Manuscritos estocados em Junho do Anno 2004 de Nosso Senhor
30 de Junho de 2004

Os dois pioneiros

Goiabas Roubadas, Pense comigo

Dois tipos de pioneiro apontam o caminho: o primeiro declara que é certo algo que previamente havia sido considerado errado – e é publicamente execrado e secretamente adorado; o segundo declara que é errado algo que havia previamente sido considerado certo – e é publicamente adorado e secretamente execrado.

William Irvine, condensando uma idéia de George Bernard Shaw

29 de Junho de 2004

Margem de caderno: Tinha?

Jurássicas

Mais um rabisco do proverbial caderno do primeiro ano da Federal.

Tinha pra homem?

28 de Junho de 2004

Copyright e Criatividade

1984, Goiabas Roubadas

Lawrence Lessig

Davis Guggenheim é diretor de cinema. Ele já produziu uma série de filmes, alguns comerciais, outros não. Sua paixão, como a de seu pai antes dele, são os documentários, e seu filme mais recente e talvez seu melhor, The First Year, é sobre professores de escolas públicas em seu primeiro ano letivo.

No processo da produção de um filme um diretor é obrigado a “liberar os direitos”. Um filme baseado num romance protegido por direitos autorais precisa obter a permissão do proprietário dos direitos. Se uma canção toca nos créditos iniciais do filme, é necessária a liberação dos direitos por parte do intérprete da canção. Esses são limites comuns e aceitáveis sobre o processo criativo, tornados necessários por um sistema de lei de copyright.

A lei do copyright, escreveu a professora Jessica Litman, está cheia de regras às quais as pessoas comuns reagiriam dizendo: “Não pode haver uma lei que diz isso. Seria uma estupidez”.

Mas e as coisas que aparecem no filme de forma incidental? Posters na parede de um dormitório, uma garrafa de Coca-Cola nas mãos de um figurante, um anúncio num caminhão que passa no fundo da cena? Esses elementos também são obras artísticas criativas. Um diretor precisa de permissão para tê-los no seu filme?

“Há dez anos atrás”, explica Guggenheim, “se um trabalho artístico fosse reconhecível por uma pessoa comum”, teria que ter seu copyright liberado. Hoje em dia a coisa é diferente. Agora “se qualquer peça artística é reconhecível por quem quer que seja, você é obrigado a liberar os direitos e pagar. Praticamente toda peça de arte, toda peça de mobília ou escultura tem de ser liberada antes que você possa usá-la”. continue lendo >

27 de Junho de 2004

Não pergunte

Goiabas Roubadas

Li recentemente este trecho de John Donne e lembrei-me de Um a menos:

Toda a humanidade é de um único autor, e é um único volume; quando um homem morre, um capítulo não é arrancado do livro, mas traduzido para uma linguagem superior. Cada capítulo deve necessariamente ser traduzido dessa forma. Como portanto o sino que anuncia o sermão convoca não apenas o pregador, mas a congregação a comparecer, da mesma forma esse sino nos chama a todos – mas muito mais a mim, trazido para tão perto das suas portas por essa enfermidade. Nenhum homem é uma ilha, suficiente em si mesmo; a morte de cada homem me diminui, porque estou envolvido na humanidade. Portanto nunca mande alguém ver por quem o sino [fúnebre] está tocando: ele está tocando por você.

26 de Junho de 2004

Hitler e Jesus

Fé e Crença, História, Política, Sociedade

O recém-lançado livro A Cruz de Hitler, de Erwin Lutzer, propõe-se a esclarecer o mecanismo de mais uma lacuna histórica do cristianismo institucional: onde estavam os cristãos alemães durante o período de ascensão e domínio do nazismo? A resposta curta é que estavam lá mesmo na Alemanha.

Ao contrário do que se possa imaginar, os nazistas não fizeram nada drástico como proibir a religião ou fechar as igrejas (da forma que fizeram, digamos, os comunistas na União Soviética). Pelo contrário, a maior parte dos líderes nazistas (incluindo Hitler) era nominalmente, algumas vezes fervorosamente, cristã. O que eles fizeram foi usar o potencial catalisador, tranquilizador e doutrinador de uma igreja institucional fraca em favor dos seus próprios propósitos.

