03 de Julho de 2009

O conceito teológico

Por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

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O conceito teológico de “separação de Deus” como consequência da transgressão é uma artificialidade que a narrativa (que é teologicamente agnóstica) desconhece por completo. O homem não conhecerá essa inconcebível condição: Deus nunca estará longe, e todos os capítulos desta história concorrerão para demonstrá-lo.

Nem o pecado nem a transgressão (e, como se verá, nem mesmo a morte) serão capazes de separar os protagonistas um do outro. O terrível está numa realidade transversal, em que as demandas da queda os separarão da sua imagem comum, e portanto de si mesmos. Homem e Deus caminharão tropeçando um no outro pela terra, parágrafo após parágrafo, mas terão perdido a identidade comum. Olharão no olho um do outro, mas não serão capazes de se reconhecer, porque sua glória estará oculta; não puderam, cada um a seu modo e devido às exigências das suas escolhas (as exigências da narrativa), administrar a abundância.

A expulsão do Éden não serve para separar Deus e homem, A expulsão do Paraíso são as roupas de Deus.mas para ocultar dos homens a vergonha da glória divina. A transgressão humana revelara a divina nudez, e a expulsão do Paraíso são as roupas de Deus.

Como as peles que cobrem o homem e a mulher, trata-se de uma solução contingente, que traz em si mesma suas próprias ambivalência e insuficiência, sua própria punição. O inferno é onde Deus e homem não encontram espaço para revelar a sua glória comum.

A narrativa da queda não explica, portanto, que Deus e homem terão de viver separados, mas que viverão ambos em oculto, e portanto separados de si mesmos.

Até que, quem sabe, encontrem-se na nudez.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico


24 de Julho de 2007

nos arquivos:
A hora perdida

Por   Paulo Brabo


Estocado em Sonhos

 

Eu caminhava na divisa entre o sono e a vígilia, procurando o reino das formigas com asas, quando me deparei com uma gaiola dourada banhada pela luz do entardecer. Dentro da gaiola havia uma ave fabulosa com o porte e a aparência de uma arara, mas que ostentava uma plumagem translúcida de um colorido formidável: verdes incrivelmente luminescentes com toques de amarelo candente e vermelho.

Olhando para o animal enjaulado intuí logo que aquela, incrivelmente, não era apenas uma ave; era ao mesmo tempo uma hora do dia, uma hora de todos os dias da minha existência, bela, incandescente e aprisionada ali diante de mim. Entendi que por mais belo que fosse contemplar aquela visão capturada de bem-aventurança, cabia a mim a terrível responsabilidade de libertar de sua prisão e ave e a hora do dia que ela representava - caso contrário ambas permaneceriam ociosas, estéreis e infrutíferas naquele dia e por todos os dias para sempre.

Decidi então que libertaria imediatamente a ave magnífica e sua magnífica hora perdida. Gastei uns últimos instantes desfrutando da beatitude do seu cativeiro, e acordei do sonho antes que pudesse estender a mão na direção da gaiola.



02 de Julho de 2009

Gatinho gatinho gatinho

Por   Paulo Brabo


Estocado em Ilustração

 

Feio que é o Cão.



01 de Julho de 2009

Quem é esse cara?

Por   Paulo Brabo


Estocado em Família

 

E por que me lembro vagamente dele?

Pelo menos ele é saudável.



30 de Junho de 2009

Cãozinho vapt-vupt

Por   Paulo Brabo


Estocado em Ilustração

 



29 de Junho de 2009

Uma questão mais profunda

Por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

Uma questão mais profunda está em se faz sentido o cristianismo identificar com a mente de Deus apenas arranjos culturais anteriores. Sistemas novos não são mais imunes a falhas do que sistemas antigos. O elemento decisivo do impasse está em que a maioria de nós se encontra, para bem ou para o mal, no novo sistema, e há muito que pode ser dito em favor da idéia de aceitarmos o lugar em que estamos ao invés de tentarmos fugir.

O fato é que agora [na pós-modernidade] vemos a luta humana em busca de significado e de valor para a vida como sendo um empreendimento com muitas abordagens e muitas respostas. Gosto de pensar que há provavelmente muito de positivo nessa variedade.

Em contraposição, a presença de diversos sistemas é um bom anteparo contra a tendência ao abuso existente em sociedades onde sistemas únicos prevalecem. Sistemas únicos acabam se tornando arrogantes.

Dessa forma, o efeito relativizador da presença de outras descrições da aventura humana tempera a tendência absolutizadora de sistemas únicos, e também o conflito sem fim que caracteriza as sociedades com dois sistemas dominantes.

Voltaire compreendia essas coisas:

Se numa terra houver duas religiões, as duas cortarão as gargantas uma da outra; se houver trinta, todas viverão em paz.

Richard Holloway