Meu pai, que gosta de se considerar um sujeito pragmático, usa o termo “poeta” como xingamento. “Fulano é um poeta”, ele diz, querendo dizer “fulano é um irresponsável, vive fora da realidade”. A verdade é que, como diria Borges, algumas vezes a gente é obrigado a se relacionar com poetas – ou até mesmo gente pior.
Porque meu pai tem, e muito mal-disfarçada, uma veia poética que sangra regularmente. Ele lê furiosamente, curte palavras charmosas e fora-de-moda e faz questão de escolher expressões evocativas e nostálgicas para referir-se aos objetos mais comuns. Bacia das Almas é o nome que ele deu à bacia de alumínio gamela de madeira do seu paiol de ferramentas à qual remete todas porcas, arruelas e parafusos para os quais não vê aplicação imediata. É na Bacia que vão repousar, talvez para sempre, os rejeitados, os tortos, os empenados, os marginais, aqueles que não se encaixam – vivendo eternamente na improvável esperança de se tornarem úteis novamente, ou pela primeira vez.
Como todos nós.

Meu pai não pode saber, mas é um poeta ele mesmo. O que ele sabe, como ele mesmo diz, não está escrito nos livros.

