14 de Maio de 2008

Tese

Por   Paulo Brabo


Estocado em Sonhos

 

Há numa moderna cidade italiana uma universidade que transforma as teses de mestrado e doutorado que lhe são submetidas em contos de fadas. Não se sabe exatamente como acontece, mas as tramas resultantes seguem muito livremente a estrutura das obras originais (o proponente da tese é o protagonista, a hipótese seu conflito, os dados nas tabelas os habitantes do reino, os nomes na bibliografia seus ajudantes mágicos, a conclusão o antagonista que deve ser eliminado). A atmosfera e o desenlace, no entanto, são invariavelmente originais ao ponto do desconcertante.

Um acadêmico que tente recuperar do arquivo da universidade uma tese que propôs se mostrará inteiramente incapaz de reconhecer a obra que ja foi sua, e será ao mesmo tempo incapaz de não reconhecer-se nela. O conto de fadas lhe deixará nos lábios o sabor agridoce da lembrança de um sonho.

* * *

Há os que acreditem que a própria cidade esteja se transformando aos poucos num local de sonho.

Numa meia-noite de 2001 eu e mais doze ou treze acadêmicos, todos de ligeiramente bêbados a um pouco mais, descemos de um ônibus num isolado e escuro bairro dessa cidade, achando que estávamos descendo numa quadra do centro que pensamos reconhecer. Em seguida descobrimos que um agente invisível havia roubado no ônibus nossas carteiras e telefones, e não tínhamos idéia de como voltar ao hotel.

Eu falava o idioma menos mal de que meus acompanhantes, pelo que deixei-os na rua e abri o portãozinho de ferro de uma casa de esquina, atravessei o caminho que serpenteava por um jardinzinho e bati na porta de uma casa inteiramente às escuras. Uma luz se acendeu lá no fundo e uma senhora mostrou o rosto na janela ao lado da porta, mas a porta que se abriu, inundando-me de luz amarela, ficava na lateral da casa, um pouco atrás de mim e à direita.

Estendeu a mão para me cumprimentar um homem muito alto, quase um gigante. Ele tinha o rosto alongado e estreito, como o de um cíclope, só que não tinha olho algum no lugar onde o único olho deveria estar. Expliquei a situação e ele me disse que, embora não tivessem telefone, eu e meus amigos podíamos passar a noite ali, desde que não ligássemos de dormir no chão do depósito dos fundos, cuja porta ele acabara de abrir.

Ajudei esse homem a empilhar numa salinha lá atrás as mesas de madeira e outros móveis que ocupavam o chão desse depósito, cujo traçado era irregular, estreito e comprido, formado apenas por ângulos agudos. Logo veio nos ajudar o seu irmão, que era idêntico a ele mas tinha um único olho azul no centro da testa, e não falava.

Num ângulo da salinha, enquanto empilhávamos as coisas, vi duas jaulas muito grandes e douradas, uma sobre a outra. Dentro delas, meio ocultos por flâmulas e pedestais e plataformas de partituras, dois homens gordos como piões, com feição de anão, faces rosadas e roupas coloridas de circo, que haviam sido presos ali por se comportarem mal.



07 de Setembro de 2005

nos arquivos:
Independência ou morte…

Por   Paulo Brabo


Estocado em Brasil, Politica, Sociedade

 

…mas não para as mesmas pessoas ao mesmo tempo.

O Brasil é o oitavo país em desigualdade social, na frente apenas da latina-americana Guatemala, e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

De acordo com o documento, no Brasil 46,9% da renda nacional concentram-se nas mãos dos 10% mais ricos. Já os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7% da renda.

Aqui há distribuição de tarefas: uns ficam com a independência, outros com a morte.


Brasil é oitavo país em desiguladade social, diz pesquisa
da Folha Online, em Brasília e SP



13 de Maio de 2008

Copyrights do Caribe [2]

Por   Paulo Brabo


Estocado em Irmãos Comédia

 



12 de Maio de 2008

A ascensão de Enoque

Por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

AS DEZ GERAÇÕES: A ascensão de Enoque

Essa não foi a primeira vez que Enoque esteve no céu. Uma vez antes disso, enquanto vivia entre os homens, foi-lhe permitido ver todas as coisas que há na terra e no céu. Numa hora em que ele estava dormindo um pesar profundo desceu-lhe sobre o coração; em seu sonho ele chorou, sem saber o que o pesar significava, nem tampouco o que lhe sobreviria. Então lhe apareceram dois homens muito altos; seus rostos eram como o sol, seus olhos como lâmpadas incandescentes, e fogo brotava de seus lábios; suas asas eram mais brilhantes do que ouro, suas mãos mais brancas do que a neve. Eles puseram-se em pé diante da cama de Enoque e chamaram-no pelo nome. Enoque despertou do sono e apressou-se a prestar-lhes reverência, aterrorizado. Esses homens então lhe disseram:

