Eu conversava ontem com uma das inúmeras figuras que a internet me apresentou e a convivência virtual me deu o privilégio de acabar chamando de amigo: Julian Crouch. Esse sujeito Crouch (apelido Trout), que é um bem sucedido diretor artístico teatral inglês, estava me contando que mora em Londres numa casa minúscula de dois quartos com esposa e dois filhos pequenos, um de 3 anos outro de 11 meses. Ele disse que fica sem exagero apertado quando estão todos juntos em casa.
“Tenho de pensar que estou num barco”, disse o Trout. “Para um barco, é grande”.
Ele não quis dar em momento algum a impressão que estava insatisfeito ou rancoroso com a vida, por isso explicou que mora numa área legal, numa casa no alto de uma colina (“coisa rara aqui em Londres”), e pra resumir os privilégios da sua condição ele concluiu dizendo: I get to see some sky – “dá até pra ver um pouco de céu”.
Lembrei na hora da música Carta ao Tom, de Toquinho e Vinicius, que fala com saudade de uma época em que de um certo edifício no Rio de Janeiro ainda “se via da janela um cantinho de céu e o Redentor”.
A questão é, naturalmente, que nas grandes cidades um cantinho de céu entrevisto da janela é coisa rara e portanto preciosa. Eu, que vivo debaixo de milhas e milhas de céu aberto aqui no monastério (life without shoes, foi como descrevi meu dia a dia para o cara), fiquei envergonhadíssimo de viver melhor, com mais espaço e comendo melhor que um diretor artístico de Londres que não fica devendo em nada ao meu talento – e ainda é atencioso, paciente, querido, pai de família e irreversivelmente gente boa.
Ele perguntou se eu conseguia um “sustento decente” com a minha arte e eu expliquei que sou um cara muito simples e a vida no Brasil é muito barata. Logo em seguida me arrependi de ter dito isso; soou meio arrogante e meio falso na minha boca.
Cara simples é o Julian Crouch, que é feliz no seu barco em Londres iluminado por um cantinho de céu.

Alice
Paulo, você é um privilegiado de MUITAS maneiras. Acredite-me.:wink:
Paulo [brabo!]
”…você é um privilegiado de MUITAS maneiras.”
Alice,
Não diga assim que alguém pode pensar que você não é.