J. R. R. Tolkien (e quero enfatizar sempre isso, eu que prefiro casas velhas de madeira) desconfiava da modernidade tanto quanto da democracia. Ele acreditava que, do mesmo modo que a democracia radical (todos os homens são iguais) era uma afronta ao que ele cria ser o caráter único do indivíduo (todos os homens são únicos e infinitamente distintos), a obsessão com a tecnologia mecanizava a alma da humanidade.
Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média.
Em 1955, numa entrevista, um repórter de Nova Iorque perguntou a Tolkien o que o fazia clicar [gíria da língua inglesa para “motivar, tocar intensamente”]. “Eu não clico”, respondeu Tolkien, “não sou uma máquina. E, caso clicasse, não teria opinião formada a respeito. Você teria de perguntar ao que me daria corda”.
Essa desconfiança com o culto ao “progresso” aparece claramente em O Senhor dos Anéis. Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média. Os hobbits conhecem apenas as máquinas mais simples, e suas casas são tocas escavadas nas encostas das colinas: para costruí-las não é necessário derrubar árvores e nem mesmo mover rochas do local onde repousam há milênios. Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificado pelo desespero de Sam ao encontrar as árvores do Condado derrubadas e substituídas por feios barracões. Ainda mais que os hobbits, os elfos de Lothlörien aprenderam a viver sem “impactar” o meio ambiente de qualquer forma. Os ents mobilizam-se para vingar as árvores derrubadas por Saruman e enterram o seu reino sujo, corrompido e mecanizado debaixo de um inclemente dilúvio de águas purificadoras.
É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens.
Hoje em dia bosques e florestas não são mais protegidos por elfos e os Homens pisam-nos a seu bel-prazer. Duas das mais bonitas montanhas da região onde moro ostentam em suas encostas gigantescas feridas abertas de pedreiras empoeiradas. Rios sujos, nascentes aterradas e árvores caídas são elementos tão comuns do meu cenário imediato que sou culpado de deixar por completo de percebê-las, sem jamais ostentar a indignação justificada de Sam.
É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens. Por centenas de anos antes do Descobrimento eles conviveram com a paisagem natural sem alterá-la de qualquer forma representativa. Como os seres mais sábios da Terra Média, eles na sua “selvageria” intuíam que destruir a integridade das coisas simples e eternas, como árvores e rochas, era um ataque ainda maior à alma humana do que à alma das coisas.
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A ansiedade das coisas



guido
Engraçado como podemos entender de forma diferente a mesma coisa. Aki na Itália Tolkien foi apropriado pela direta mais reacionária.
Os “campo hobbits” è o nome dos radunos dos extremistas de direta. Mas tambem era amado por os Yppie dos anos 70.
guido