– Ânimo, Enoque, não tenha medo. O eterno Deus mandou-nos até você, e hoje mesmo você subirá ao céu conosco. Conte aos seus filhos e criados, e diga que não o procurem até que o Sehor o traga de volta.

Enoque fez como lhe foi dito, e depois que ele havia falado com seus filhos, instruindo-os a não darem as costas para Deus e a guardarem os julgamentos dele, esses dois homens o chamaram, tomaram-no em suas asas e colocaram-no sobre as nuvens, que passaram a deslocar-se cada vez mais para cima, até depositá-lo no primeiro céu. Aqui foram mostrados a ele os duzentos anjos que governam as estrelas, bem como seu serviço celestial. Aqui ele viu também os depósitos de neve e de gelo, de nuvens e de orvalho.

«Recebemos ordens de acompanhá-lo até este ponto.»

Dali eles o levaram até o segundo céu, onde Enoque viu os anjos caídos em prisão, que não obedeceram aos mandamentos de Deus, tendo ouvido o conselho de sua própria vontade. Os anjos caídos lhe disseram:

– Ah, homem de Deus! Rogue por nós ao Senhor!

Ele respondeu:

– Quem sou eu, homem mortal, para rogar por anjos? Quem sabe para onde estou indo, ou o que me espera?

Eles então levaram-no ao terceiro céu, onde foi-lhe mostrado o Paraíso, com todas as árvores de belíssimas cores e seus frutos maduros e saborosos, bem como toda espécie de alimento que produziam, brotando com delicioso aroma. No meio do Paraíso ele viu a árvore da vida, no lugar em que Deus repousa quando vem ao Paraíso. Essa árvore, em sua excelência e sua doce fragrância, não pode ser descrita; é mais bela do que qualquer outra coisa criada, e em todos os seus lados é semelhante a ouro e a carmim, sendo transparente como o fogo e cobrindo todas as coisas. De suas raízes no jardim brotam quatro fontes, das quais fluem, leite, mel, óleo e vinho; suas correntes descem até o Paraíso do Éden, que se localiza na fronteira entre a região terrena da corruptibilidade e a região celeste da incorruptibilidade, e daí contornam a terra. Ele viu também os trezentos anjos que cuidam do jardim, e com vozes incessantes e abençoado cântico servem ao Senhor todos os dias. Os anjos que conduziam Enoque explicaram-lhe que este lugar está preparado para os justos, enquanto que o terrível lugar de tortura, preparado para os pecadores, encontra-se nas regiões setentrionais do terceiro céu. Ele viu toda sorte de torturas e escuridão impenetrável, e não há ali luz alguma, exceto um fogo sombrio que queima incessantemente. Aquele lugar tem fogo por todos os lados, e por todos os lados frio e gelo, pelo que tanto queima quanto congela. E os anjos, terríveis e sem piedade, empunham armas violentas, e sua tortura é sem clemência.

Os anjos levaram-no então ao quarto céu, e mostraram-lhe todas as suas entradas e saídas, bem como todos os raios de luz do sol e da lua. Ele viu as quinze miríades de anjos que saem com o sol e servem-no durante o dia, e os mil anjos que o servem durante a noite. Cada anjo tem seis asas, e segue adiante da carruagem do sol, enquanto cem anjos mantém o sol aquecido e acendem-no. Viu também as maravilhosas e estranhas criaturas chamadas fênices e chalkidri, que cuidam da carruagem do sol e o acompanham, levando calor e orvalho. Mostraram-lhe também os seis portões a leste do quarto céu, por onde o sol parte e os seis portões a oeste por onde ele se recolhe, bem como os portões pelos quais sai a lua e aqueles pelos quais ela retorna. No meio do quarto céu ele viu um exército armado, servindo ao Senhor com címbalos e orgãos e vozes que jamais cessam.

