Manuscritos estocados em Maio do Anno 2004 de Nosso Senhor
19 de Maio de 2004

Falso Inconsciente Coletivo

Família, Gírias e Falares

Algumas imagens foram impressas tão cedo na minha consciência que não consigo conceber que o resto do mundo não seja capaz de lembrar-se delas ou reconhecê-las de imediato. Para mim são coisa tão clássica quanto a imagem de Marilyn Monroe de vestido branco, a pegada do homem na Lua ou o Che Guevara das camisetas. Chaplin sentado ao lado do garotinho. A bicicleta de E.T. passando na frente da Lua.

Foto clássica
Maio de 2006: esta foto lançou, nos comentários a este documento, uma dura controvérsia a respeito do nome oficial do limpa-pés, que aparece aqui no canto superior esquerdo

As duas fotos que ilustram este artigo são para mim os dois exemplos mais fortes de imagens que fazem parte desse “falso inconsciente coletivo”. Estou publicando-as aqui apenas na esperança de que eu esteja certo e todo o resto do mundo lembre delas além de minhas irmãs (que aparecem juntas e comigo nas fotos) e familiares mais imediatos. continue lendo >

18 de Maio de 2004

O Diálogo da Internet

Manuscritos, The Net

Semana passada saiu a notícia de uma queda sensível na venda de livros nos Estados Unidos. A reportagem alega como causas possíveis uma economia em crise e a competição de outros meios de comunicação.

Aposto na segunda. A concorrência é tamanha que o livro na sua forma tradicional corre risco inusitado de extinção (ou pior, de transformação). As pessoas parecem preferir a interatividade da palavra teclada à passividade da palavra impressa. Preferem ler blogs a jornais, mensagens de email e chat a livros.

Platão acreditava que para que houvesse diálogo significativo o comunicador deveria se libertar da retórica formulaica e envolver-se de fato com a sua audiência, coisa que a palavra escrita não tinha como fazer. Ninguém interrompe um livro e diz: “livro, não concordo com o que você está dizendo. Qual é então a sua opinião sobre esse determinado assunto?” Foi para corrigir essa falha que Platão escreveu diálogos: para permitir que idéias contraditórias e quem sabe complementares fossem preservadas sob a forma de texto.

A palavra escrita, o monólogo silencioso, em que o leitor é conduzido passivamente ao lugar onde quer levá-lo o escritor, teve seus milênios de primazia, mas agora está encontrando adversário a altura: a sociedade conectada da internet. O diálogo interativo é tão real quanto esta mensagem – que você é, por exemplo, livre para responder. Você pode interferir, deixar o seu comentário, fazer perguntas, contribuir, desafiar-me a mudar de idéia. A internet é um vasto, interconectado e aberto Diálogo de Platão.

Em 1985 Daniel Chandler já previa que a sociedade conectada provocaria o declínio do conceito de autor individual e a ascensão da escrita colaborativa. Numa sociedade conectada, ao contrário da sociedade das prateleiras, os textos não precisam ser definitivos; podem ser mantidos eternamente abertos, sujeitos a colaboração e atualização online. Na sociedade conectada, os escritores podem publicar os seus próprios textos. Na sociedade conectada, cai o conceito de leitura privada e silenciosa e entra em cena o conceito de leitura participativa: cada comentário que alguém deixa neste sáite faz com que o mesmo texto seja lido de forma diferente.

Bem-vindo ao futuro. Bem-vindo à Bacia das Almas, onde as idéias estão condenadas à reformulação eterna.

17 de Maio de 2004

Provincianos do tempo, 2

Goiabas Roubadas, História

Depois de provar a goibada roubada de Michael Crichton em Provincianos do Tempo, meu amigo Clair Nery Cardoso (da Confraria de Ficção Científica de Curitiba) teceu algumas intrigantes considerações, que tratei de recolher depressa para a Bacia.

“Então isto quer dizer que somos muito mais importantes para o futuro que para nós mesmos (presente)?
E quem viveu há cem anos, não era nem um pouco importante para a época e sim, para eles era importante quem viveu cententas de anos antes?”

