Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2004 de Nosso Senhor
26 de Agosto de 2004

O Último Adelfi

Manuscritos

A vida de cada homem gira sempre em torno de um único período de tempo, um período circunscrito no intervalo de poucos meses, que define para sempre quem somos e o que iremos fazer. Tudo que acontece antes ou depois é avaliado e observado a partir da perspectiva dAqueles Dias. De certa forma, nada mais acontece na vida de uma pessoa, a não ser o que acontece nAqueles Dias. O que veio antes é um breve prólogo; o que vem depois é, na pior das hipóteses, uma longa e elaborada nota de rodapé; na melhor, um pungente álbum de fotografias. Para uns poucos, a vida inteira é uma homenagem, uma intensa celebração Àqueles Dias.

Para Rui Moreira Lima esse momento, esse fulcro ao redor do qual a sua vida havia sido mapeada, eram os dias do 1º Grupo de Aviação de Caça, o seu glorioso, assombroso e terrível período como piloto de caça da FAB na Segunda Guerra Mundial. Era esse o buraco negro que sempre o atraía, a cena do crime à qual ele voltava, o palco onde se passava cada cena da sua ópera.

Hoje ele era o respeitável Major Brigadeiro do Ar Rui Moreira Lima, reformado; mas no íntimo, no fundo do coração, era ainda o Rui, o afobado e inquieto Rui dAqueles Dias, sempre com uma opinião para dar, o coração na mão, uma lágrima eterna ameaçando rolar sem motivo pelo rosto.


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Sinto-me jovem o bastante para ter ainda de medo de parecer piegas, e O Último Adelfi é sem dúvida alguma a coisa mais piegas que já escrevi. É apenas tremendamente sincero, e é só isso que me leva a tomar coragem e levantar este conto das minhas coisas que creio não vale a pena publicar.

Tudo no conto é verdadeiro, inclusive minha evidente admiração pelo assunto e pelo protagonista – exceto, que eu saiba, o encontro entre Rui e a fictícia Clarice. Se você ainda não viu o documentário Senta A Pua, sobre a participação da FAB na Segunda Guerra Mundial, procure ver.

Troquei alguma correspondência com o Rui alguns anos atrás depois de ler o seu pungente Senta A Pua (o livro). O cara é gente finíssima, ainda mais que o documentário consegue mostrar.

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25 de Agosto de 2004

Oculto

Brasil, Politica

“Os manifestantes [do MST] não quiseram dizer o motivo da manifestação.”

Ouvido de algum repórter da Rede Globo neste dia 25 de agosto de 2004 de Nosso Senhor.

25 de Agosto de 2004

Margem de caderno: A vaca e o rato

Jurássicas

A vaca e o rato

Sem comentários da minha parte.

24 de Agosto de 2004

Linguage dos óio

Goiabas Roubadas

Quem repara o corpo humano
E com coidado nalisa,
Vê que o Autô Soberano
Lhe deu tudo o que precisa,
Os orgo que a gente tem
Tudo serve munto bem,
Mas ninguém pode negá
Que o Auto da Criação
Fez com maior prefeição
Os orgo visioná.

Os óio além de chorá,
É quem vê a nossa estrada
Mode o corpo se livrá
De queda e barruada
E além de chorá e de vê
Prumode nos defendê,
Tem mais um grande mistér
De admirave vantage,
Na sua muda linguage
Diz quando qué ou não qué.

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23 de Agosto de 2004

1936, Plínio Salgado: Carta aos inconscientes

Documentos, Politica, Sociedade

Plínio Salgado era, por tudo que se sabe, um sujeito bem-intencionado. O escritor e sociólogo participou ativamente da Semana de 22, publicou um romance que ergueu-o por diversos anos ao posto de figura mais proeminente do Modernismo brasileiro, foi Deputado Estadual e membro da Academia Brasileira de Letras; católico zeloso, escreveu uma reverente Vida de Jesus – que, pelo tamanho do volume que vi na casa do meu tio João, tem de ser mais extensa do que o próprio Novo Testamento. Mesmo anos depois que o movimento político que deflagrou virou estigma e perdeu todo destaque que teve no cenário nacional, nada no seu currículo deixa entrever que Plínio Salgado tenha agido de má-fé.

“A direita é a união sagrada em torno da Bandeira da Pátria, das tradições nacionaes, é a virtude, é a castidade, é o heroísmo, é a religiosidade, é a delicadeza de sentimentos, é o pudor individual e collectivo, é o sacrifício, é a honra de uma nação.”

Em 1932, dois anos depois de uma viagem à Europa na qual conheceu o fascismo italiano e encontrou-se com Mussolini, Salgado fundou a Ação Integralista Brasileira – uma contrapartida tupiniquim dos movimentos fascistas europeus. Embora sustentasse algumas idéias poderosas e originais e apresentasse o Integralismo como “a última expressão do espírito bandeirante”, é tentador enxergar o movimento integralista como uma aventura cabocla calcada na máquina ideológica de Hitler – completa com suas próprias versões da suástica, da saudação nazista, dos ambiciosos desfiles, do antisemitismo (veja a menção aos “livrecos enviados pela França judaizada”, na página 3 da Carta abaixo) e da Juventude Hitlerista.

Os integralistas defendiam, como os nazistas, um discurso político muito peculiar: entre outras coisas, eles eram radicalmente contra os comunistas-marxistas, contra a democracia liberal e contra o capitalismo.

Encontrei esta Carta aos inconscientes entre os documentos do meu tio-avô Reynaldo Purim.

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