No quinto céu Enoque viu as inúmeras hostes dos anjos chamados Grigori. Sua aparência era semelhante à dos homens, seu tamanho maior do que os gigantes, suas feições macilentas, seus lábios silentes. Quando perguntou quem eles eram, os anjos responderam:

– Esses são os Grigori, cujo príncipe Salamiel rejeitou o santo Senhor.

Enoque então disse aos Grigori:

– Por que vocês ficam parados, irmãos, e não servem na presença do Senhor? Por que não desempenham suas tarefas diante do Senhor, de modo a não irá-lo até o fim?

Eles ouviram aquela repreensão, e quando as trombetas soaram juntas, em sonoro clamor, os Grigori começaram também a cantar em uma só voz, e suas vozes chegaram à a presença do Senhor em tristeza e ternura.

No sétimo céu Enoque viu os sete grupos de anjos que organizam e estudam as revoluções das estrelas e as mudanças da lua e a revolução do sol, e supervisionam as boas e más condições do mundo. Organizam também ensinos e instruções e falares doces e cântico e todo tipo de louvor glorioso. Eles mantém em sujeição todas as coisas vivas, tanto no céu quanto na terra. Em meio a eles há sete fênices e sete querubins e sete criaturas aladas, cantando numa só voz.

Quando chegou ao sétimo céu e viu os exércitos flamejantes dos grandes arcanjos e forças incorpóreas e senhorios e principados e autoridades, Enoque ficou aterrorizado, tremendo de pavor. Aqueles que o conduziam então tomaram-no e o colocaram no meio deles, e disseram:

– Ânimo, Enoque. Não tenha medo.

E mostraram-no de longe o Senhor, assentado em seu trono elevado, enquanto todos os exércitos celestiais, divididos em dez gradações, tendo se aproximado, postaram-se de pé sobre os dez degraus de acordo com a sua graduação e prestaram reverência ao Senhor. Em seguida prosseguiram cada um para o seu posto em meio a celebração e júbilo e luz sem limites, cantando cânticos em voz suave e gentil e servindo-o gloriosamente. Dia e noite não se afastam nem partem, permanecendo diante da face do Senhor, efetuando sua vontade, querubins e serafins ao redor do seu trono.

«Poste-se diante da minha face para sempre.»

E as criaturas de seis asas cobrem por inteiro o seu trono, cantando em voz suave diante da face do Senhor:

– Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; o céu e a terra estão cheios da sua glória.

Depois que Enoque havia visto tudo isso os anjos que o conduziam lhe disseram:

– Enoque, recebemos ordens de acompanhá-lo até este ponto.

Eles então partiram, e Enoque não os viu mais. Permaneceu na extremidade do sétimo céu, tomado de terror, dizendo a si mesmo:

– Ai de mim! O que foi me sobrevir!

Mas então veio Gabriel e disse a ele:

– Não tenha medo, levante-se e venha comigo, e permaneça diante da face do Senhor para sempre.

Enoque respondeu:

– Ah, meu senhor, meu espírito me abandonou em temor e tremor. Chame de volta os homens que me trouxeram a este lugar! Eu confiei neles, e com eles eu me postaria diante da face do Senhor.

Gabriel então levou-o agilmente, como uma folha carregada pelo vento, e colocou-o diante da face do Senhor.

Enoque caiu de joelhos e adorou ao Senhor, que disse a ele:

– Enoque, não tenha medo. Levante-se e poste-se diante da minha face para sempre.

E Miguel levantou-o do lugar, e ao comando do Senhor removeu dele suas roupas terrenas, ungiu-o com o óleo santo e o vestiu; quando Enoque olhou para si mesmo, estava semelhante a um dos gloriosos de Deus, e então abandonaram-no o temor e o tremor.

Deus chamou um de seus arcanjos que era mais sábio que todos os outros, e colocara por escrito todos os feitos do Senhor, e disse a ele:

– Traga os livros do meu almoxarifado, dê uma pena a Enoque e interprete os livros para ele.

O anjo fez como lhe fora ordenado, e instruiu Enoque por trinta dias e trinta noites, e seus lábios não cessaram de falar, enquanto Enoque escrevia todas as coisas a respeito do céu e da terra, de anjos e homens, e tudo aquilo sobre o que é próprio ser instruído. Ele também escreveu sobre as almas dos homens, aquelas que não chegam a nascer, e sobre os lugares preparados para elas para sempre. Copiou tudo com precisão, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros.

