Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2004 de Nosso Senhor
22 de Agosto de 2004

Deslize

Família, Pormenor

Eu, na mesa de almoço de domingo:

– A Alice contou que tem muito tatu morto nas BRs americanas.

21 de Agosto de 2004

Uma de cada vez

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

G. K. Chesterton

[Deus] é forte o suficiente para alegrar-se na monotonia. É possível que Deus diga a cada manhã para o Sol: “Faça novamente”; a cada noite, ele se volta para a Lua e diz: ‘Faça outra vez”. É possível que não seja uma necessidade automática que produza as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas ele nunca se cansa de fazê-las. É bem possível que ele tenha o eterno apetite da infância, pois nós pecamos e envelhecemos, e nosso Pai é mais jovem do que nós mesmos.


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Citado por Philip Yancey em Alma Sobrevivente.

20 de Agosto de 2004

Regra da nata

Pormenor

O que nata engorda.

19 de Agosto de 2004

Não me conte

Nostalgia

Encontrei ontem, sentada no banco em frente a uma farmácia em Quatro Barras, alguém que tinha de ter sido uma aluna minha – o Hélio esclareceu mais tarde que era a Marcela. Ah, a Marcela.

Pois a Marcela foi muito discreta, mas em pé diante do banco conversando com ela estava um cara com um sorriso largo de Tom Cruise que não parava de me encarar de forma absurdamente amigável, como se me conhecesse. Nenhum estranho costuma me oferecer flores, por isso esse também tinha de ter sido meu aluno, e quando cheguei perto ele de fato me cumprimentou de professor, sem abandonar um milímetro de sorriso.

Quando saí da farmácia eu já havia juntado coragem para admitir que não me lembrava do cara. Cumprimentei a Marcela, cujo nome eu não recordava mas de cujas feições lembrava bem, e perguntei o nome do homem.

– Leandro Bossardi – ele sorriu. – O professor não lembra de mim?

Fui forçado na hora a recordar que estranha espécie de terror é ser chamado de professor por um homem adulto.

– Do rosto eu não me lembro, mas lembro das suas notas – respondi sinceramente, enquanto visualizava uma prova girando do fundo até a dianteira da minha consciência, como faziam os jornais nos filmes antigos.

Antes de ir embora, para ter alguma coisa que dizer, perguntei com quantos anos o Leandro estava.

– Vinte e cinco.

Enquanto cambaleava na direção do carro, não escondi minha surpresa.

– Vinte e cinco! Vinte e cinco!

– Sou novo ainda – ele sorria de longe.

– Você é – não duvidei, e sumi dali.

19 de Agosto de 2004

As Variedades da Experiência Capitalista

Fé e Crença, Manuscritos, Sociedade

A fim de manter a sua supremacia por um período significativo de tempo, um sistema religioso precisa sustentar valores e idéias que parecem evidentes por si mesmos à maior parte dos membros de uma sociedade. As principais idéias de um sistema religioso têm de ser naturalmente transferíveis às novas gerações, sem que precisem ser ensinadas diretamente; os desvios da norma, os hereges, devem por sua vez ficar evidentes e ser excluídos por um mecanismo instintivo de rejeição logo que se manifestam.

Há pelo menos três séculos o cristianismo como sistema religioso formal da civilização ocidental foi substituído pela crença universal no capitalismo. O capitalismo (leia-se, e em inglês, way of life) provou-se por todos os critérios o sistema de crenças mais bem sucedido da história.

Isso porque, como qualquer muçulmano pode facilmente apontar, o capitalismo é uma religião como qualquer outra – apenas mais enraizada e muito mais difícil de converter. Embora a história do sucesso do cristianismo e do capitalismo ocidental andem até certo ponto de mãos dadas, os sistemas de segurança e multiplicação do capitalismo como sistema de fé são infinitamente mais estanques e bem amarrados do que os do cristianismo jamais foram.

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