Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
24 de Novembro de 2004

Eis a estrela

Família, MP3

“Mas pela meia-noite
vem surgindo
Divina luz bendita
reluzindo
E sobre a manjedoura
pura e bela
Brilhou, mui resplendente…”

Agora sim. Esta é a terceira faixa de Três Noites, CD familiar que gravei no Natal de 2002. Se apareço cantando na primeira, aqui são minhas duas irmãs, Isa e Alice, que cantam juntas duas músicas de uma cantata infantil de Natal que haviam aprendido no Coral Celestial, na Igreja Batista do Cajuru.

As vozes foram captadas no mesmo dia em que Faz Três Noites, em meados de 1971, no gravador do meu tio Carlos, o Bondoso. Camadas instrumentais adicionadas em 2002, com meu Roland JV-90.

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23 de Novembro de 2004

Colheita genética

1984

Gattaca, filme norte-americano de ficção científica de 1997 , apresenta um futuro em que o mundo jaz sob o controle de um onipresente Grande Irmão científico. As liberdades individuais foram todas suprimidas; as carreiras, os privilégios e os deveres dos indivíduos são todos determinados pelas informações do seu DNA. Ninguém tem controle sobre qualquer aspecto da sua trajetória pessoal, da profissão ao parceiro de procriação, já que a análise das predisposições comportamentais e limitações biológicas gravadas no seu DNA, efetuada antes do seu nascimento, determina de antemão o futuro adequado para cada um – tendo em vista, naturalmente, o bem-estar de todos. A química venceu a ética, a biotecnologia superou a democracia.

O clima é de pesadelo, mas um pesadelo que ao final do filme, quando voltamos às luzes sãs do nosso sol, parece irreal e distante – tanto da realidade quanto do futuro.

Não é o que pensa um sujeito chamado John Moore.

Moore começou a suspeitar que seu tecido estava sendo utilizado para outros propósitos quando o médico continuou a recolher amostras não apenas de sangue, mas de medula, pele e sêmen.

A historia é contada em Body Bazaar [Bazar do Corpo] – O Mercado de Tecido Humano na Era da Biotecnologia:

Quando John Moore, um homem de negócios de Seattle, adoeceu com leucemia ele recorreu a um destacado especialista de Escola de Medicina da UCLA [Universidade da Califórnia, Los Angeles]. Ele seguiu as ordens do médico, submetendo-se a cirurgia para remoção do seu baço e a outros tratamentos. Ele em seguida voltou a Seattle, acreditando que havia sido curado. Porém nos sete anos que se seguiram o médico da UCLA exigiu que ele continuasse voltando periodicamente a Los Angeles para testes. Moore achava que essas visitas eram necessárias para monitorar a sua condição, e concordou de medo que a leucemia retornasse. O médico, no entanto, tinha outros interesses. Ele não estava interessado na saúde de Moore, mas em certos componentes químicos do sangue dele, e em assinar contratos com uma companhia farmacêutica de Boston, negociando ações estimadas em três milhões de dólares. A Sandoz, companhia farmacêutica suíça, teria pago 15 milhotes de dólares pelo direito de desenvolver a linhagem de células extraídas de Moore – que os médicos chamaram de linha Mo-cell.

Moore começou a suspeitar que seu tecido estava sendo utilizado para outros propósitos além do seu cuidado pessoal quando o médico da UCLA continuou a recolher amostras não apenas de sangue, mas de medula, pele e sêmen. Quando Moore descobriu que havia se tornado a Patente No 4.438.032, processou os médicos por comportamento não-profissional e roubo de propriedade. Moore sentia que sua integridade havia sido violada, seu corpo explorado e seu tecido transformado num produto: “Meus médicos alegam que minha humanidade, minha essência genética, é invenção e propriedade deles. Eles me enxergam com uma mina de onde extrair material biológico. Fui a colheita deles”.

A Corte, no entanto, negou que Moore era o justo possuidor do seu próprio tecido biológico. Ele não tinha qualquer direito sobre o seu corpo, de forma que os lucros cabiam ao médico e à companhia de biotecnologia.

Ao julgar o caso de Moore em 1990, a Suprema Corte da Califórnia determinou que a partir daquela data os médicos seriam obrigados a informar antecipadamente os seus pacientes, antes de qualquer intervenção cirúrgica, que o seu tecido poderá ser utilizado para pesquisa. A Corte, no entanto, negou a alegação de Moore, de que era o justo possuidor do seu próprio tecido biológico. Ele não tinha qualquer direito sobre o seu corpo, decidiu a corte – de forma que os lucros decorrentes cabiam ao médico e à companhia de biotecnologia. Isso era necessário, esclareceu a corte, a fim de encorajar o investimento de capital de risco. O futuro do progresso científico estava em jogo.

O sangue de John Moore continha raros e valiosos anticorpos que, depois de patenteados, renderam mais de 3 bilhões de dólares entre 1984 e 1990.

A decisão da corte americana, de que o indivíduo não tem direito de propriedade sobre componentes fundamentais do próprio corpo, ou pior, que uma corporação pode requerer para si o direito de “propriedade intelectual” sobre material que havia sido basicamente extraído de um ser humano livre num país livre, soa para mim como um insano prelúdio aos piores pesadelos de Gattaca.

Eles patentearam genes que fazem o nosso cérebro trabalhar, que constróem os nossos ossos, que mantém nossos corações batendo.

