SEGUNDO PASSO: Faça o que os outros não esperam • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de setembro de 2006

SEGUNDO PASSO: Faça o que os outros não esperam

Estocado em Fé e Crença

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

A intolerância contra os religiosos não é a marca mais singular do impenitente seguidor literal de Jesus; talvez não seja sequer a primeira. Esse passo na verdade flui naturalmente dos seguintes, que serão talvez cada vez mais íntimos e essenciais (temos além disso a vantagem de que os líderes religiosos de hoje, embora requeiram incrivelmente mais atenção, luz da ribalta e purpurina, são em geral levados menos a sério do que no tempo de Jesus. Mesmo os que os que se dão ao trabalho de ouvi-los tratam de não levar em conta o que eles exigem).

O segundo passo para quem quer seguir a trilha ainda virgem deixada por Jesus é mais sutil e muitas vezes mais exigente. Ele requer que sejamos, como ele, em tudo inclassificáveis e inesperados: lisos como peixes. Requer que façamos o que os outros não esperam de nós a cada dado momento – um momento atrás do outro, a vida inteira. Que permaneçamos um incômodo mistério para os outros, não pela nossa conformidade a padrões tidos como suficientemente exigentes, mas pela nossa inconformidade para com esses e para com todos os padrões. Que sejamos, numa palavra, subversivos.

Essa absoluta imprevisibilidade de Jesus era talvez a sua característica mais evidente e desconcertante para os contemporâneos dele. Se algum consenso foi se desenvolvendo entre os que iam conhecendo o descarado rabi da Galileia era que nada se podia tomar por certo a respeito dele. Não importava quão seguro fosse o seu argumento, quão firme a sua convicção, quão inabalável a sua dedicação: Jesus desarmaria todas as vezes, para o bem ou para o mal, qualquer um que se aproximasse dele oferecendo um elogio ou uma provocação.

Não havia como fazer com que o Filho do Homem fizesse o que se esperava dele. O sujeito era indomável. Quando se esperava que ele curasse o paralítico que conseguíramos descer a muito custo pelo buraco no teto, ele perdoava os pecados do infeliz. Quando se esperava que ele despachasse a prostituta que veio embaraçá-lo num jantar oficial, ele fazia com que apenas ela se sentisse à vontade. Quando se esperava que ele curasse o leproso antes de tocá-lo impunemente, Jesus fazia o contrário. Quando Pedro oferecia num único gesto um elogio e uma boa intenção, Jesus chamava-o de Satanás. Quando vinham dizer que sua família estava aguardando lá fora, Jesus esclarecia que sua família já o estava seguindo aqui dentro. Quando se esperava um mínimo de respeito para com os religiosos, ele garantia que as prostitutas chegavam ao céu antes deles. Quando uma devota erguia seu embevecido louvor da multidão: “Feliz é a mulher que lhe deu a luz, e os seios que lhe amamentaram”, Jesus contradizia na cara dura.

Não havia como fazer com que o Filho do Homem fizesse o que se esperava dele.

Como um incômodo trickster galileu, um João Grilo dos sertões da Judeia, Jesus era compassivo quando esperava-se o seu furor, implacável quando estávamos certos de sua aprovação, atordoantemente sagaz quando tinha-se por certo que ele cairia na nossa armadilha. O rabi saía distribuindo provocações teológicas e morais, denunciando simplificações, desmascarando sem dó e em público.

Seus antagonistas armaram contra ele todo tipo de armadilhas teológicas, morais e políticas – Jesus se safava de todas e com brilho, com exuberância, com medidas iguais de sarcasmo e bom humor. Ele calava seus inimigos e zombava respeitosamente da efígie de César com uma moeda emprestada na mão; sem parar de escrever com o dedo na areia, salvava numa cajadada só a donzela em perigo e fazia com que seus acusadores admitissem que não estavam eles mesmos livres de pecado; quando duvidaram que houvesse boa teologia em sua afirmação de ser filho de Deus, demonstrou graciosamente pela Escritura que não somos todos outra coisa além de deuses – até o ponto em que, sensatamente, “ninguém ousou mais fazer-lhe qualquer pergunta”.

Gente que nunca tinha ouvido falar de Sócrates puxava conversa com o rabi e não saía com uma convicção ilesa. Ele desconstruía, transtornava, revirava raciocínios, julgamentos e condenações.

