08 de Fevereiro de 2010

Steal Gogh Flowers

Por   Paulo Brabo


Estocado em Ilustração

 

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

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21 de Agosto de 2006

nos arquivos:
Celularidade

Por   Paulo Brabo


Estocado em Ilustração

 

Alô?

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06 de Fevereiro de 2010

Carta a um homem que pede que eu o ensine como orar

Por   Paulo Brabo


Estocado em Fé e Crença

 

Caro Z.,

Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.

Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos – e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.

Você pergunta como e por que uma pessoa sem religião – “sem um ato espiritual, que pisou uma igreja somente em seu batismo e não tem o hábito de orar” – pode prosperar. O que posso dizer é que variações deste questionamento aparecem constantemente ao longo do Antigo Testamento (por exemplo, no salmo 73).

O que o Novo Testamento faz, como em todos os assuntos, é reverter a pergunta: porque uma pessoa sem Deus não deveria prosperar? Deus derrama o seu sol e faz chover sobre justos e injustos. Melhor ainda: porque uma pessoa com Deus deveria prosperar? Na verdade, há inequívocas indicações no Novo Testamento de que seguir Jesus é seguir o seu caminho de renúncia, sofrimento, anulação e desintegração. A teologia da prosperidade não encontra qualquer brecha nesta boa nova.Cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. O que está dito aqui é “quem quiser me seguir negue-se a si mesmo tome a sua cruz” e “basta a cada dia o seu mal”. Ou ainda, minha expressão favorita, encontrada em Atos 14:22: “por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus”.

Será então verdade que o cristianismo é um movimento essencialmente pessimista? Sim e não. O que os seus primeiros proponentes deixam claro é que quem quiser seguir Jesus (e ele mesmo deixou claro que ninguém é obrigado!) deve estar disposto a deixar tudo para trás a fim de assumir um novo caminho. A estranhíssima vocação de um seguidor de Jesus é encontrar a paz mitigando o sofrimento dos outros, e não o seu próprio.

Para Jesus e os demais autores do NT, o problema do mundo dos homens é que ele é totalmente implacável; precisamente como animais, as pessoas só buscam solução para os seus próprios apetites, deixando pouco ou nenhum espaço para misericórdia, para a inclusividade e para o respeito interpessoal. É justamente porque o mundo é implacável que você foi demitido e ainda não encontrou espaço para voltar ao mercado. Na grelha do capitalismo, cair para o fogo aos 56 anos de idade é considerado trajeto sem volta.

A boa nova, como apresentada por Jesus, é que o reino de Deus foi inaugurado, e nesta nova realidade todos devem trabalhar de forma voluntária e consistente para que o mundo se torne menos implacável. Neste reino todos devem dar um passo além da carne (ou seja, dar um passo além das limitações da natureza humana), e aprender a imitar a Deus em sua inclusividade e generosidade. Arrepender-se é mudar o mundo.

Basta olhar ao redor para ver que este é um processo que está longe de estar sendo implantado satisfatoriamente. Mais do que isso, Jesus deixou suficientemente claro que a boa nova é de tal natureza que não devemos esperar ser nós mesmos beneficiados por ela; o que cada um pode esperar é meramente fazer sua parte para que o mundo se mostre menos implacável e injusto para os outros. O mundo dos afetados pelas nossas omissões é o único que podemos mudar.

Desde o tempo de Jó uma importante linha de pensamento dentro da Bíblia defende a idéia de que as coisas não acontecem neste mundo a partir de uma lógica de retribuição. Neste mundo não é que os bonzinhos e esforçados são premiados e os malvados punidos e confundidos. Como deixa claro o próprio livro de Jó, o mistério é mais profundo e não há respostas fáceis para o problema do sofrimento.

O escândalo do Novo Testamento está em sugerir que não apenas a religião não é necessária para sermos beneficiados pela graça divina, mas que cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. Isso se faz quando nos arrependemos – isto é, quando passamos a imitar Deus em sua disponibilidade assombrosa de dar e dar-se.

Na lógica exigente da boa nova é por minha culpa que você está desempregado, e amenizar as durezas da sua condição é de minha única responsabilidade. Não posso pedir que Deus faça isso, e não posso esperar que outra pessoa o faça.