Pois é Clair, como ensinam os 12 Macacos, nossos atos tem conseqüências. Quase tantas quanto nossas omissões.

17 de Maio de 2004

Índias Ocidentais

Manuscritos, Politica, Sociedade

No que me diz respeito, o Brasil deveria se chamar “Índias Ocidentais”, que é como nos chamavam os holandeses durante o período da sua (pre)Ocupação conosco. Fica aqui a minha sugestão.

A verdade é que não tenho nada contra o nome “Brasil”. Não me envergonho de morar num país cujo nome significa basicamente “braseiro”, e até me orgulho do fato de sermos o único país da América Latina que tem um nome verdadeiramente caliente.

O problema com “Brasil” é que é simplesmente curto demais para ter algum peso. Um país que se preze precisa ter um nome de pelo menos quatro sílabas. Pelo menos três, vai, tipo “Egito”. Nesse ponto quase todos os países da América Latina levam vantagem sobre nós, até mesmo a Argentina.

Um país deve mesmo, se possível, ter um nome composto de duas palavras, uma caracterizando a outra. Como, digamos “Nova Zelândia”. Ou “Grã-Bretanha”. Até mesmo “Países Baixos” é melhor do que um nomezinho de duas sílabas como Fiji. Para alcançar a glória, a receita mesmo é apostar num nome de três palavras: “Estados Unidos da América”. Isso sim é um nome de verdade. Não é supresa nenhuma para mim que eles sejam a maior potência do planeta. Com um nome desses.

(Só não posso garantir o futuro de países que ultrapassam o limite máximo de três palavras; os soviéticos tentaram e foi grande a sua queda).

Não é só pela vantagem de um nome composto, no entanto, que defendo Índias Ocidentais. Não é também só minha simpatia por nomes antigos ou pelos próprios holandeses, que eram sensatamente protestantes.

É que Índias Ocidentais é simplesmente bom demais pra não estar em uso corrente. Se você for pensar bem, “Índias Ocidentais” é de uma felicidade e uma riqueza sem tamanho. Uma expressão que apela a tendências opostas, quase contraditórias – que tem, embutida ao lado do qualificativo “Ocidental”, a palavra “Índia”, que representa como nenhuma outra tudo que é oriental. Chega a ser contraditório: seria como dizer “Países Altos e Baixos”, ou “Pequena Grã-Bretanha” (o único país da história que pode ter tido um nome mais contraditório foi a França Antártica, que também era por estas paragens).

E que país pode haver mais contraditório que o Brasil? Mais que nenhuma outra nação, nós representamos o equilíbrio (ou o desequilíbrio inerente) entre a impassividade oriental e o otimismo ocidental; entre a busca pelo ponto imóvel, eterno, passivo e imutável, que caracteriza a cultura oriental, e a obsessão com o progresso que caracteriza o ocidente. Mais do que ninguém, nós somos a contradição.

Somos as Índias Ocidentais. Reivindico de volta a nossa alma.

16 de Maio de 2004

Provincianos do tempo

Goiabas Roubadas, História, Sociedade

Li há algum tempo, em inglês, A Linha do Tempo de Michael Crichton e achei bem fraquinho, se é que tenho direito de dizer isso. Nada que lembre o poder de O Parque dos Dinossauros. Perdido no meio da história está, no entanto, um conceito que achei que valia um livro só pra ele. Era esse, na minha opinião, o livro que Crichton deveria ter escrito. Mas se ele não fez, alguém pode ter de fazer por ele.

[São] provincianos do tempo, gente que ignora o passado e se orgulha disso.

Os provincianos do tempo estão convencidos de que o presente é a única coisa que importa, e que tudo que ocorreu antes pode ser ignorado com sem maiores problemas. Para eles o mundo contemporâneo é rico, novo e suficiente, e o passado não tem nenhum interesse. Estudar história é tão inútil quanto aprender o código Morse, ou aprender a dirigir um carro de boi.

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