colocado automaticamente no nível de leitura, deixava penetrar laivos ocasionais da não muito animada conversa que corria entre um jovem casal sentado duas poltronas à minha esquerda. A voz grave e austera do cara fazia comentários incisivos, diretos, quase complacentes na sua clareza. A voz esganiçada e nasal da moça era muito mais impaciente, prolixa e de descontrolada oratória.
Não cheguei a descobrir sobre o que conversavam (o livro era certamente mais interessante), mas vez por outra chegava até mim uma frase, uma palavra, mais comumente uma entonação: a rude e máscula dele, a inquieta e quase neurótica dela. Um longo intervalo parecia se estender antes que o outro se dignasse a responder.
O filme também demorava a começar e ajeitei-me na cadeira, e foi só quando meus ouvidos mudaram de posição que fui capaz de, como dizem fazer as corujas, triangular a origem do som e diagnosticar que havia alguma coisa errada. Olhei disfarçadamente para a esquerda e vi que era ela que falava com a voz grossa e complacente, e ele com a voz inquieta e esganiçada.
Escondi o sorriso no livro e esbocei mentalmente uma crônica a la Luis Fernando Veríssimo, sobre as pequenas e absurdas tribulações de um casal em que o homem tem a voz mais fina que a mulher. Os dois no restaurante. Os dois ao telefone. Os dois no casamento. Os dois criando os filhos. Os dois no banheiro público.
Pensei em anotar, mas as luzes diminuíram e o filme começou. O mais que posso fazer é registrar idéia aqui na Bacia e esperar pelo melhor – uma brecha um dia para colocar por escrito. Pensando bem, dá até um seriado ou um romance. As Aventuras de Cidinha e Juvenal. Ele talvez a Cidinha, ela o Juvenal.
Posso quem sabe até colocar BASEADO EM FATOS REAIS.




