Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2004 de Nosso Senhor
30 de Setembro de 2004

A ansiedade das coisas

Manuscritos, Nostalgia

Em tempos mais sãos do que o nosso um homem começava a sentir nostalgia quando estava avançado na terceira idade, entrevendo já a última curva da vida. Hoje em dia a nostalgia é motivo de ansiedade para todos, democraticamente; até mesmo os adolescentes, garantem-me, tem já saudades sentidas e irresistíveis dos tempos idos da infância.

Não é na verdade coisa de se admirar, porque em tempos de mudança acelerada como o nosso muita coisa pode mudar nos três ou quatro anos informes que separam a adolescência da infância. Nostalgia é o clamor por pontos de referência que não existem mais, e na vertigem do século inúmeras referências perdem-se, transformam-se ou são substituídas em um ano ou dois, às vezes menos.

Um adolescente pode olhar ao redor e constatar lucidamente que os programas de televisão são outros, o tipo aprovado de música é outro; os brinquedos, os filmes, os heróis – que tudo mudou desde a sua infância recente, pela qual passa a sangrar de nostalgia tão sincera quanto precoce. O mesmo é ainda mais válido para quem passou dos vinte ou trinta anos de idade; quem sobrevive vinte anos num mundo de mudança vertiginosa como o nosso é obrigado a encarar que a realidade mudou tanto a ponto de se tornar meramente reconhecível. Os pontos de referência ruíram, o vento levou, o gato comeu, e a mudança torna-se motivo de ansiedade, a velhice chega antes do meio da vida e a nostalgia consome e oprime.

O motivo desta nota é lembrar, com inevitável nostalgia, dos tempos em que não era assim. Houve tempo em que o mundo girava sem se fazer notar e as manchas solares não causavam perturbação maior. As pessoas, conta-se, paravam para conversar e comer. Faziam coisas insensatas como serenatas e bilboquês. Nesta galáxia distante de que estou falando os seres humanos eram tão pouco materialistas que podiam dar-se ao luxo de apegar-se a coisas e, para que não tivessem que se preocupar muito com elas, as coisas eram feitas para durar.

Com cinqüenta anos de idade um homem ganhava o relógio ou o violino do avô, e orgulhava-se de poder colocá-los em uso imediato; com setenta anos, o sujeito usava ainda a caneta ou o serrote que tinha sido do seu pai. Coisas como bengalas, máquinas de escrever, escrivaninhas e panelas, abridores de cartas e até mesmo roupas tinham a sua utilidade prolongada por gerações. Os mecanismos eram menos complexos e as coisas podiam ser eficazmente consertadas. As pessoas lubrificavam as coisas, trocavam seus cabos, lixavam e poliam.

Como não saltavam na nossa cara exigindo serem trocadas, as coisas tinham um status menor e não eram motivo de ansiedade. Como sobreviviam às pessoas, algumas coisas transcendiam a sua condição e ficavam para sempre ligadas a um ser humano em particular: as pessoas acenavam com “o facão do meu bisavô”, “a poltrona da minha avó”.

Hoje em dia, e sem qualquer hipérbole necessária, um sujeito de vinte anos já perdeu a conta de quantas vezes trocou de modelo de telefone celular: o seu próprio telefone celular. Salvo como curiosidade, nada sobrevive a uma geração; nada com mais de dez anos é concebivelmente útil.

O paradoxo é que, como tudo que está disponível é tão irreversivelmente novo, tudo torna-se obrigatória e imediatamente velho. Mais do que nossos bem-intencionados avós poderiam imaginar, a abundância do novo deixou-nos cercados de coisas invariavelmente velhas e envelheceram as nossas almas. Das velhas fotografias, eles nos olham com peles e olhos mais jovens do que jamais chegaremos a ter.

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Da preciosidade das memórias

29 de Setembro de 2004

Gangsta

Ilustração

Um gângster, inspirado num dos bandidos do filme Some Like It Hot (Quanto Mais Quente Melhor).

28 de Setembro de 2004

Bastiana

Brasil, Gírias e Falares

Conta meu irmão Marco Antonio Lehr que certa vez, num bailão no Mato Grosso do Sul, um sujeito aproximou-se de uma balzaquiana que ninguém ainda tinha tirado para dançar e arriscou:

– Vamo dançá, sinhorita?

Ela despejou:

– Meu nome num é sinhorita, meu nome é Bastiana; e eu num dánso, porque se eu dánso eu cánso, e se eu cánso eu sôo, e se eu sôo eu fédo, e se eu fédo, ninguém me sopórta.

27 de Setembro de 2004

Regra da bolsa

Homens e Mulheres

Válida para: Homens

A REGRA DA BOLSA

Nunca abra uma bolsa de mulher.

Corolário

Nunca mexa dentro de uma bolsa de mulher.

Adendo:

Nem se ela pedir.

Adendo 2:

Muito menos se ela pedir. Acredite, cara, ela está te testando.

Solução:

Passe a bolsa fechada para ela mesmo tirar da bolsa o que está lá dentro.

Adendo 3:

Não passe a bolsa para outra mulher, que não a dona da bolsa, para ela tirar o que está lá dentro.

26 de Setembro de 2004

Bandeja

Família, Fotografia

De todas as fotos que já tirei na vida, de poucas me orgulho mais do que esta, que completa este mês exatos 20 anos. Quem está familiarizado com cenário e com os personagens sabe quantas lembranças há aqui por centímetro quadrado.