Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
31 de Dezembro de 2004

Últimas palavras

Pormenor

No leito de morte, o velhinho chama o filho para junto de si.

– Está vendo esse relógio, meu filho? Foi do meu tataravô, que deu para o meu trisavô, que deu para o meu bisavô, que deu para o meu avô, que deu para o meu pai, que deu-o pra mim. Quer comprar?

Contou-me esta, para me atormentar e no último minuto da ceia de Natal deste ano, meu querido tio Edson. Deixo-a, para livrar-me dela e presentear o impenitente freqüentador da Bacia.

Dias melhores verão, como dizia Marco Antonio Lehr.

30 de Dezembro de 2004

A alma-gêmea e a fidelidade

Homens e Mulheres

Praticamente todos os casamentos, até mesmo os felizes, são erros – no sentido de que com quase toda a certeza (num mundo mais perfeito, ou até mesmo com mais cuidado neste nosso mundo bastante imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado parceiros mais adequados. Porém a verdadeira “alma-gêmea” é a pessoa com quem se está casado.

Você na verdade escolhe muito pouco: a vida e as circunstâncias fazem a maior parte (embora, se existe Deus, esses devem ser seus instrumentos, ou aparições dele). É notório que na verdade os casamentos felizes são mais comuns quando a “escolha” dos jovens é ainda mais limitada, pela autoridade parental ou familiar, desde que exista uma ética social de responsabilidade não-romântica e de fidelidade conjugal.

Porém até mesmo nos países onde a tradição romântica afetou de tal maneira os arranjos sociais de modo a fazer as pessoas acreditarem que a escolha do parceiro é questão que diz respeito apenas aos jovens, apenas a fortuna mais infreqüente junta um homem e uma mulher que são realmente “destinados” um ao outro, e capazes de um amor muito grande e esplêndido.

A idéia ainda nos fascina, agarra-nos pela garganta: poemas e histórias em multidão foram escritos sobre o assunto, mais numerosos, provavelmente, do que o total de amores dessa natureza na vida real (e ainda assim a maior parte dessas histórias não fala de um casamento feliz de tão admiráveis amantes, mas da sua trágica separação; como se até mesmo nessa esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo decaído sejam mais aproximadamente obtidos pelo “fracasso” e pelo sofrimento).

Em tal grandioso e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, capturamos um relance, suponho, do casamento como deveria ser num mundo não decaído. Neste mundo decaído temos como guia apenas a prudência, a sabedoria (rara na juventude, e que vem tarde demais na velhice), um coração puro e a fidelidade da vontade.

J. R. R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis

Março de 1941, numa carta a seu filho Michael

Leia também:
O sonho de Jair – versão expandida
Sem garantias

29 de Dezembro de 2004

Paulo Brabo…

Ilustração

…em roupas de trabalho.

Abandonei o Painter por 10 minutos cravados e fiz essa usando uma [apropriadamente] babenta caneta BIC num sulfite A4.

Em homenagem aos velhos tempos.

28 de Dezembro de 2004

Gringoes

The Net

As estatísticas no meu provedor apontam que nos meses de novembro e dezembro deste ano a Bacia e o meu portfólio no saíte www.brabo.ppg.br receberam mais visitas de norte-americanos (46,16%) do que de brasileiros (44,13%).

Em seguida, mas muito longe, vieram Portugal, com 1,45% (aí está você, Manuel) e o Reino Unido, com 1,07% (my faithful brother Julian). Em vigésimo e último lugar ficou a Polônia, com 0,12% das visitas.

Well, what can I say?

27 de Dezembro de 2004

Tissot

Família, Fotografia

O relógio Tissot que meu pai usava quando eu era criança, e que epitomizava para mim a mais destilada essência da masculinidade. Quando eu fosse um homem adulto, eu sabia, iria usar um relógio como esse.

Anos depois minha irmã Alice deu-me de presente um relógio parecido, mas o charme clássico deste modelo Militar Automatic é, como quase tudo, irrecuperável.