
Ontem estava pensando na família do tio Alberto e da tia Vilma, que me deram cinco primos, e fiquei com muita saudade deles – e da casa de família grande, espécie em extinção, que eles representaram para mim.
Sim, porque hoje a norma é ter-se, quando muito, um filho só – uma paternidade por assim dizer cirúrgica, planejada e exercida em ambiente com todas as variáveis controladas. Monitoração pela internet.
Família grande hoje em dia é a do Carlos e a Sheylla, que perderam todo o senso do economicamente correto e tiveram três.
Longe vão os dias de casa cheia, de gente repartindo o mesmo espaço vital – o mesmo quarto, o mesmo guarda-roupa, a mesma televisão. Levantou-se uma geração que não sabe o que é fila para usar o banheiro, esperar todo mundo para sentar-se à mesa, exigir a divisão milimétrica do último pedaço do bolo. Não conhece a experiência de conviver com alguém de idade na mesma casa.
Na casa repleta do tio Alberto, eu sei, havia tudo isso – e como eu os invejava. Eu, que tinha duas míseras irmãs mais velhas, quando meus quatro primos (e uma prima) eram obrigados a empilhar-se em beliches em quartos abarrotados. Havia naturalmente um charme adicional no fato de que eles moravam em casa de madeira numa propriedade semi-rural – com direito a pasto, vacas, porcos, milharais, coelhos e galinhas. Para mim eles eram os Waltons. Minha própria versão dos Waltons.
Pensando em retrospecto, ter vários filhos implicava em muitos riscos – muitas variáveis para controlar e muitas provisões para acumular para o futuro. Era economicamente arriscado em muitos sentidos. Mas a vitalidade daquela casa e de outras casa repletas que conheci (a da Dona Carmelita em Urubici, da Dona Hulda em Campinas, só para citar duas) me leva a lamentar de coração a extinção do gênero.
Quem não esteve numa casa repleta não tem como saber o que é sentir-se acolhido. Quem tem todo o espaço para si acaba privado de descobrir que o mais precioso é o espaço preenchido ao seu redor.


Isa
O interessante é que mesmo os filhos do tio Alberto não tiveram mais de dois filhos (pelo menos por enquanto). Talvez nossa visão de família grande seja utópica já que eles que a experimentaram fizeram outras opções… Analisando a ávore da família, da terceira geração (netos da vó Vergínia) só a Valmari teve mais de dois filhos… e com boa diferença de idade…
Alice
O tio Alberto não só teve os 5 filhos, mas também teve filhos “adotivos”. Sempre mais gente morando na casa: o Dionaldo, o Edson… dos que eu lembro. O interessante também é que a gente SEMPRE era recebido como filho lá. Eu e a Isa íamos lá quando sentíamos falta de um ambiente familiar, morando na CEUC. Era muito bom.
Alice
Outra coisa. É impressionante pra mim aqui nos EUA como eles ainda tem famílias grandes. Quatro filhos não é coisa difícil de achar. Na Igreja a gente vê a família e as meninas vestidas iguais. Já vi 3 meninas de diversos tamanhos, com vestidos iguais. Só aqui.
Eles tem recursos pra sustentar uma família maior e ainda o gosto de fazer os filhos vestirem-se iguais. Meu sentimento é um tanto melancólico. Difícil de explicar, mas eu gosto de famílias grandes também.
Lúcia
Na casa da D. Hulda somente nós arriscamos ter 2 filhas. Realmente somos acolhidos e amados naquela família e ainda mantemos a tradição de “amontoarmo-nos” para as fotos. Você precisa estar conosco mais vezes!
Paulo [brabo!]
“Aqui nos EUA como eles ainda tem famílias grandes.”
“Aqui no Mississippi”, você quer dizer. Duvido que o mesmo valha para os estados de ambas as costas.
Creio que, pelo menos no Brasil, a extinção da família grande tem pelo menos duas explicações: a técnica (na época nos nossos pais o controle da natalidade efetivo era ainda coisa experimental e até certo ponto controversa) e o econômico, com ênfase nesse último. Filhos numerosos podiam ajudar a mãe a cuidar da casa e o pai a cuidar da propriedade ou do negócio; um número grande de filhos podia ainda garantir uma velhice segura, com muita gente para cuidar dos velhinhos. Com a mudança do eixo econômico do negócio familiar para as carreiras individuais, a equação se inverteu, e ter muitos filhos tornou-se muito mais caro do que não ter.
Alice
Você deve estar certo. Aqui no Mississippi. EU gosto das famílias grandes do Mississippi então.
Noemi (Mima)
Foi gostoso demais fazer parte desta grande família grande. Tenho saudades do tempo em que a união estava acima de qualquer dificuldade. Sinto falta de todos os meus primos do coração, brincando na casa do tio Alberto (pai), soltos e despreocupados com o futuro que hoje vivemos. Onde quer que estejam queridos, um lugar no meu coração vocês tem.
Acho que neste momento tem tio com dor de cotovelo, mais saibam que sem vocês estes primos não existiriam. Beijos do coração. Noemi
hernan
Meus pais tiveram 7 filhos e agora têm, salvo engano mas no mínimo, 21 netos, sem contar os um ou dois que eu ainda darei, se Deus assim o quiser e meu bolso permitir (mais este que aquele).
Uma conhecida nossa dizia que Deus sempre quer, a gente é que tem que controlar.