O precedente criado pelo caso Moore gerou um ambiente legal em que linhagens de células e até mesmo seqüências de genes estão sendo diariamente patenteadas. De acordo com uma pesquisa divulgada no final do ano 2000 pelo jornal Guardian Unlimited, as companhias farmacêuticas, empresas de biotecnologia, institutos governamentais e universidades haviam registrado até aquela data a desconcertante quantidade de 127.000 genes humanos ou seqüencias genéticas humanas parciais.

Eles patentearam genes que fazem o nosso cérebro trabalhar, que constróem os nossos ossos, que fazem nossos rins se desenvolverem, que mantém nossos corações batendo, que podem aumentar as chances de se contrair câncer ou que podem prever a probabilidade de nos tornamos viciados em drogas. Eles pantentearam genes até mesmo antes de saberem o que eles fazem: registraram patentes especulativas de tratamentos baseados em genes quando não existe nenhum tratamento dessa natureza.

O sistema de patentes, naturalmente, foi criado para beneficiar inventores, não “descobridores”. Uma patente é, na verdade, coisa muito mais restritiva e abrangente do que o copyright. O copyright previne a cópia da expressão particular de uma idéia (digamos, uma cópia ilegal de software ou de uma fotografia). Já o detentor de uma patente pode impedir outros de fabricarem, utilizarem ou venderem uma invenção patenteada, ou mesmo impedi-los de criar outra invenção que execute função similar. Quem patentear a cura de determinado tipo de câncer pode, por exemplo, impedir legalmente que uma cura alternativa (digamos, mais eficaz ou mais barata) para o mesmo tipo de câncer seja comercializada – ou mesmo pesquisada.

Não importa na verdade o que você pensa sobre o assunto: hoje, agora mesmo, os genes que definem o que você é e como seus filhos serão estão já patenteados. Num certo sentido jurídico muito profundo, você e seu futuro pertencem a uma série pulverizada de corporações, não a você mesmo.

Bem-vindo a 1984.

22 de Novembro de 2004

Patient

English

Sensible English tips
provided by Maeve Vella

The patient enters the doctor’s office and closes the door behind him.

“Good afternoon”, he extends his hand. “How are you?”

“Fine”, assures the doctor, but he shakes the patient’s hand with a sweating hand, his voice revealing a cultivated anxiety.

“Please forgive my delay”, the patient says, making himself comfortable in the available armchair. “I was seeing the doctor in the room next to this one”.

“Dr. Renato? Is he OK?”

For answer the patient shakes his head in a pendular movement, a gesture that the doctor interprets as meaning “so-so”, or perhaps “none of your business”.

“What about you?” The patient wants to change the direction of the conversation. “Are you alright?”

“I was hoping you’d tell me”, the doctor nervously discloses, reclining a bit in his black leather chair, his very hairy hands crossed on the table.

“We’ll see to that presently” the patient says, lowering his eyes and starting to examine the stack of magazines on the nearby coffee table. ” You may take off your clothes, please, and sit on that examination table over there.”

The doctor gets up and, without a word, starts to take off his clothes: white jacket, streaked tie, linen shirt, t-shirt, German leather shoes, English stockings, Italian pants, black underwear – placing the folded pieces methodically on the table’s glass cover, next to the plaque which witnesses his name and specialty. continue lendo >

21 de Novembro de 2004

Margem de caderno: Comissão

Jurássicas

As reuniões são coisa ainda mais potencialmente inútil e inerentemente poderosa do que as comissões. Se prolongarmos o suficiente as reuniões para decidir se a criação de uma comissão é necessária, o problema para o qual a comissão seria ou não a solução pode finalmente caducar por si mesmo – e a reunião passar a tratar de assuntos mais prementes.

20 de Novembro de 2004

Paciente

Manuscritos

O paciente entra no consultório e fecha a porta atrás de si.

– Boa tarde – ele estende a mão para cumprimentar. – Tudo bem?

– Tudo – garante o médico, mas responde o cumprimento com a mão suada, a voz denunciando uma cultivada ansiedade.

– Desculpe a demora – diz o paciente, refestelando-se desinibidamente na poltrona, – estava atendendo o médico do consultório ao lado.

– O Dr. Renato? Tudo bem com ele?

O paciente balança a cabeça como um pêndulo para responder, num gesto que o médico interpreta como querendo dizer “mais ou menos” – ou, talvez, “isso não é assunto seu”.

– Mas e com você – o paciente quer mudar a direção da conversa. – Tudo bem?

– Estou esperando que o senhor me diga – revela o médico, sentando-se nervosamente na cadeira de couro preta, as mãos muito peludas cruzadas sobre a mesa.

– Já vamos ver isso – diz o paciente, ao mesmo tempo em que baixa os olhos e passa a examinar distraídamente a pilha de revistas em cima da mesinha próxima. – Pode tirar a roupa, por favor, e sente ali na mesinha.

O médico levanta e, sem uma palavra, começa a tirar a roupa: o paletó branco, a gravata riscada, a camisa de linho, a camiseta, o sapato de couro alemão, as meias inglesas, a calça de corte italiano, a cueca preta – colocando as peças metodicamente dobradas sobre o tampo de vidro da mesa, junto da placa que leva o seu nome e sua especialidade. continue lendo >