30 de Dezembro de 2004

A alma-gêmea e a fidelidade

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Homens e Mulheres

Praticamente todos os casamentos, até mesmo os felizes, são erros – no sentido de que com quase toda a certeza (num mundo mais perfeito, ou até mesmo com mais cuidado neste nosso mundo bastante imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado parceiros mais adequados. Porém a verdadeira “alma-gêmea” é a pessoa com quem se está casado.

Você na verdade escolhe muito pouco: a vida e as circunstâncias fazem a maior parte (embora, se existe Deus, esses devem ser seus instrumentos, ou aparições dele). É notório que na verdade os casamentos felizes são mais comuns quando a “escolha” dos jovens é ainda mais limitada, pela autoridade parental ou familiar, desde que exista uma ética social de responsabilidade não-romântica e de fidelidade conjugal.

Porém até mesmo nos países onde a tradição romântica afetou de tal maneira os arranjos sociais de modo a fazer as pessoas acreditarem que a escolha do parceiro é questão que diz respeito apenas aos jovens, apenas a fortuna mais infreqüente junta um homem e uma mulher que são realmente “destinados” um ao outro, e capazes de um amor muito grande e esplêndido.

A idéia ainda nos fascina, agarra-nos pela garganta: poemas e histórias em multidão foram escritos sobre o assunto, mais numerosos, provavelmente, do que o total de amores dessa natureza na vida real (e ainda assim a maior parte dessas histórias não fala de um casamento feliz de tão admiráveis amantes, mas da sua trágica separação; como se até mesmo nessa esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo decaído sejam mais aproximadamente obtidos pelo “fracasso” e pelo sofrimento).

Em tal grandioso e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, capturamos um relance, suponho, do casamento como deveria ser num mundo não decaído. Neste mundo decaído temos como guia apenas a prudência, a sabedoria (rara na juventude, e que vem tarde demais na velhice), um coração puro e a fidelidade da vontade.

J. R. R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis

Março de 1941, numa carta a seu filho Michael

Leia também:
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Um comentário a respeito de "A alma-gêmea e a fidelidade"

Alice

Gostei MUITO da expressão “fidelidade da vontade”. É muito especial. Você tem que querer e daí você consegue ser feliz. EU SEI!



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