31 de Maio de 2004

Antes isso

Depositado em juízo por   Paulo Brabo

 

Estocado em História, Política, Sociedade

7 de setembro de 1937, Curitiba.

O General José Meira de Vasconcellos, recém-chegado à região como comandante da 5a Região Militar e 5a Região de Infantaria, assiste às festividades locais organizadas para celebrar a data máxima da nação.

Vasconcellos está agitado na cadeira. Para começar, o desfile das tropas não é recebido com a empolgação que o General esperava de uma gente brasileira numa ocasião cívica. “Antes criarmos ignorantes que criarmos traidores.”O povo o recebe “frio, os jornais mornamente, as sociedades e colégios tristonhamente”. Mas é o que vem a seguir que o deixa horrorizado.

Vasconcellos descobre que na capital do Paraná quem resta para celebrar a data da independência é a juventude das sociedades estrangeiras: em particular, a então popular Juventude Hitlerista do Parana.

O General não odeia Hitler como nós (a Segunda Guerra é ainda uma sombria possibilidade no futuro), mas ele não consegue engolir uma afronta daquela natureza à “unidade nacional”. Nos meses seguintes Vasconcellos diagnostica que na Região Sul proliferam imúmeros “quistos” de cultura estrangeira – especialmente alemã, polonesa e italiana -, núcleos “isolados da vida nacional”. Ele alerta contra a “atitude internacional que insidiosa, traiçoeira e cavilosa, vem minando o ambiente da vida nacional, na preparação lenta do nosso aniquilamento”, e decide dar início ao que viria a ser conhecido como a Campanha de Nacionalização.

Sob a liderança de Meira Vasconcellos, Curitiba transforma-se na “Meca do civismo nacional”. Segue-se um número “sem par de festas cívicas, realizadas e conduzidas com impressionante elevação patriótica, por uma plêiade de oficiais, que sob a orientação máxima do General, empolgaram a Divisão e o povo”.

Sob a liderança de Meira Vasconcellos, Curitiba transforma-se na “Meca do civismo nacional”

Na prática, o que a Campanha fez foi fechar escolas e sociedades estrangeiras e proibir reuniões ministradas em outras línguas. O impacto nos três estados da Região Sul, onde grande parte das escolas eram estrangeiras e nas igrejas os sermões eram pregados na língua dos imigrantes, foi incalculável.

“Na Escola Alemã [de Curitiba] tudo era alemão, desde o nome das classes escrito nas paredes, aos quadros que representavam personagens, paisagens e cenas históricas alemãs, aos professores alemães ou de origem, às aulas que eram todas ministradas em alemão, aos programas de ensino igual ao aprovado na Alemanha, ao regime escolar, à disciplina, ao método de educação física.”

Quem descreve é o Tenente Hugo Bethlem, em seu Vale do Itajaí – Jornadas de Civismo, de 1939. No interior do Paraná inúmeras escolas, especialmente as organizadas pela colonização polonesa, foram fechadas. Bethlem dá conta do processo:

“Com a decretação das novas leis, a Campanha de Nacionalização enveredou pelas escolas e pelas associações, lutou energicamente (…) e fecharam-se muitas escolas. Fecharam-se e não se abriram outras, porque o Estado não tinha ou não podia dar os professores. Mas embora constitua um erro, embora constitua um grave incoveniente, fechar uma escola e não abrir outra, foi preferível que assim se fizesse, como brilhantemente sintetizou o General em seu pensar candente: ‘Antes criarmos ignorantes que criarmos traidores’.



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