“O melhor é deixar o cristianismo morrer de morte natural”, confidenciou Hitler a seu comparsa Himmler no início da guerra.

No mínimo fica a lição de que as pessoas podem, em tempos menos esclarecidos do que o nosso, acabar seguindo ardentemente a causa errada com a melhor das boas intenções

Imagem é tudo

Hitler não hesitou em fazer o potencial da igreja girar em seu favor, mas esse não foi o único mecanismo poderoso a que ele recorreu. A Segunda Guerra Mundial foi talvez a primeira vez em que a propaganda foi utilizada em todo o seu potencial de manipulação, tanto por um lado quanto pelo outro.

Foram eles que começaram.

Antes de construir uma nova Alemanha (e, se tudo desse certo, uma nova Europa) Hitler sabia que precisava criar e vender uma nova imagem para o país. A Alemanha estava quebrada e alquebrada, a economia minada pelas sanções impostas sobre o país após a Guerra (a Primeira), e precisava urgentemente de uma plástica corretiva na sua auto-estima. Hitler o fez escrevendo o Minha Luta, em que descrevia o futuro brilhante de uma nova Alemanha, marcada pelo sucesso inexorável e por sorrisos arianos em bocas perfeitas. De quebra, Hitler criava uma imagem para si mesmo – de herói compenetrado, humilde mas indomável, austero mas zeloso.

Hitler cultivou consistentemente essa imagem de bom moço. Ele não bebia e não fumava, só tomava água mineral e preferia verduras. Ele gostava de ser fotografado posando em cenas edificantes emolduradas por cenários bucólicos, era gentil com as crianças e irresistivelmente acessível para os adultos.

Mas Hitler não passava de um ícone da Alemanha que queria projetar. A propaganda da nova auto-imagem a ser conquistada pelo país começou a rolar em todas as frentes. O nazismo vinha engrenado numa linguagem visual própria, que glorificava o amplo, o clássico, o colossal. Essa ênfase deixou a sua marca em todas as manifestações artísticas, da música de Wagner à ambiciosa arquitetura neoclássica que prevalecia nos edifícios nazistas.

O amor pelo colossal também ficou marcado nas artes plásticas e nos ostentosos desfiles. Os representantes mais populares e contundentes dessa estética foram, no entanto, os posters de propaganda nazistas, especialmente os produzidos entre 1933 e 1945. Veja pelo menos este, este e este outro.

Assumindo Jesus

Se você quer criar para si mesmo uma imagem de salvador, nada mais efetivo que copiar o original. Foram inúmeras as vezes em que Hitler apoderou-se de imagens do cristianismo para promover a sua própria imagem e sua causa. Primeiro, naturalmente, Hitler criou e promoveu a sua própria alternativa ao símbolo da cruz: a suástica. Como conta A Cruz de Hitler, nas igrejas cristãs alemãs a cruz do cristianismo era literalmente encaixada no centro da suástica nazista.

Depois vem as imagens e a propaganda. Bastará inquirir dois exemplos. Primeiro, há a conhecida figura que mostra o jovem Hitler pregando as suas idéias para um pequeno grupo de discípulos. A imagem correu a Alemanha em panfletos com o revelador título No Princípio era o Verbo.

Segundo, e talvez mais forte, há uma pintura de Hitler que parece ter sido descaradamente inspirada no episódio do batismo de Jesus, como é narrado nos evangelhos. Da mesma forma que a pomba do Espírito Santo desceu do céu para confirmar o batismo de Jesus, nessa pintura a águia nazista desce dos seus abertos para atestar a divindade de Hitler e a eternidade do Reich.

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As imagens que ilustram este artigo são do Arquivo de Propaganda Alemã da Faculdade de Calvin, MI, mantido por Randall Bytwerk. Randall escreveu um livro sobre propaganda nazista chamado Bending Spines, que quero muito ler.