Numa palavra, não posso ensinar você a orar, mas posso oferecer um abraço, um beijo e um lugar à mesa. Mande seu telefone que quero ligar pra gente conversar.

Abração

PB



05 de Fevereiro de 2010

As possibilidades do futuro

Por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

Se foi necessário tamanho parêntese para recuperarmos parte do sentido de duas únicas expressões da resposta de Pedro – “arrependam-se” e “sejam batizados“, é para ficar demonstrado que a aparente solidez das palavras é totalmente ilusória. As palavras são pedras que no rio do tempo perdem por completo as suas arestas e adquirem outras formas.

Os estudiosos dessas transformações linguísticas explicam que quando examinamos uma palavra hoje em dia, por mais aplicada que seja a nossa investigação, não temos como saber o formato exato que tinha essa mesma palavra há cem ou duzentos anos. A norma inflexível é que, com a acumulação dos incidentes do tempo, vai ficando mais difícil determinar como determinado termo era usado ou interpretado numa dada época. Isso sem contar o fato de que, mesmo dentro dos limites de um único intervalo de tempo (digamos, na nossa própria época) ou de um único autor (digamos, este), uma palavra não se submete a assumir um significado fixo, mas insiste em esconder sua nudez atrás de nuanças e fluididades.

Como resultado, as palavras, que deveriam servir para elucidar os sentidos, acabam encobrindo-os. Deveriam servir para garantir a fixidez de antigos registros, e acabam por sequestrá-la. O viajante do tempo que dispõe-se a recuperar os significados originais de um texto razoavelmente antigo (isso supondo-se que exista algo tão singelo e inequívoco quanto um “significado original”) deve procurar corrigir a maleabilidade das palavras à luz de escavações arqueológicas e idiomáticas, e consertá-las precariamente pelo cinzel e pelo gesso de outras palavras – precisamente como temos tentado ao longo destes últimos capítulos. Mas esta está longe de ser uma ciência exata, e cada restaurador produzirá novas matizes e pinceladas a partir do mesmo quadro original.

No caso do texto bíblico, a dificuldade no processo de restauração dos sentidos é acentuada por dois fatores. O primeiro é a formidável distância cultural que nos separa das sociedades que produziram os textos originais. Estamos falando de gente que habitava um idioma e uma cultura com prioridades e símbolos espetacularmente diversos dos nossos. Podemos ter quase por certo que encontraríamos mais pontos de contato e mais preocupações em comum com um visitante de uma civilização extraterrestre do que com um judeu do primeiro século – perplexidade que apenas aumentaria se nos postássemos diante de um peludo patriarca como Abraão ou um de um desgrenhado profeta como Elias. Sabemos o que alguns desses disseram ou escreveram, mas isso pode não ser o mesmo que saber o que pensavam ou o que queriam dizer.

A segunda dificuldade a ser levada em conta na determinação dos sentidos bíblicos originais são as camadas inclementes de interpretação e teologização a que os textos foram submetidos ao longo dos milênios. A erudição cristã sujeitou ao seu escrutínio virtualmente cada milímetro da superfície de ambos os testamentos: revirou cada pedra, mediu cada til, pesou cada maiúscula e publicou suas anotações. Graças à intervenção onipotente dos comentaristas, é hoje em dia virtualmente impossível aproximar-se da Bíblia pelo que ela é, como quem se coloca diante do texto pela primeira vez. O resultado é que em vez de salvaguardar os sentidos originais, os exegetas conseguiram garantir que jamais nos aproximaremos legitimamente dele (pelo menos não pela via da leitura, e esta é parte da boa nova). Mesmo para aqueles de nós que sabem-na de cor, a Bíblia permanecerá para sempre um livro desconhecido. Pensamos tanto sobre ele que o esgotamos de qualquer significado. Interpretar a Bíblia é perder o Jogo, e nossa única chance seria esquecê-la.

Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.

Ou,

Abracem a nova mentalidade inclusiva [porque o Reino foi inaugurado, e sua divina vocação é alterar todas as estruturas exclusivas do mundo], e cada de um vocês seja mergulhado na pessoa de Jesus, o messias, tendo em vista a absolvição das suas faltas, e receberão de presente [pela sua imersão na comunidade subversiva dos que foram tocados pela singularidade de Jesus] a lucidez do seu singularíssimo espírito.

