Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2004 de Nosso Senhor
31 de Outubro de 2004

A integridade das coisas

Nostalgia, Politica

J. R. R. Tolkien (e quero enfatizar sempre isso, eu que prefiro casas velhas de madeira) desconfiava da modernidade tanto quanto da democracia. Ele acreditava que, do mesmo modo que a democracia radical (todos os homens são iguais) era uma afronta ao que ele cria ser o caráter único do indivíduo (todos os homens são únicos e infinitamente distintos), a obsessão com a tecnologia mecanizava a alma da humanidade.

Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média.

Em 1955, numa entrevista, um repórter de Nova Iorque perguntou a Tolkien o que o fazia clicar [gíria da língua inglesa para “motivar, tocar intensamente”]. “Eu não clico”, respondeu Tolkien, “não sou uma máquina. E, caso clicasse, não teria opinião formada a respeito. Você teria de perguntar ao que me daria corda”.

Essa desconfiança com o culto ao “progresso” aparece claramente em O Senhor dos Anéis. Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média. Os hobbits conhecem apenas as máquinas mais simples, e suas casas são tocas escavadas nas encostas das colinas: para costruí-las não é necessário derrubar árvores e nem mesmo mover rochas do local onde repousam há milênios. Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificado pelo desespero de Sam ao encontrar as árvores do Condado derrubadas e substituídas por feios barracões. Ainda mais que os hobbits, os elfos de Lothlörien aprenderam a viver sem “impactar” o meio ambiente de qualquer forma. Os ents mobilizam-se para vingar as árvores derrubadas por Saruman e enterram o seu reino sujo, corrompido e mecanizado debaixo de um inclemente dilúvio de águas purificadoras.

É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens.

Hoje em dia bosques e florestas não são mais protegidos por elfos e os Homens pisam-nos a seu bel-prazer. Duas das mais bonitas montanhas da região onde moro ostentam em suas encostas gigantescas feridas abertas de pedreiras empoeiradas. Rios sujos, nascentes aterradas e árvores caídas são elementos tão comuns do meu cenário imediato que sou culpado de deixar por completo de percebê-las, sem jamais ostentar a indignação justificada de Sam.

É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens. Por centenas de anos antes do Descobrimento eles conviveram com a paisagem natural sem alterá-la de qualquer forma representativa. Como os seres mais sábios da Terra Média, eles na sua “selvageria” intuíam que destruir a integridade das coisas simples e eternas, como árvores e rochas, era um ataque ainda maior à alma humana do que à alma das coisas.

Leia também:
A ansiedade das coisas

29 de Outubro de 2004

A comprovação da Arte

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis

Esse “júbilo” [do final feliz] que selecionei como marca distintiva do verdadeiro conto de fadas, ou como o selo que o caracteriza, merece consideração adicional.

Provavelmente todo escritor que cria um mundo secundário, uma fantasia, todo subcriador1, deseja ser em alguma medida um verdadeiro criador, ou espera estar bebendo na fonte da realidade; espera que a qualidade peculiar deste mundo secundário (se não todos os detalhes) sejam derivados da Realidade, ou estejam fluindo em direção a ela. Se o autor de fato alcança uma qualidade que pode ser descrita pela definição do dicionário: “consistência interna de realidade”, é difícil compreender como possa ser assim se a obra não partilhar da realidade em alguma medida. A qualidade peculiar do “Júbilo” numa obra de fantasia bem sucedida pode dessa forma ser explicada como um lampejo repentino de uma realidade ou verdade subjacente. Não se trata de mera “consolação” para a tristeza deste mundo, mas de uma gratificação e uma resposta para a pergunta: “é mesmo verdade?” A primeira resposta que dei a essa pergunta foi (com acerto): “Se você construir bem o seu mundinho, sim; é verdade naquele mundo”. Isso é suficiente para o artista (ou para a parte artística do artista). Mas na eucatástrofe2 vemos num breve relance que a resposta pode ser ainda mais elevada; pode ser que ela seja um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real. O uso dessa palavra já dá uma indicação da minha conclusão. Trata-se de questão séria e perigosa. Sou cristão, e assim mereceria pelo menos que não se suspeitasse de irreverência voluntária de minha parte. Conhecendo minha própria ignorância e obtusidade, talvez seja presunção da minha parte abordar um tema dessa natureza; mas se pela graça o que tenho a dizer tiver em algum sentido qualquer validade trata-se, naturalmente, de apenas uma faceta de uma realidade incalculavelmente rica: finita apenas porque a capacidade do homem em favor do qual foi feita é finito.