Ao velho Nicodemos ele explicou, nada explicando, que para ver o céu era preciso nascer de novo. Dos discípulos que o tinham como grande mestre ele lavou os pés, e ensinou-os que para ser o maioral é preciso ser escravo voluntário e eficaz de todos. Propôs a adultos perplexos e funcionais que para pôr o pé no reino das vantagens de Deus é preciso ser incompetente como uma criança. Disse a gente miserável que infelizes eram os ricos, e prometeu-lhes ainda mais miséria e uma vida proporcionalmente abundante. Em Samaria recusaram-se a conceder-lhe pouso, pela simples razão que ele rumava para Jerusalém; dias depois, à sombra do Templo, ele contava uma parábola em que o samaritano é o indiscutido herói.

Jesus era universalmente conhecido por não fazer e por não dizer o que se esperava dele, e penso que essa imprevisibilidade era de fato a marca mais contundente da sua postura pública. O paradoxo, naturalmente, está em que esta sua característica em particular é a que os cristãos menos tem se preocupado em incorporar ao longo do tempo.

Há cristãos que seguem o Primeiro Passo e demonstram uma saudável intolerância contra os religiosos; um número incrivelmente menor segue Jesus em ser inesperado como ele foi. Não há catecismo ou Escola Dominical que nos ensine a sermos desbocados, independentes, provocadores e desarmantes como Jesus.

Pelo contrário, os que se afirmam e se creem cristãos nos nossos dias levam a marca quase universal de vaquinhas de presépio: formatados, inofensivos, dóceis e obtusos. Tudo que aparentemente temos a oferecer são respostas prontas, gestos decorados e a mais careta e reacionária das posturas. Somos um bando açucarado de beatos e carolas: uma assembleia de bocós, e não os subversivos que nossa vocação exigiria de nós.

E não é como se Jesus não tivesse deixado claro que esperava a mesma postura indomável e independente dos seus seguidores; pois deixou. Ele convidou os discípulos, em palavras e incessante exemplo, a que fossem “inocentes como pombas e astutos como as serpentes”. Infelizmente, aconteceu de cristãos de todas as épocas acreditarem que as duas coisas são incompatíveis. Alguns de nós, tenho de reconhecer, são inocentes como pombas, embora prefiramos em geral ser obtusos como asnos e mesquinhos como sanguessugas. Astutos como serpentes, estou para ver.

Isso porque a postura de contradição que Jesus aparentemente exibia não era gratuita nem arbitrária. Ele não contradizia por contradizer; não era do contra como um adolescente. Sua implacabilidade tinha um fundamento e um método.

Mas exigia ser astuto como uma serpente, e em determinado momento ele passou a exigir o mesmo dos seus discípulos. Não basta que a sua integridade exceda a dos fariseus, ele foi deixando claro; vocês tem também de ser mais espertos do que eles. Para ser imprevisível é preciso ser esperto; para enxergar a armadilha sendo montada é preciso tarimba; para evitá-la é preciso jogo de cintura; para desarmar o seu adversário publicamente, sarcasmo e bom humor; para desmascarar o seu adversário diante dele mesmo, uma compassiva mas implacável inteligência verbal.

Basta ao discípulo ser como o mestre.

Pureza de coração e sagacidade de espírito não são coisas que se veja andando juntas todo dia, mas eram o mínimo que esperava o rabi de um seguidor seu. Basta ao discípulo ser como o seu mestre.

Com o tempo, depois da partida de Jesus, os apóstolos foram miraculosamente incorporando essa contundente característica em suas posturas individuais. Foram se imbuindo, por assim dizer, do espírito de Jesus, e acabaram tornando-se tão subversivos quanto ele. Pedro, João, Paulo, Estevão, Tiago e seus asseclas, de inofensivos ou pelegos que eram, tornaram-se absolutamente incômodos ao sistema. Os que não encontravam como argumentar com eles buscaram logo modos lícitos e ilícitos de silenciá-los. Finalmente Jesus estava sendo homenageado e seguido como convém, e para o mesmo destino.

Se você quer ser como Jesus, tem de ser mais esperto do que a maioria dos ursos. Não basta sair pelo mundo usando óculos cor-de-rosa e desovar um Deus te abençoe no colo de cada um.

É preciso ser implacável. Você tem de ser incômodo para todos os sistemas, inclusive para o seu (porque é evidente que os sistemas, mesmo os nominalmente seculares, são todos religiosos). Tem de abrir mão de respostas prontas e posturas estanques. Não pode mais ver a injustiça e ficar calado. Tem de pressentir a armadilha e desarmá-la. Tem de salvar o oprimido e ainda deixar o opressor numa posição publicamente e pessoalmente desconfortável. Tem de cobrir de aceitação os enjeitados e encher os certinhos de dúvidas. Tem de ser inocente como as pombas e astuto como as serpentes.

Tem de ser um herói.

Se queremos seguir Jesus para onde ele foi, o segundo passo é aprender a não fazer o que os outros esperam, e por uma boa razão.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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