
Assisti esta semana, finalmente e pela primeira vez, a versão original de A Bolha Assassina [The Blob, 1958]. O filme me surpreendeu por vários motivos, eles por si mesmos surpreendentes: embora o orçamento não tenha sido aparentemente maior do que o dos filmes de terror/ficção dos anos 40 e 50 que estou acostumado a curtir, a mão do diretor é menos pesada e o roteiro menos previsível. Surpreendeu-me muito o fato do filme ser colorido, e em Technicolor – eu teimava com a Alice que era em preto e branco.
Agora, eu podia esperar tudo, menos que A Bolha fosse uma espécie de Grease (Nos Tempos da Brilhantina) de terror, com direito a gangues de garotões com topetes de brilhantina, mocinhas de vestido rodado e rabo de cavalo, rachas automotivos noturnos e pais e tiras durões exigindo saber o que os meninos estão fazendo acordados àquela hora da noite – mesmo que fosse para salvar o mundo.
Aparentemente a grande sacada do filme, imitada por praticamente todas as produções do gênero que vieram depois, foi colocar pela primeira vez os jovens no centro da ação. Os heróis de A Bolha Assassina, fica exaustivamente claro, são os descolados teenagers que povoam, inocentes e incompreendidos, a noite da pacata cidadezinha. Com exceção do policial Dave, os adultos do filme são todos obtusos e especializados demais para serem capazes de reconhecer uma ameaça para a qual não possuem uma referência – quanto mais para combatê-la eficazmente. Os jovens, ao contrário, são ágeis, não-especializados e conectados, numa era que ainda precede a internet. Num instante, uma rede informal, bem-humorada e eficiente de jovens e adolescentes supre o que falta para derrotar a Bolha no confronto final.
A grande sacada do filme foi colocar pela primeira vez os jovens no centro da ação.
Em praticamente todos os filmes de terror/ficção das décadas que precederam A Bolha Assassina os protagonistas eram inquestionavelmente adultos em idade e postura. Os dois filmes do gênero que assisti imediatamente antes de A Bolha, Tarântula [Tarantula!, 1955] e O Estranho Mundo do Planeta X [Strange World of Planet X, 1957] não são exceção, e neles a mocinha tinha pelo menos trinta e o herói quase cinquenta anos de idade – se não mais. Eram, como diria-se hoje, tios – quase avôs.
Em A Bolha, no entanto, tudo é estudadamente jovem, começando pelo visual psicodélico e pela anacrônica baladinha tipo Jovem Guarda que acompanham os créditos iniciais. É provável que as audiências de hoje não engulam o casal central como jovens em idade de escola secundária (Steve McQueen tinha 28 anos quando interpretou o papel), mas a idéia revolucionária já estava lá.
No cinema lotado que aparece em determinado momento do filme, jovens e crianças estão assistindo às gargalhadas um filme de terror que segue a velha fórmula (o filme é em preto e branco e estrelado por Bela Lugosi, ele mesmo um tio). O único velho no cinema é um velho chato, e está sentado no fundo do cinema, perto de onde o monstro vai escorrer dali a minutos.
Mensagem subliminar: os velhos não sobreviveram à Bolha – e os anos 60 nem haviam começado.


Alice
Você assistiu a um SUPER CLÁSSICO. Parabéns!
(Você precisa por o emoticon do aplauso aqui). Beijos.
Paulo [brabo!]
Esse é clássico mêijmo, aquilo que os americanos chamam de a seminal work: influenciou tudo que veio depois.
juliano... aquele mesmo amigo!
“Cága”… você tem q assistir o filme Freaks… muito bom… classico do trash, tenho como conseguir se tiver interessado.
Abraços!
Paulo [brabo!]
Juliano, amigão! Já assisti sim, depois de muito garimpar, o filme que você menciona: o surreal Freaks, dirigido por Tod Browning em 1932. O que é aquilo? Muito legal também e na mesma linha perturbadora é The Unknown, um filme mudo de 1927, do mesmo diretor.