Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2004 de Nosso Senhor
25 de Outubro de 2004

Casa cor

Fotografia

24 de Outubro de 2004

Jeff’s Paulo

The Net

Meu amigo de Nova Iorque, Jeff Wong, o aclamado cartunista da revista Sports Illustrated, fez (sem eu pedir) esse retrato meu (com base numa foto amigável que mandei) para um desafio de esboço rápido num fórum de que participamos.

Recentemente, para o aniversário de 50 anos da Sports Illustrated, Jeff fez uma versão do teto da Capela Sistina com figuras do esporte norte-americano. Depois, como não tinha tema mais elevado para retratar, resolveu me desenhar.

Thank you again, Jeff.

23 de Outubro de 2004

Anos guardados

Família, Nostalgia

Li ontem, no romance Boy In The Water, sobre um homem que pendurou no seu quartinho um calendário de 13 anos antes apenas porque gostava da fotografia. Lembrei na hora que minha mãe coleciona calendários, ou colecionou por um longo tempo. Ela os guardava ciumentamente numa espécie de gaveta que ficava na parte debaixo do pesado sofá-cama de molas da nossa sala, o mesmo sobre o qual eu pulava quando garoto e sobre o qual minha sobrinha pula hoje em dia.

A lembrança foi inevitável porque minha mãe dizia que guardava os seus calendários também por causa das fotografias – belas paisagens brasileiras e lugares bucólicos e distantes ao redor do mundo, – que oficialmente a deslumbravam.

Hoje penso que havia naquilo tudo um motivo secreto. Colecionar calendários é, de certa forma, contar os dias e armazenar anos. Minha mãe é que foi previdente e está certa: guardando todos aqueles anos debaixo do sofá para quando precisar deles.

21 de Outubro de 2004

João

Pormenor

Há heróis celebrados e há heróis anônimos. Minha simpatia tende, naturalmente, por essa última categoria. Morreu ontem e foi enterrado hoje um homem que talvez pouca gente reconheça como herói, porque em sua humildade residia sua grandeza.

Eu queria poder cantar do fundo da alma uma canção que celebrasse os valores do homem simples, do homem generoso, o homem que se sujeita a servir, o homem generoso, o homem forte, o homem pai de família, o homem companheiro, o homem fiel, o homem bem-humorado, o homem constante, o homem disponível, o homem dócil, o homem supremamente gentil – o homem em cuja mansidão e humildade se entrevê a singular glória do Filho do Homem.

Em minha boca, no entanto, essa canção soaria hipócrita, fantasiosa e suja, destituída de absolutamente qualquer autoridade. A música no entanto existe e foi cantada a plenos pulmões, trovejante mas em silêncio perfeito, por esse de quem estou falando. Eu a ouvi.

Reconheço com assombro que amei e fui amado por esse homem. Lembro da vez em que ele me deu de comer e da outra em que ele me deu de vestir. Morreu, num acidente de carro, João Maria de Deus Santana, o Manso.

Creio na ressurreição dos mortos mas não na ressurreição dos exemplos: um exemplo como o do tio João só se tem uma vez. É aprender com ele, ou desonrá-lo.

21 de Outubro de 2004

Sem saída

Família

Até hoje, quando saímos para viajar de carro, meu pai insiste em que só “fica satisfeito” quando sente que está perdido: indo aonde jamais esteve por um caminho que não conhece e sem jamais saber exatamente onde está. Na prática esse código pessoal dele não não implica apenas em tomar estradas secundárias, apelar a atalhos a que ninguém recorreria e esquadrinhar o Mapa Rodoviário 4 Rodas em busca de caminhos alternativos; implica também em jamais parar para pedir informações.

A não ser em último caso, como aconteceu uma vez (há muito tempo) quando ficamos mais de uma hora perdidos dentro de uma única cidade de Santa Catarina procurando a saída para determinada rodovia que deveria nos levar ao nosso destino final. Por insistência talvez da minha mãe, meu pai finalmente cedeu e parou para pedir informações a um pedestre junto a uma praça muito arborizada bem no centro da cidade.

– Por favor, vizinho – ele perguntou, muito indignado consigo mesmo (e conosco) por estar sendo obrigado a violar o seu código pessoal, – pode me dizer onde fica a saída para Rio do Sul?

Mesmo antes de superar a sua incredulidade inicial, o rapaz dignou-se a responder:

– Aqui é Rio do Sul.