Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
26 de Dezembro de 2004

A raça superior

Fé e Crença, História, Sociedade

Surpreende-me não que os nazistas supusessem (com base em falsa ciência, como ficou provado) que os arianos fossem uma raça de algum modo “superior”, mas que eles acreditassem sinceramente que, como raça superior, tinham o direito de relegar a um segundo plano e de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças que eles sabiam “inferiores”.

A grandeza, segundo essa visão, é caracterizada pela liberdade com que o superior pode dispor do inferior – pelo quanto é livre para escanteá-lo, ignorá-lo, dominá-lo, usá-lo como capacho e como bucha de canhão e por fim, sendo necessário, livrar-se dele da forma menos inconveniente possível. A raça superior, supõe esse raciocínio, não teria nenhuma outra para prestar contas: ninguém para respeitar, ninguém diante de quem se curvar, ninguém para impedi-la de alcançar os seus objetivos “superiores”.

Surpreende-me que os nazistas acreditassem que, como raça superior, tinham o direito de eliminar segundo a sua conveniência os membros das raças “inferiores”.

Os nazistas perderam a guerra mas triunfaram da forma mais abrangente em deixar o mundo pós-Guerra (o nosso mundo) impregnado desse sentimento e dessa pregação. Hoje em dia virtualmente todos no mundo ocidental acreditam e vivem pelo conceito aparentemente tão auto-explicativo de que quem é “superior” tem direitos inerentes sobre quem é “inferior”. O capitalismo, que os nazistas tanto desprezavam, está baseado no mesmo conceito que os norteava: o superior pode e deve ganhar com o serviço do inferior.

Vale lembrar que o cristianismo está fundamentado em premissas diametralmente opostas, pelo menos tão imediatamente incompatíveis com o capitalismo quanto com o nazismo. Segundo a visão tão ultrapassada de Jesus, grande é quem ousa curvar-se diante do inferior e servi-lo. A grandeza é caracterizada pela renúncia voluntária; como enfatizou Henry Nouwen, quem quer ser realmente grande precisa aprender a descer até a grandeza.

Esquecemos, todos nós, cristãos ou não, e da forma mais conveniente, tanto do holocausto quanto das exigências insanas de Jesus: somos todos nazistas agora, todos egoístas esclarecidos, todos absolutamente convictos de que somos dignos de nossos privilégios, pelo menos naquilo que nos sabemos superiores a – pelo menos – tantos.

Apenas a raça superior sobreviveu à guerra.

25 de Dezembro de 2004

1943, Gueto de Varsóvia

História

24 de Dezembro de 2004

Nasce uma criança

Fé e Crença, Pense comigo

Há alguns anos escrevi uma música chamada Nasce Uma Criança, que postulava que Deus é paciente, pensa sempre a longo prazo e é um incorrigível otimista. “Se há algum problema pra se resolver”, dizia a canção, Deus não toma os pés pelas mãos: ele “faz alguém nascer” – alguém que poderá com o tempo, e se tudo der certo, ajudar na resolução do problema. Quando decidiu que Israel precisava de um libertador, Deus não teve qualquer pressa: fez nascer Moisés, que só começaria oitenta anos depois a resolver o problema da servidão no Egito. Quando Israel precisou de um rei que representasse um exemplo para todos os seus sucessores, nasceu uma criança na casa de Jessé – e assim por diante.

Quando decidiu resolver o maior problema de todos Deus, naturalmente, mandou o seu Filho.

Do ponto de vista de Deus, portanto, os seres humanos nascem para ajudar na resolução dos problemas criados pelos seus antecessores. Viver de forma integral e “cumprir toda a justiça” é, portanto, [1] ajudar na resolução do problema que nascemos para resolver, [2] fazendo ao mesmo tempo todo o possível para não gerar outros.

Viver de forma integral é ajudar na resolução do problema que nascemos para resolver, fazendo todo o possível para não gerar outros.

Como a vida e a morte do próprio Jesus deixaram entrever, o problema que nascemos para resolver, aquele cuja solução devemos perseguir, nunca é o nosso próprio, mas o dos outros. O pecado é, em grande parte, apenas a nossa obstinação em resolver o ilusório (aquilo que cremos ser o nosso problema, a nossa carência fundamental por aquilo de que cremos estar injustamente desprovidos) enquanto negligenciamos o problema real (a necessidade do outro).

Na equação divina de Nasce uma Criança, quando resolvemos o problema do outro, resolvemos magicamente também o nosso.

Tiago descreveu brilhantemente a equação quando ousou decretar que “a religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo” – ou seja, cumprir a nossa missão fundamental de atender as necessidades dos outros e impedir que a formatação egoísta do mundo nos impeça de desempenhá-la.

Nascemos, então, com essa dupla e exigente incumbência de resolver um problema e não criar outros. Graças ao Natal e a Jesus, Deus e homens têm finalmente razões para serem otimistas a esse respeito.

24 de Dezembro de 2004

The Trinity Brothers™: Silent Night

MP3

De vez em quando monges saem do Monastério por meses ou anos em missão secreta: ninguém de fora sabe de onde eles vieram ou para onde vão. Aparentemente, sopram onde querem.

Alguns voltam, mas preferimos quando não. Significa que aprenderam a mensagem.

É o caso dos Trinity Brothers™.

Sum of God (2004), o álbum de Natal do grupo, é o último de uma trilogia que começou com o premiado Some of God (inspirado pelo livro de Eclesiastes, 2001) e foi seguido por Sun of God (inspirado pelo livro de Salmos, 2003). Silent Night [Noite de Paz] é a última canção do álbum.

Os Trinity Brothers™ são Paulo, Beto e Puim (ou, em inglês Paul, Bob and Mister).

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Sum of God (2004), the Trinity Brothers™’ Christmas album, is the last entry in a trilogy which started with the award-winning Some of God (inspired by the Book of Ecclesiastes, 2001) and was followed by Sun of God (inspired by the Book of Psalms, 2003). Silent Night is the last song in this album.

The Trinity Brothers™ are Paul, Bob and Mister.

23 de Dezembro de 2004

Homenagem ao malandro

Goiabas Roubadas

Chico Buarque/1977-1978

Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais
Eu fui à Lapa e perdi a viagem
Que aquela tal malandragem
Não existe mais

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal

Mas o malandro pra valer – não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal
Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central