Surpreende-me não que os nazistas supusessem (com base em falsa ciência, como ficou provado) que os arianos fossem uma raça de algum modo “superior”, mas que eles acreditassem sinceramente que, como raça superior, tinham o direito de relegar a um segundo plano e de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças que eles sabiam “inferiores”.
A grandeza, segundo essa visão, é caracterizada pela liberdade com que o superior pode dispor do inferior – pelo quanto é livre para escanteá-lo, ignorá-lo, dominá-lo, usá-lo como capacho e como bucha de canhão e por fim, sendo necessário, livrar-se dele da forma menos inconveniente possível. A raça superior, supõe esse raciocínio, não teria nenhuma outra para prestar contas: ninguém para respeitar, ninguém diante de quem se curvar, ninguém para impedi-la de alcançar os seus objetivos “superiores”.
Surpreende-me que os nazistas acreditassem que, como raça superior, tinham o direito de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças “inferiores”.
Os nazistas perderam a guerra mas triunfaram da forma mais abrangente em deixar o mundo pós-Guerra (o nosso mundo) impregnado desse sentimento e dessa pregação. Hoje em dia virtualmente todos no mundo ocidental acreditam e vivem pelo conceito aparentemente tão auto-explicativo de que quem é “superior” tem direitos inerentes sobre quem é “inferior”. O capitalismo, que os nazistas tanto desprezavam, está baseado no mesmo conceito que os norteava: o superior pode e deve ganhar com o serviço do inferior.
Vale lembrar que o cristianismo está fundamentado em premissas diametralmente opostas, pelo menos tão imediatamente incompatíveis com o capitalismo quanto com o nazismo. Segundo a visão tão ultrapassada de Jesus, grande é quem ousa curvar-se diante do inferior e servi-lo. A grandeza é caracterizada pela renúncia voluntária; como enfatizou Henry Nouwen, quem quer ser realmente grande precisa aprender a descer até a grandeza.
Esquecemos, todos nós, cristãos ou não, e da forma mais conveniente, tanto do holocausto quanto das exigências insanas de Jesus: somos todos nazistas agora, todos egoístas esclarecidos, todos absolutamente convictos de que somos dignos de nossos privilégios, pelo menos naquilo que nos sabemos superiores a – pelo menos – tantos.
Apenas a raça superior sobreviveu à guerra.



Juliano
Será que com o passar do tempo o inferior não vai se cansar e mudar esta regra?
Paulo [brabo!]
Poucas chances, Juliano amigão, do “inferior” tentar mudar a regra de qualquer forma significativa. Por um lado, ele trabalha duro pra se sustentar e lhe falta pouco tempo livre para refletir sobre a injustiça do sistema. Por outro, ele foi muito bem catequizado na nova religião, e acredita sinceramente na noção (basicamente falsa) de que se trabalhar duro o suficiente poderá chegar a ser tão rico quanto o mais rico entre nós – e que, portanto, o sistema é inerentemente justo.
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Natanael
Tudo o que Jesus ensinou, não deve ser aplicado somente a este mundo. Ele mesmo disse: “O meu reino não é deste mundo”.
Jesus nunca quis formar um novo tipo de classe social paralelo às então existentes. Os seus ensinamentos são espirituais e morais e devem ser entendidos como tais; do contrário, nós, os cristãos, seríamos a pior espécie de covardes no mundo, mas isso não é verdade.