Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
20 de Setembro de 2004

Realmente

História

A mesa porão os resposteiros da copa, para o que terão uma esteira de verão, e alcatifa de inverno que será na largura e comprimento, de modo que a mesa fique posta na ponta da alcatifa, para que o trinchante, e oficiais da mesa não fiquem com os pés postos nela, e só o ficarão os moços fidalgos que estão de joelhos chegados à cadeira. Se na casa houver docel, se porá debaixo dele. Tanto que a mesa estiver posta, e nela se puser o saleiro, e o pão, ou alguma cousa de comer, assistirá o manteeiro da mesma casa, até que sua majestade vá para a mesa, porque a ele toca dar conta do que ali se puser de comida; e tanto que a mesa estiver posta não se cobrirá nenhuma pessoa das que estiver na casa, ainda que seja título, e menos passearão, ou se assentarão.

As iguarias hão de vir acompanhadas da cozinha para a copa do vedor da semana, o qual virá sempre descoberto, ainda que seja título. Virão também com elas o guarda resposta, e o servidor da toalha da semana, e trá-las-ão os moços da câmara entre duas fileiras de soldados da guarda, e por onde quer que passarem, tirarão os chapéus todas as pessoas que as encontrarem, e que estiverem por onde elas forem parando, e desviando-se do caminho, ainda que sejam título.


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Do CERIMONIAL DA REFEIÇÃO D’EL REI DOM JOÃO IV, compilado por Luís da Câmara Cascudo e citado na Jangada Brasil.

19 de Setembro de 2004

Borges e a glorificação do argumento

Manuscritos

Nenhum escritor me intriga mais do que Jorge Luis Borges. Nenhum me satisfaz mais, e deixo aqui minhas desculpas a Shakespeare e a Lovecraft, mas também a inúmeros outros.

Em breves momentos de lucidez sou obrigado, no entanto, a reconhecer que a posição de Borges na literatura é pelo menos única – para não dizer precária. Eis aqui um autor menor que alcançou a consagração através de um gênero menor, a história curta; a poesia o interessava muito mais do que me interessa, mas como poeta Borges está apenas eventualmente acima do medíocre; sua obra “visível” não está nos austeros volumes de capa bege das Obras Completas, mas confinada entre as páginas de dois livros pequenos: O Aleph e Ficciones.

Já pensei em defender a teoria de que a maior sacada de Borges está encapsulada em duas de suas características: primeiro, seu estilo sintético, pseudo-clássico, que dá a impressão (quase acertada) de que estamos diante do narrador último e indefectível. Segundo, seu insight metalingüístico de tecer histórias ao redor de livros; os contos de Borges são quase sempre livros dentro de livros falando de livros. Para o leitor obcecado com a literatura (e, naturalmente, apenas o leitor é obcecado com a literatura), o encanto de Borges é evidente. O amante de livros sente-se mais tocado pela sua própria paixão por livros, adequadamente celebrada e incitada por Borges, do que pelo destino ou pelas peripécias de Quixote ou de Capitu.

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18 de Setembro de 2004

Abuso

Goiabas Roubadas

“A propósito, desprezo tudo que meramente me instrui sem expandir ou estimular imediatamente o meu grau de atividade”. São palavras de Goethe. Com elas, bem como com uma expressão sentida de Ceterum censeo [“julgo, enfim”] deve começar o nosso exame do valor e da inutilidade da história. Pois esta obra dispõe-se a estabelecer porque, no espírito das palavras de Goethe, devemos desprezar seriamente a instrução sem vitalidade, o conhecimento que se coloca no caminho da atividade, e a história como um custoso excedente do conhecimento e como luxo – visto que nos falta o que é ainda mais essencial para nós, e que o que é supérfluo mostra-se hostil ao que é essencial.

Sem dúvida alguma precisamos da história. Mas precisamos dela de modo diverso ao do que o mimado ocioso no jardim do conhecimento a utiliza, não importando o quão elegantemente ele possa desprezar nossas vulgares e grosseiras necessidades e tribulações. Isto é, precisamos dela para a vida e para a ação, não para uma confortável afastamento da vida ou da ação ou para meramente encobrir uma vida egotista e a má conduta covarde. Desejamos usar a história na medida em que ela serve a vida. Há, porém, um modo de se fazer história e de valorizá-la pelo qual a vida se atrofia e se degenera. Trazer à luz este fenômeno como sintoma notável da nossa época é tão necessário quanto doloroso.

Friedrich Nietzsche, Do Uso e Abuso da História (1878)

17 de Setembro de 2004

Manual da Futura Dona de Casa

Documentos, Homens e Mulheres, Nostalgia, Sociedade

Você sabe…

… que a cozinha tem seus encantos?
… que mamãe se sentirá bem feliz em ter uma filha prestimosa?
… fritar um ovo?
… que os seus cabelos são lindos, mas na sua cabeça?
… que a personalidade da mulher se fortaleceu e ela ingressou em outros campos sem deixar muitas vezes o setor doméstico?
… a diferença entre guarnecer e polvilhar?
… que pode preparar-se para o futuro, para quando for uma dona de casa de verdade?

Não??? Você precisa então do MANUAL DA FUTURA DONA DE CASA, elaborado pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica. Agora disponível ONLINE na sua Bacia das Almas, onde as massas cinzentas não descansam antes de ir para o forno.

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16 de Setembro de 2004

Fica vendo

Família

O Arthur, filho do Hélio, acaba de fazer dois anos e não pára de me surpreender. Outro dia o Hélio sentou-se pra tomar café e o Arthur foi chegando:

– O Arthur vai tomar café com o papai. A barriga do Arthur está dizendo: “Me dá pãozinho!” “Me dá pãozinho!”

Terminado café o ele disse:

– Papai, o Arthur vai descer da cadeira sozinho. Fica vendo.

Fica vendo. E desceu mesmo sozinho, mas ele já faz isso há meses.

Minhas visitas na casa do Hélio são às vezes muito curtas, e certa noite eu anunciei, não muito depois de ter chegado, que estava indo embora. O Arthur fez cara de triste, mas enquanto eu me despedia do Hélio e da Karline ele sumiu. Voltou depressa trazendo na mão um daqueles bichinhos de madeira que a gente esfrega nas costas dos outros pra fazer massagem, e anunciou:

– O Arthur vai fazer massagem no tio Paulão.

Puh.

Pois é, tive de ficar e ele ficou fazendo massagem nas minhas costas, por pelo menos uns cinco segundos. Uma hora depois, enquanto tentava fazer ele dormir depois de brincar de carrinho (“já é de noite”, ele observou com toda a lucidez, “tem a lua e as estrelinhas”), fiquei pensando como um pirralho daquela estatura tinha conseguido passar a perna num sujeito esclarecido como eu. Como ele me conhecia ao ponto de saber que a única coisa a que não resisto é uma massagem nas costas? Se consegue me manipular com dois anos, o que ele não me levará a fazer quando tiver três?

Droga, preciso arranjar um jeito de ter filhos sem ter de me casar.