No oitavo milênio não haverá anos, nem meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

Depois que Enoque havia recebido todas as instruções do arcanjo, Deus revelou-lhe grandes segredos, cujo teor os próprios anjos desconhecem. Contou-lhe de que forma, a partir da mais inferior escuridão, o visível e o invisível haviam sido criados; como ele formara o céu, a luz, a água e a terra; narrou também a queda de Satanás e a criação e o pecado de Adão, e revelou-lhe ainda que a duração do mundo será de sete mil anos, e que o oitavo milênio será ocasião em que não haverá contagem de tempo: nenhum fim, nem anos, nem meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

O Senhor concluiu essa revelação a Enoque com as seguintes palavras:

– Entrego você agora a Samuil e Raguil, que trouxeram-no aqui. Vá com eles para a terra, e conte a seus filhos as coisas que eu disse a você, bem como o que testemunhou do céu mais inferior até o meu trono. Dê-lhes obras escritas por você, para que as leiam, e distribuam os livros aos filhos dos filhos deles, de geração em geração e de uma nação a outra. E eu darei a você meu mensageiro Miguel para [guardar] os seus escritos e os escritos de seus pais, Adão, Sete, Enos, Quenan, Malalel e seu pai Jarede. Não os requererei até a última era, pois já instrui meus dois anjos, Ariuk e Mariuk, a quem coloquei na terra como seus guardiães, e ordenei que os guardem, a fim de que o relato do que farei na sua família não se perca no dilúvio que está por vir. Pois por causa da perversidade e da maldade dos homens eu trarei um dilúvio sobre a terra, e destruirei a todos, mas pouparei um homem íntegro da sua descendência juntamente com todos na sua casa, que agirão em conformidade com a minha vontade. Da descendência desses eu levantarei uma geração numerosa, e por ocasião da extinção dessa família eu mostrarei a eles os livros escritos por você e pelo seu pai, e os guardiães desses livros sobre a terra os mostrarão aos homens íntegros e aos que me agradam. Esses os transmitirão à geração seguinte e esses, tendo-os lido, serão glorificados por fim mais do que antes.

Enoque foi então mandado de volta à terra para permanecer ali por trinta dias instruindo seus filhos. Porém antes que ele saísse do céu Deus mandou-lhe um anjo cuja aparência era como neve, cujas mãos eram como gelo. Enoque olhou para ele, e seu rosto enregelou-se diante do fato de que homens pudessem suportar a visão daquele homem.

Os anjos que haviam-no levado ao céu colocaram-no na sua cama, no lugar em que seu filho Matusalém o aguardava dia e noite.

Enoque reuniu seus filhos e todos na sua casa, e instruiu-os fielmente a respeito de todas as coisas que havia visto, ouvido e escrito, e deu seus livros a seus filhos, para que os guardassem e lessem, insistindo que não ocultassem os livros, mas mostrássem-nos a todos que tivessem desejo de conhecimento.

Quando se completaram os trinta dias o Senhor enviou escuridão sobre a terra, e uma penumbra ocultou os homens que estavam com Enoque. Os anjos apressaram-se em tomar Enoque e carregaram-no ao céu mais elevado, onde o Senhor o recebeu e colocou-o diante de sua face; a escuridão então abandonou a terra, e houve luz. As pessoas voltaram a ver e não compreenderam que Enoque havia sido tomado, e glorificaram a Deus.

Enoque nasceu no sexto dia do mês de Sivan, e foi levado ao céu no mesmo mês, no mesmo dia e na mesma hora em que nasceu. Matusalém apressou-se juntamente com todos os seus irmãos, filhos de Enoque, e ergueu um altar no lugar chamado Acuzã, de onde Enoque havia sido tomado para o céu. Os anciãos do povo vieram para a festividade e trouxeram presentes para os filhos de Enoque, e fizeram grande celebração, festejo e júbilo por três dias, louvando a Deus por ter concedido tamanho sinal através de Enoque, que havia encontrado favor juntamente com eles.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.



09 de Maio de 2008

Para caracterizar uma tragédia

Por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

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Para caracterizar uma tragédia, na definição muito estrita de Aristóteles, o reverso de fortuna que recai sobre o protagonista não pode ser provocado por um fator dramático qualquer; não deve, por exemplo, ser o resultado de um desastre natural, ou mesmo de uma falha de cárater do protagonista.

Para Aristóteles, o infortúnio da tragédia deve ser sempre desencadeado por um erro de julgamento por parte do personagem principal. No exemplo clássico, o protagonista deixa por alguma razão de reconhecer uma pessoa (com freqüência um parente próximo), e esse lapso de discernimento mostra-se danoso ao ponto do irremediável.