Na eucatástrofe vemos o que pode ser um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real.

Eu ousaria dizer que analisando a Narrativa Cristã por esse prisma, tem sido há muito meu sentimento (jubiloso sentimento) que Deus redimiu as criaturas criadoras-de-corrupção, os homens, de um modo que incluiu também esse aspecto, tanto quanto os outros, de sua estranha natureza. Os evangelhos contém um conto de fadas, ou uma narrativa de natureza mais abrangente que abarca toda a essência dos contos de fadas. Eles contém muitas maravilhas, particularmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” em sua significância perfeita e suficiente e ao mesmo tempo poderosamente simbólicas e alegóricas – e entre as maravilhas a maior e mais completa concebível é a eucatástrofe. O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história humana. A ressurreição é a eucatástrofe da narrativa da Encarnação. Essa história começa e termina com júbilo. Ela exibe de forma proeminente aquela “consistência interna de realidade”. Não há história jamais contada que os homens prefeririam que fosse verdadeira, e nenhuma que um maior número de homens céticos tenha aceitado como verdadeira por seus próprios méritos. Pois a sua Arte exibe o tom supremamente convincente da Arte Primeira, isto é, da Criação. Rejeitá-la conduz à loucura ou à ira.

Não é difícil imaginar a tremenda empolgação e alegria que se faria sentir se descobríssemos que algum conto de fadas particularmente belo se mostrasse “primariamente” verdadeiro, sua narrativa se provasse factualmente histórica, sem que ele ainda assim perdesse necessariamente a significância mítica e alegórica que possuía. Não é difícil, pois não se requer que nos esforcemos de modo a conceber algo de qualidade desconhecida. Esse júbilo teria exatamente a mesma qualidade, se não o mesmo grau, do júbilo que produz a “reviravolta” final num conto de fadas: um júbilo tal que exibe o sabor distinto de verdade primária (de outro modo não poderia ser chamada de Júbilo). Ele antecipa (ou reporta ao passado – a direção temporal não é nesse sentido importante) a Grande Eucatástrofe. O júbilo cristão, a Glória, é da mesma natureza; ele é porém proeminentemente (infinitamente, se nossa capacidade não fosse finita) elevado e regozijante. Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos.

Mas no Reino de Deus a presença do maior não deprecia o menor. O homem redimido é ainda homem. Contos e fantasias persistem ainda, e devem persistir. O Evangelho não abrogou as lendas; ele as santificou, especialmente no que diz respeito ao seu “final feliz”. O cristão tem ainda de trabalhar, com sua mente e com seu corpo, para sofrer, esperar e morrer; porém ele agora percebe que suas inclinações e faculdades têm um propósito que pode ser redimido. Tamanha é a dádiva que lhe foi concedida que ele é capaz agora, talvez, de intuir que pela Fantasia ele pode de fato contribuir no processo de esfoliamento e variado enriquecimento da criação. Todos os contos podem tornar-se realidade; e ainda assim, ao final, depois de redimidos, eles podem se mostrar tão similares e distintos das formas que damos a eles quanto o homem, finalmente redimido, será similar e distinto ao caído que agora conhecemos.

Sobre contos de fadas, Epílogo

1 “Viemos de Deus e, inevitavelmente, os mitos desenvolvidos por nós, embora cheios de erros, refletirão pequenos fragmentos da verdadeira luz, a verdade eterna que está com Deus. Na verdade, somente e através da criação de mitos, tornando-se um ‘subcriador’ e inventando histórias, pode o Homem aspirar ao estado de perfeição que ele conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser desencaminhados, mas eles, de modo trôpego, terminam por nos levar ao verdadeiro porto” (Citado no livro J. R. R. Tolkien, de Humphrey Carpenter).

2 Tolkien cunhou o termo eucatástrofe (a partir do grego – eu quer dizer “bem”) para definir o conceito de “catástrofe do bem”, característico da estrutura narrativa dos contos de fadas. Uma eucatástrofe é um desastre de gigantescas proporções que, mesmo desencadeado em todos os seus aspectos trágicos, acaba misteriosamente num resultado ainda mais inquestionavelmente positivo. É o impensável final feliz do conto de fadas: o triunfo do bem através do mais desesperançado sofrimento.

