Nenhum escritor me intriga mais do que Jorge Luis Borges. Nenhum me satisfaz mais, e deixo aqui minhas desculpas a Shakespeare e a Lovecraft, mas também a inúmeros outros.
Em breves momentos de lucidez sou obrigado, no entanto, a reconhecer que a posição de Borges na literatura é pelo menos única – para não dizer precária. Eis aqui um autor menor que alcançou a consagração através de um gênero menor, a história curta; a poesia o interessava muito mais do que me interessa, mas como poeta Borges está apenas eventualmente acima do medíocre; sua obra “visível” não está nos austeros volumes de capa bege das Obras Completas, mas confinada entre as páginas de dois livros pequenos: O Aleph e Ficciones.
Já pensei em defender a teoria de que a maior sacada de Borges está encapsulada em duas de suas características: primeiro, seu estilo sintético, pseudo-clássico, que dá a impressão (quase acertada) de que estamos diante do narrador último e indefectível. Segundo, seu insight metalingüístico de tecer histórias ao redor de livros; os contos de Borges são quase sempre livros dentro de livros falando de livros. Para o leitor obcecado com a literatura (e, naturalmente, apenas o leitor é obcecado com a literatura), o encanto de Borges é evidente. O amante de livros sente-se mais tocado pela sua própria paixão por livros, adequadamente celebrada e incitada por Borges, do que pelo destino ou pelas peripécias de Quixote ou de Capitu.
Parte do sucesso do projeto literário de Borges está em ter investido no conceito, até onde eu saiba original mas de certa forma evidente, de que o leitor contemporâneo se interessa mais por livros do que por personagens.
Borges demonstrava o mesmo rigor quer seguindo consistentemente o seu projeto literário quer tecendo histórias inatacavelmente bem amarradas, arquitetonicamente perfeitas como catedrais. Não será inteiramente injusto comparar os contos de Borges a filmes como O Sexto Sentido e Memento, que almejam alcançar pouco mais do que o assombro do espectador, e cujo eventual sucesso depende em grande parte do rigor da execução. Borges, que fingia considerar o assombro em literatura um objetivo menor, persegue à todo custo o assombro e a incontida admiração do seu leitor.
Essa obsessão de Borges com a execução rigorosa de um argumento pode ser a chave para a compreensão de um aspecto fundamental da sua obra: que o projeto de Borges está embasado, em última instância, na glorificação do argumento. Borges acreditava, ou o seu projeto literário exigia que ele fingisse acreditar, que a idéia para um livro (um argumento) é mais importante (ou mais interessante, para um leitor hedônico) do que o livro em si.
Os verdadeiros protagonistas de Borges são menos livros do que idéias para livros. São presença constante, em seus contos, os personagens ocupados mentalmente “com a elaboração de um argumento para um conto fantástico” – tratam-se de personagens de livro pensando numa idéia para outro livro (quem sabe o mesmo). As idéias para livros (de Borges, mas impingidas artificialmente sobre nomes fictícios que são por sua vez personagens e porta-vozes dos argumentos de Borges) formam, de formas diversas, o eixo central de inúmeros outros contos: basta considerar o Exame da Obra de Herbert Quain, Três Versões de Judas e A Aproximação a Almotásim. Por vezes Borges cede e escreve uma história aparentemente “limpa”, mas cuja construção rigorosa denuncia que a intenção de Borges é que admiremos menos a trajetória aventurosa do personagem do que a excelência do argumento em si: coisas como O Sul e Emma Zunz.
Dito de certa forma, Borges elevou o esboço a uma condição igual ou superior à obra concluída; dito de outro, sua abordagem única mostrou-se capaz de interessar infinitamente a escritores ou àqueles que aspiram à condição de escritores – ou seja, praticamente todo leitor contemporâneo. Todos nós que temos ou sonhamos em ter “uma idéia boa para um livro”.
Borges nunca escreveu uma obra longa e muitos perguntam-se ainda porque. Borges manteve-se consistentemente fiel aos seu projeto literário, eis o porquê. Se o argumento de Os Irmãos Karamazovi não pode ser resumido em dois ou três parágrafos, interessa mais a um leitor do que a um escritor – e Borges finge não ter interesse em fazê-lo.

manuel
Borges é fascinante, não tanto por conceber livros mas por conceber bibliotecas. Ultimamente tenho andado à volta de Paul Auster e, salvaguardadas as devidas distâncias, é notável como se vê nele a influência de Borges. Lembro-me também da menção que é feita a um dos livros imaginários de Borges em “O Ano da morte de Ricardo Reis” do Saramago – um suposto livro de detectives que não passa de um jogo de xadrez…
Jol Lorib
Paulo,
Aproveitando que reapareceu aleatoriamente este topico sobre Borges, e sem discordar de voce em nada, gostaria de perguntar se notas que contos de Borges, como p.ex. “O Jardim dos Caminhos Que se Bifurcam” e a historia de Tzinacán e o Jaguar no fosso (cito de memoria, me perdoe algum erro) parecem viagens iniciaticas, onde os personagens sao obrigados a escolhas tragicas, premidos pelo tempo que escoa rapido.
Paulo Brabo
Creio que em Borges o tempo escoa rápido – ou assim nos parece – pelas pressões da brevidade: o argumento precisa ser satisfatoriamente resumido, então só resta tempo para o clímax. Borges passa de lado o que se costuma chamar de caracterização e desenvolvimento, e parte direto para o abraço: o momento em que o personagem está definitivamente apertado pelo conflito e é obrigado a se posicionar.
Na verdade, ele espera que esse momento de decisão seja toda a caracterização de que precisa o leitor. O próprio Borges comentou (creio que no posfácio de Ficções) ter sido constantemente elogiado por escolher para seus contos momentos que definem com absoluta clareza o caráter de seus personagens.
Neste sentido todos os seus contos são histórias de iniciação (mesmo as que se estendem ao longo de anos: O Imortal), porque ele parte do pressuposto – hoje tido como ultrapassado – que nossas decisões nos definem.
alex ribeiro cerqueira
Fascina a ‘costura’ que Borges faz entre o real e o fictício, criando uma atmosfera de verossimilhança, em que pode contar quaisquer absurdos com certa ‘autoridade’, como se fizesse um relato histórico. Em alguns momentos, parece mesmo ‘fundir’ a história com a ficção. Tenho a impressão que muitos autores modernos (alguns best seller) se inspiraram no mestre anglo-argentino e trilham este caminho, que agora é querido pelos leitores e pela mídia.