Essa definição de tragédia lança uma luz curiosa sobre a proibição que move a história de Adão. O primeiro homem desfruta de todas as espécies de liberdade, inclusive aquelas que não têm como compreender, mas absolutamente não deve comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal – isto é, a árvore do discernimento moral.

Eis um dilema geométrico, escheriano, como a mão paradoxal que desenha a mão que está desenhando a mão. De que forma o homem pode ser capaz de discernir o mal de desobedecer, sem antes comer o fruto do discernimento moral? É como se Deus dissesse ao daltônico: “não coma a fruta vermelha da árvore que concede a habilidade de distinguir as cores”.

Para a nossa era especializada em apontar inconsistências morais, especialmente as relacionadas aos abusos de autoridade, esse cenário expõe uma falha moral por parte da divindade: Deus exige uma obediência deliberada, mas a natureza da proibição acaba contradizendo a possibilidade de se obedecê-lo de modo consciente.

A narrativa, no entanto, só existe para explicar a si mesma, e é dessa forma impermeável a qualquer consistência ou revelação moral. Do ponto de vista narrativo, o paradoxo da proibição de Adão existe para enfatizar, mais do que qualquer coisa, o quanto a transgressão deve mostrar-se inevitável no desenrolar da história – e não, como gostamos de circularmente pensar, se é Adão ou Deus o culpado definitivo por ela.

A história do primeiro homem é, por esse prisma, uma espécie particular de tragédia, uma em que o erro de julgamento do protagonista está preso a uma plataforma circular: ele é incapaz de reconhecer o quanto lhe será prejudicial ser capaz de reconhecer.

Ainda mais do que uma tragédia convencional, a história da queda de Adão parece existir para ilustrar que para se reconhecer determinadas conseqüências de uma decisão é preciso estar do lado de lá da transgressão. Em retrospecto isso faz muito sentido, já que não é da transgressão do homem que a narrativa está falando.



08 de Maio de 2008

A família de Matoso

Por   Paulo Brabo


Estocado em Ilustração

 

Tomada 1. Clique para ampliar.



07 de Maio de 2008

Meramente viviam

Por   Paulo Brabo


Estocado em Fé e Crença, Homens e Mulheres

 

Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção da teologia da igreja.

Para alguns a escassez de “mães da igreja” é evidência de preconceito por parte dos teólogos de sexo masculino, ou do caráter irremediavelmente patriarcal do próprio cristianismo. Creio que essa escassez é evidência da natureza patriarcal da cultura ocidental como um todo (da qual o cristinismo é parte integral) e da acomodação cultural por parte da igreja e de suas instituições. Deveriam ter existido mães da igreja paralelamente aos pais da igreja. O fato de que não tenham existido é um escândalo para a igreja, mas não justifica as histórias revisionistas que as inventam.

Este é Roger E. Olson na introdução de seu The Story of Christian Theology, de resto um livro valiosíssimo, embora não pelos motivos que supõe o seu autor.

Neste trecho Olson está se esforçando para, sem ofender ninguém, corrigir uma falácia: a idéia revisionista de que na história do cristianismo existiram mulheres que se ocuparam de teologia, pensadoras cuja voz foi silenciada por uma ardilosa conspiração de teólogos do sexo masculino. Olson está certo em dizer que historicamente as mulheres não se ocuparam de teologia, mas para corrigir essa falácia ele reforça outra ainda maior e muitas vezes mais popular, a noção de que a teologia é o modo relevante, o modo último e ótimo de se exercer o cristianismo. Ele está efetivamente dizendo: “é uma pena que não tenham havido mulheres teólogas, porque o pensamento teológico é a esfera na qual o cristianismo verdadeiro se desenrola”.

Falando assim, Olson está destilando eficazmente dois mil anos de pensamento masculino: para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.

A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de idéias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela manobra rasteira do convencimento. Essa sua qualidade de “jogo de quem é mais forte” (ou, no caso, “quem está mais certo”) mantem-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.

Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.

Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto – e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas – a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das idéias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.

Escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo.

Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário constrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro abraçava o mundo dos sentidos com mais avidez e candura do que o mundo das idéias.

Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das idéias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever “meramente viviam”, como se viver fosse coisa de somenos).

Elas apostaram consistentemente na idéia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável.

Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na Kaufhaus des Westens, a loja de proprietários judeus que costumava freqüentar.

Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.