30 de Março de 2004

A Paixão Humana

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença

Fui esta tarde com o Ivan assistir The Passion Of The Christ. Confesso que estava hesitando em assistir o filme, porque ficava me perguntando se seria justo com Jesus enfocar o sofrimento dele como cerne da sua mensagem.

Pois fui e gostei. Chorei a maior parte do tempo, mas isso já era de se esperar. Como cinema e como celebração do Espírito de Cristo, achei muito legal. Nada foi fortuito e todas as passagens e flashbacks muito bem amarradinhos. Fiquei com mais pena de Pilatos do que Jesus, é verdade, mas Jesus sabia o que estava acontecendo.

Rolou, entretanto, um vazio existencial quando saí do cinema. Não que eu tenha sentido que o filme tivesse sido insuficiente, injusto ou deficiente. Pelo contrário, fica claro que Mel Gibson atirou-se de corpo e alma na sua missão e produziu o filme sobre Jesus mais fiel ao Espírito de Cristo que jamais vi. Como é bom ver um Jesus que não é soft – que parece um cara, não um ET ou um delicado andrógino que qualquer vento derruba. As tensões da multidão, as grandes farsas, as tremendas traições e os pequenos heroísmos foram representados de forma magistral.

Parte da minha frustração, naturalmente, advem do fato de perceber que não vivo de forma digna do Senhor que o filme celebra. A consistência irrepreensível de Jesus contrasta de forma dilacerante com a minha própria inconsistência. Mas não creio que esse sentimento seja ruim. É uma coisa boa.

Concluo, no entanto, que minha frustração com o filme não vem só disso. Vem, no final das contas, do fato do filme ser apenas um filme. Isso é que no final das contas me soou imperdoável, ver a mensagem de Cristo reduzida a um vouyerismo de celulóide.

Estava tristemente certo o cara que disse que o meio é a mensagem, porque o veículo apropriado para a mensagem cristã não é um filme. Não é o celulóide. Não é nem mesmo um livro, porque senão o Antigo Testamento teria bastado. Há na verdade um só vaso (um só meio) que comporta a mensagem cristã: uma vida humana, um corpo humano, um exemplo humano – uma paixão humana. E a vinda, a história e a ressurreição de Jesus são justamente a prova definitiva e irrefutável disso. Jesus redimiu a condição humana ao ponto de tornar um corpo humano um vaso puro capacitado a representar e estabelecer o reino de Deus na terra. Por isso é que celebrar a mensagem de Cristo sem que seja através do veículo que ele nos desafiou a usar (nossa vida, nosso corpo, nosso exemplo), é em última instância insuficiente e – temo – contraproducente.

A Paixão de Cristo não tem verdadeiro valor quando é reencenada, mas quando é vivida. Eu é que deveria estar fazendo isso.

Isso é que é imperdoável.



Um comentário a respeito de "A Paixão Humana"

Marcos

Cara, reencenar pode realmente não ter valor, mas acredito que se temos uma alma realmente “doutrinável”, ou mansa, toda escritura tem poder de reaviver significados, a Palavra é viva, se não o fosse, as palavras de Cristo teriam passado, e mais, não ficaríamos repetindo-as ano aos ano… achei o filme belo (o idioma, nossa!) e o que a princípio me pareceu uma idéia meio sem inspiração (a violência sendo explorada até em filmes sacros), depois me parece útil num campo onde é dificílimo trabalhar: sensibilizar uma mente endurecida por violência e pornografia… me ocorre que uma mente embotada por toda a carne moída dos filmes Xrated só possa ser sensibilizada à crueldade aplicada ao Salvador de forma tão contundente. Vejo cumprimento da Palavra, vejo a pedra do Reino rolando, e não mais um filme patético de religião…



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