28 de Outubro de 2004

Menina sonhadora

Ilustração

27 de Outubro de 2004

O final secreto

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Não existem heróis suficientes no mundo? Então torne-se um deles. Rejeite o Rei do Poder, o Rei da Perdição, deixe para trás seu lar, sua família e tudo mais, exceto um punhado de amigos próximos. Quando você chegar à beira do desespero, quando perceber que foi estúpido ter partido e sua causa finalmente se revelar impossível, lembre-se de Frodo e Sam sentados à entrada da toca de Laracna, contando histórias um para o outro, tentando imaginar como sua própria história soaria quando fosse contada a uma criança ao lado de uma fogueira. Então pegue suas coisas e caminhe pelo túnel, sabendo que provavelmente existe alguma coisa desagradável lá dentro, mas confiando que você faz parte de uma história e que aquilo que realmente importa não é se você será bem-sucedido ou se vai viver aquela noite, mas que o final seja bom. Um final digno de uma história, um final que as pessoas gostariam de ouvir por vezes a fio, mesmo se não houver ninguém para contar sua história depois que você tiver morrido de uma maneira horrível. Deixe que os anjos a contem para si mesmos, e coloquem a mão sobre a boca numa atitude de surpresa e deslumbramento.

Mark Eddy Smith, O Senhor dos Anéis e a Bíblia – Sabedoria Espiritual na Obra de J. R. R. Tolkien

26 de Outubro de 2004

Sem garantias

Goiabas Roubadas, Homens e Mulheres

Outro dia um amigo (homem) me mandou um recado eletrônico perguntando quando sai a terceira e última parte de O Enigma de Páris. Pois essa preciosidade ainda está no forno, mas nesse meio tempo meu melhor amigo, Ivan, o Justo, depois de ler O sonho de Jair – versão expandida deixou na Bacia o seu primeiro comentário. Faço questão de trazê-lo à tona, porque entre outras coisas aqui está encapsulado tudo que ainda tenho a dizer sobre Páris e Helena.

Admirável Paulo,

Percebi uma ponta de ironia em seu conto, aplicado aos motivos e aos modos de fazermos nossas escolhas. Em seu conto amor e paixão confundem-se, apresentam-se como sinônimos, e assim é. A paixão não é inconstante nem o amor é firme, apenas as pessoas são. Mas isso é apenas parte da questão.

Seu conto deu voz a esta reflexão. É reflexão, não nego, fala de mim.

Duas coisas me chamaram a atenção em seu conto. O medo de Jair e sua escolha.

Avaliando o significado do dito e do gesto de sua noiva, parece que Jair encontrou mulher melhor do que estava procurando. O absurdo de sua escolha não parece ter resultado em erro, e é interessante a implicação de que a correção de uma escolha não seja garantia de acerto. O que também é sabido pela experiência.

Quanto ao medo de Jair, quero observar que mesmo dizendo que seu sonho é casar-se com uma mulher que não estivesse apaixonada, parece que o que o Jair realmente quer é evitar casar-se com uma mulher que venha a tornar-se infeliz por desiludir-se dele.

A paixão não é inconstante nem o amor é firme, apenas as pessoas são.

Sem desmerecer a sua escolha, arrisco apresentar uma solução alternativa para o medo de Jair.

Não é errado dizer que a mulher que não pode desiludir-se não é somente aquela que desde cedo sabe que não tem paixão. Seria também aquela que admirasse o seu homem pelo que ele é. Aquela mulher que não atribuiria maior significado ou daria qualquer atenção a outra paixão que não fosse a por seu homem. Uma mulher que como expressão maior de sua feminilidade tem, ou teria, a maior satisfação em poder dizer: “meu homem a quem pertenço”, e isso bastasse. Tomo esta capacidade de admirar o masculino como característica necessária para definição do que é feminino. Resta-nos saber para quem de nós esta mulher existe.

Preciso esclarecer que ao dizer “homem” excluo todos aqueles que gabam-se de seus medos e apetites como se fossem expressão de verdadeira masculinidade. Esses são gente frívola, não são homem. São aquelas figuras estereotipadas, motivo da versão feminina do medo de Jair.

Sem dar nenhuma garantia de acerto a ninguém, sugiro àqueles que tem o mesmo anseio de Jair e sua noiva, que antes de casar, sinceramente, avaliem a aptidão sexual sua e de seu par, fazendo uma reflexão de sua masculinidade e feminilidade baseada nas seguintes questões. Perguntem e perguntem-se: Mulher, você é capaz de admirar um homem pelo que ele é? e, Homem, você é realmente admirável? Do contrário, se não é um homem que você quer, ou se você outro prefere não agir como homem, não complique a vida de ninguém. O casamento não foi feito para você. Agora, para quem sinceramente e conscientemente quer e realmente é apto, nunca é demais frisar: não há garantias.