Manuscritos estocados em Maio do Anno 2004 de Nosso Senhor
26 de Maio de 2004

O enigma de Páris, parte 1

Homens e Mulheres

Sobre a Guerra de Tróia, cabe deixar um esclarecimento.

O enigma da tragédia de Tróia não é entender porque dois exércitos se degladiaram por anos, ao custo de milhares de vidas, por causa de uma mulher – mesmo se tratando, nesse caso, da esposa de um dos reis envolvidos. Fato é que homem não precisa de desculpa alguma para guerrear, e para um macho guerreiro o rapto/fuga da esposa é caso clássico de honra perdida que nada como uma longa série de mortes para recuperar.

O enigma da tragédia de Tróia não é entender porque dois exércitos se degladiaram por anos por causa de uma mulher.

O verdadeiro mistério da história é porque Helena se deixou apaixonar por um pirralho, um pulha, como Páris. Essa sim, é a pergunta que não quer calar. As versões da lenda diferem: em algumas, Helena é seduzida e depois raptada pelo filho de Príamo; em outras, ela foge com ele de livre e espontânea vontade. A deusa Afrodite, em cujas graças Páris havia caído depois de escolhê-la como primeiro lugar num concurso de beleza, parece ter dado um empurrãozinho. Mesmo assim, fica a dúvida. O que uma mulher como Helena, que podia ter aos pés da sua cama o homem que quisesse, viu num cara fraco, sem tutano e sem graça como Páris?

A resposta diz muito sobre as mulheres, e traz todo o tipo de más notícias para o modelo clássico de homem.

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24 de Maio de 2004

A Bacia

Fotografia, Goiabas Roubadas, Pormenor

Meu pai, que gosta de se considerar um sujeito pragmático, usa o termo “poeta” como xingamento. “Fulano é um poeta”, ele diz, querendo dizer “fulano é um irresponsável, vive fora da realidade”. A verdade é que, como diria Borges, algumas vezes a gente é obrigado a se relacionar com poetas – ou até mesmo gente pior.

Porque meu pai tem, e muito mal-disfarçada, uma veia poética que sangra regularmente. Ele lê furiosamente, curte palavras charmosas e fora-de-moda e faz questão de escolher expressões evocativas e nostálgicas para referir-se aos objetos mais comuns. Bacia das Almas é o nome que ele deu à bacia de alumínio gamela de madeira do seu paiol de ferramentas à qual remete todas porcas, arruelas e parafusos para os quais não vê aplicação imediata. É na Bacia que vão repousar, talvez para sempre, os rejeitados, os tortos, os empenados, os marginais, aqueles que não se encaixam – vivendo eternamente na improvável esperança de se tornarem úteis novamente, ou pela primeira vez.

Como todos nós.

Meu pai não pode saber, mas é um poeta ele mesmo. O que ele sabe, como ele mesmo diz, não está escrito nos livros.

22 de Maio de 2004

Azeite se quiser

Pormenor

Tem também aquela lata de azeite português que trazia a razoável advertência:

MELHOR CONSUMIR ANTES DO FIM.

Eu também não acreditaria se não tivesse visto.

21 de Maio de 2004

Anatomia do Homem Ausente

Homens e Mulheres, Manuscritos

Um monólogo de poucas palavras para a Olívia
(escrito para a formatura de teatro da minha amiga Olívia Grilo Marci)

Este, senhoras e senhores, será um breve estudo da anatomia do Homem Ausente.

Do lado de toda mulher sozinha há um homem ausente. Não, ele não está ali, porque ele não está ali. Ninguém pode vê-lo, porque ele está ausente. Mas ele está ali, porque ele está ausente. Não sei se vocês já pensaram na importância disso, nas conseqüências cósmicas dessa humilde ocorrência, mas do lado de toda mulher sozinha há um homem ausente.

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20 de Maio de 2004

Janeiro de 1937

Divino preconceito, História

UMA CARAVANA BATISTA ATACADA A’ BALA.

Transcrevemos do «Diario da Tarde», Curityba, de 14 de janeiro corrente a seguinte noticia:

ATACADOS A TIROS, NA ESCURIDÃO DA NOITE

Em Urubicy, uma caravana evangelica se viu inopinada e barbaramente aggredida.

Costumam os pastores evangelicos, como os catholicos, percorrer, em missão religiosa, varias zonas do paiz. Em nosso Estado é frequente a excursão de taes sacerdotes, que se fazem acompanhar, não raro, de familias. A confiança com que realizam o seu trabalho, lhes advêm, sem duvida, do liberalismo de nossas leis, que lhes facultam esse direito, o de locomoção e propaganda.

Foi fiado nessa franquia que o rev. João E. Henck, ministro evangelico, residente em Curytiba, se dispoz, acompanhado de outros fieis ao mesmo credo, senhoras, e diversas crianças, a percorrer Santa Catharina.

De volta, agora, do interior, o referido ministro nos visitou, narrando-nos os factos que seguem, e que destoam, evidentemente, das nossas normas de hospitalidade e respeito à crença alheia, merecendo, assim o mais energico correctivo.

Em Urubicy, no valle do Canoas, a caravana dirigida pelo rev. Pastor Henck realizou o seu culto na praça local, não sem que fosse alvo da ameaça de batatas e ovos, a que fechou ouvidos.

Preparados para a viagem, deixou a caravana a localidade viajando as senhoras e crianças num caminhão e os homens numa carroça, a 200 metros daquelle vehiculo, rumando a Bom Retiro. A’ saida da localidade, porém, cerca de meio kilometro, na «Avenida Adolpho Konder», seriam, então, 22 horas, os viajantes foram inopinadamente atacados a tiros sem poderem, na escuridão da noite identificar seus estupidos aggressores.

O carro foi attingido por cerca de 12 projetis, que nelle ficaram encravados. Uma das balas feriu gravemente o jovem missionario Alfredo Auras e levemente Sizimundo Andermann, arranhando uma outra a fronte duma senhorinha e attingindo outra a direcção do caminhão, não alcançando o chauffer por verdadeiro milagre.

Esses factos foram verificados terça-feira ultima, 8 do corrente. Chegado a esta capital, o rev. Henck levou-os ao conhecimento da Policia Civil, que prometteu tomar as necessarias providencias.

Accrescentou-nos o illustre pastor evangelista, cujas declarações aqui reproduzimos, que viajava em sua companhia o sr. A. Ben Oliver, cidadão norte-americano.

Estamos que o sr. dr. Secretario da Segurança já terá agido a respeito a esse brutal attentado, de sorte a se apurarem responsabilidades, punindo-se, como é de mistér, os barbaros aggressores.

O rev. Henck demorou-se ainda algum tempo em nossa redacção, fazendo elogiosas referências ao «Diário da Tarde», a que somos muito gratos.»

(matéria de O Jornal Batista de 28 de janeiro de 1937)