É um instante momentoso, qualquer que seja a tradução a que você escolha recorrer. Porque o que está dito aqui é que os primeiros candidatos a seguirem a herança de Jesus depois de sua execução fizeram aos apóstolos uma pergunta exemplar e bastante prática – “o que uma pessoa deve fazer para honrar a obra e a herança de Jesus?” – e receberam uma resposta, para os padrões do cristianismo institucional, pouco ortodoxa: “abracem a vocação de mudar as estruturas do mundo” (arrependei-vos) e “sejam imersos na comunidade inclusiva que produz a incubação e a consequente lucidez do espírito” (e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo).

É uma resposta revolucionária e subversiva – isto é, inteiramente digna de Jesus – porque não inaugura e não cancela nenhuma religião, não introduz nenhum rito e não rebaixa-se a qualquer teologia. Se é certo que um dos objetivos essenciais do livro de Atos dos Apóstolos é delinear é o formato mínimo da experiência cristã, esta será sua mais frequente e consistente resposta: arrependimento e batismo – os quais, decodificados pela narrativa de Lucas, representam subversão da ordem exclusiva do mundo e imersão na comunidade inclusiva dos tocados pela lucidez singular (ou Espírito Santo) de Jesus.

E, como se verá, a nova comunidade se mostrará tão radicalmente inclusiva que não tomará qualquer passo para distinguir-se do judaísmo de seus primeiros adeptos. Os perplexos ouvintes de Pentecostes, precisamente como os cento e vinte discípulos antes deles, são judeus, continuarão se considerando (e se comportando) como judeus e – não menos importante – permanecerão sendo vistos como judeus pelos demais representantes do judaísmo. O arrependimento e o batismo não fará deles convertidos a uma nova fé, não mudará o seu livro sagrado e não alterará em uma vírgula a sua vocação. O que está nascendo não é uma nova religião, mas um novo e irresistível movimento que não tem precedentes e não pode ser adequadamente descrito – “a que compararei o reino de Deus?”. Uma religião muda a forma como um homem reza; a árvore que está nascendo nesta menor das sementes deverá ser capaz aninhar o mundo e acolher em seus ramos todos os homens.

– Porque a promessa – explica o pescador, ainda surpreso diante da sua própria disposição em não excluir ninguém das possibilidades que espreitam no futuro – pertence a vocês, e aos seus filhos, e a todos que estão longe. Pertence a quantos o Senhor nosso Deus chamar.



02 de Fevereiro de 2010

Majnun em busca de Laïla

Por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

Um dia Majnun estava peneirando terra no meio de uma estrada, quando um homem piedoso lhe perguntou:

– Ei, Majnun, o que você está procurando aí?

– Procuro Laïla.

– Como você espera encontrar Laïla neste lugar? – disse o outro. – Poderia uma pérola tão pura ser encontrada em meio a tamanho entulho?

– Eu procuro em todo lugar – disse Majnun, – para poder um dia encontrá-la em algum.

 

O poeta sufi Farid-ud-din Attār(1145-1221), em A Conferência dos Pássaros. Majnun e Laïla, condenados ao amor e à separação eternos, são personagens de uma antiga tradição persa.





01 de Fevereiro de 2010

A fantasia e a razão

Por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

Se acontece de uma obra, sob o risco de tornar-se de outra forma vergonhosa ou falsa, requerer uma medida de fantasia, e que certos membros ou elementos de uma figura sejam alterados mediante o empréstimo de outras espécies – por exemplo, transformando-se em golfinho a porção traseira de um grifo ou de um cervo, – essas alterações se mostrarão excelentes e a substituição, por mais irreal que possa parecer, merece ser declarada uma valiosa invenção no gênero do monstruoso. Quando um pintor introduz quimeras e outros seres imaginários nesse tipo de obra de arte, a fim de divertir e entreter os sentidos, bem como cativar os olhos dos mortais que anseiam por ver coisas impossíveis e não classificadas, o artista demonstra maior respeito à razão do que se produzisse as imagens usuais de homens e animais.

Michelângelo (1475-1564), numa conversa com o português Franciso de Olanda.
Citado em No Go the Bogeyman (pp. 249, 250)