Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
22 de Dezembro de 2004

Da preciosidade das memórias

Nostalgia

A memória é em parte uma caixa mental de lembranças (metálica, daquelas antigas de biscoito, já enferrujada e com os cantos amassados) guardada debaixo da cama da consciência, repleta de cartas enviadas e recebidas, cartões postais de lugares que nunca visitamos, fotografias, sabores e águas de mar, conchas e pauzinhos de canela, sorrisos e perfumes, abraços roubados e mechas de cabelo, pés descalços e flores secas, infinitas miudezas e preciosidades que você pode revirar e revisitar o quanto quiser.

Deve ser a proximidade do Natal que me leva a voltar nostalgicamente ao assunto da nostalgia, mas é inevitável pensar que as desnorteantes facilidades dos tempos modernos estão mudando também o modo como enxergamos, visualizamos e categorizamos as nossas lembranças, a nossa visão do passado e – conseqüentemente – daquilo que importa em nós mesmos.

Nosso relacionamento com as nossas memórias tornou-se mais vertiginoso, imponderável e caracterizado por um amargo afastamento.

O exemplo mais evidente que me ocorre é o da fotografia, que já foi – pasme-se – coisa rara e importante.

Não resta, que eu saiba, nenhuma foto do meu avô quando criança. Do meu pai contamos aqui em casa uma dúzia, talvez menos (em nenhuma ele aparece sozinho). Minhas, fotos em que apareço quando criança, deve haver, digamos, umas duzentas. Hoje em dia, uma criança de classe média tem mais de duzentas fotos tiradas dela mesma antes de completar um ano de idade – algumas, antes de sair da maternidade.

Alguém pode argumentar que uma fotografia digital (que é o que resta) é coisa imponderável demais para ser considerada uma foto de verdade, mas é justamente esse o meu ponto. Nosso relacionamento com as nossas memórias tornou-se mais vertiginoso, imponderável e caracterizado por um amargo afastamento. As recordações são angariadas num ritmo tão alucinante que, no final das contas, perdem todo o sentido. Filmamos o pôr-do-sol para assisti-lo obedientemente na televisão, enquanto outro sol está nascendo lá fora. Alguém, fatalmente, está filmando.

Vivemos dentro da caixa de lembranças, e não nos resta nem um momento livre para apreciá-la.

Leia também:
O fim do passado e do futuro

21 de Dezembro de 2004

O egoísta esclarecido e as gorjetas defensivas de Natal

Sociedade

Money Magazine, dezembro de 1991

«Na época de Natal você deve demonstrar às pessoas que trabalham pra você o quanto aprecia o trabalho delas – traduzindo: se não, você sofrerá as conseqüências no ano seguinte.
Tenha em mente uma espécie de Marxismo às avessas: a cada um segundo a sua necessidade (não a deles). Quer dizer, dê a gorjeta mais generosa a quem puder causar-lhe o prejuízo maior.»

20 de Dezembro de 2004

Papai Noel

Ilustração

19 de Dezembro de 2004

As luzes de Campo Largo

Fotografia

Morávamos na tórrida Londrina, que era também cidade nova demais para ter qualquer prédio antigo e portanto qualquer interesse, e eu contava os dias para o momento, perto do final do ano, quando meus pais, minhas irmãs e eu empreenderíamos a (para mim) longa viagem de carro até Curitiba, onde passávamos todos os Natais. Bem, talvez não todos os Natais, mas todos os bons.

Lembro com clareza que o momento do trajeto que me emocionava era quando, já de noite e no final da viagem, passávamos de carro por uma Campo Largo adormecida, as casinhas e pequenas lojas que ladeavam a rodovia decoradas para o Natal, as árvores dos quintais singelamente iluminadas com lâmpadas muito coloridas, daquelas grandes, do tamanho de uma ameixa. Aquilo para mim epitomizava o Natal mais do que absolutamente qualquer coisa (até mesmo mais do que as cantatas de Natal da Igreja Batista do Cajuru, o que é digno de nota); que eu soubesse ninguém em todo o mundo enfeitava suas árvores (que não eram em sua maior parte nem ao menos pinheiros, mas árvores comuns) daquela maneira – pelo menos não, eu estava certo, na árida Londrina de onde eu escapava.

Passar por Campo Largo significava, em especial, que estávamos abençoadamente perto de Curitiba, com seu clima ameno, florestas de pinheiros, casas de madeira em estilo europeu (com direito a pitorescas e minúsculas janelinhas no sótão) e iluminadas nuvens alaranjadas cruzando o céu noturno.

Como um João Batista às avessas, que pregava em silêncio e de dentro dos quintais, as luzes de Campo Largo anunciavam o frescor perene e o fim dos desertos: a terra de todos os sonhos, que manava mel e nata, estava próxima.

_

Para ver mais fotos que tirei de Campo Largo na visita de nostalgia que fiz à cidade no dia 12 deste ano… continue lendo >

18 de Dezembro de 2004

O egoísta esclarecido e a prosperidade universal

Goiabas Roubadas, Sociedade

Bendito seja Dostoiévski, que colocou na boca do personagem mais detestável de Crime e Castigo um discurso que faz hoje a cabeça de ainda mais gente do que no tempo dele:

«Não, não se trata de lugar comum, meu senhor! Se até agora, por exemplo, diziam-me para ‘amar o meu próximo’ e eu o amasse, qual seria o resultado? O que acontecia é que eu rasgava a minha túnica em dois, compartilhava-a com o meu próximo e ficávamos os dois meio nus, em concordância com o provérbio russo que diz que quem corre atrás de muitas lebres fica sem nenhuma.»

«Porém a ciência diz: ‘ama-te a ti mesmo acima de tudo, porque tudo no mundo está fundamentado no interesse próprio’. Se você ama a si mesmo conduzirá os seus assuntos sensatamente, e a sua túnica permanecerá uma única peça. A verdade econômica acrescenta que quanto mais sensatamente conduzidos são os negócios pessoais e, por assim dizer, mais túnicas inteiriças há na sociedade, mais firmes são as suas fundações e melhor arranjada a sua causa comum.»

«Conclue-se que ao beneficiar economicamente única e exclusivamente a mim mesmo, estou dessa forma precisamente beneficiando economicamente a cada um, por assim dizer, e trabalhando para que o meu próximo tenha mais do que uma túnica rasgada, não mais como resultado de generosidades particulares e isoladas, mas como resultado da prosperidade universal.»