A Bacia das Almas é abrigo de argumentos que se repetem

Despachos da Muralha, episódio 3: 
Riodomar

 

O seres­ta­nejo Riodomar via qualquer assen­ta­mento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso des­ba­ra­tar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma huma­ni­dade. Quando desceu na rodo­viá­ria e pisou o Sacro­con­do­mí­nio de São Paulo, ao mesmo tempo tes­te­mu­nhava e lia sua própria história da descida aos infernos. Não Enéas, não Lampião: Riodomar. Era porém cravo temperado pelo Serestão: não ignorava que os infernos atraem com graça irre­sis­tí­vel tudo que é humano, por isso devem ser entrados com a maior reve­rên­cia. Não era à toa que andava descalço.

Esperava por

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  O seres­ta­nejo Riodomar via qualquer assen­ta­mento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso des­ba­ra­tar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma huma­ni­dade. Quando desceu na rodo­viá­ria e pisou o Sacro­con­do­mí­nio de São Paulo, ao mesmo tempo tes­te­mu­nhava e lia sua própria história da […]

Raízes

 

A sala da fazenda era emol­du­rada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa.

De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loi­rís­simo e lati­fun­diá­rio, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. De fora, escoltado por segu­ran­ças que ocuparam ime­di­a­ta­mente todas as portas, o marechal Dos Santos, secre­tá­rio de Estado dos negócios do Império.

– Estava de saída, deputado? – disse o marechal, esten­dendo ao fazen­deiro uma mão enluvada.

– Sim, bom dia – Heinz terminou de calçar a bota e devolveu

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  A sala da fazenda era emol­du­rada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa. De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loi­rís­simo e lati­fun­diá­rio, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. […]

Pasto e soja

 

– Querendo dizer – disse Maiara, apontando para o mapa – que esses reinos são todos uma fachada. Estão conjuminados.

– Estão em guerra, você quer dizer – disse o italiano. Tocou por um instante a ilha no centro do mapa, depois fez com que o dedo des­li­zasse do sul para o noroeste. – A Resi­dên­cia em Vazília jurou proteger os índios e outros guardiões da Muralha, mas é há trinta anos que o Império Gaúcho está invadindo e dila­pi­dando a Muralha com a coni­vên­cia da União.

– Que ninguém faz nada só comprova o que eu estou dizendo – disse Maiara, que estava nua para disfarçar o fato de que estava usando

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  – Querendo dizer – disse Maiara, apontando para o mapa – que esses reinos são todos uma fachada. Estão con­ju­mi­na­dos. – Estão em guerra, você quer dizer – disse o italiano. Tocou por um instante a ilha no centro do mapa, depois fez com que o dedo des­li­zasse do sul para o noroeste. – […]

Homens e Mulheres ,,
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Embora queiramos por vezes encontrá-lo ou enxertá-lo em épocas a que não pertence, o homem romântico é invenção rela­ti­va­mente recente e demorou séculos para ser apri­mo­rado, tendo se fixado na forma como o conhe­ce­mos hoje a coisa de duzentos anos. Talvez seu primeiro inventor tenha sido de fato o apóstolo Paulo, quando sonhou há dois […]

Uma lista de sin­gu­la­ri­da­des: porque o Brasil é tão difícil de explicar


O resto do mundo não opera a partir de lógicas que se aplicam aqui

A confissão: escrever sobre a crise da zona do euro ou a ascensão do naci­o­na­lismo no mundo é covar­de­mente mais fácil do que se pro­nun­ciar com qualquer lucidez sobre o que acontece neste país.

Se o mundo é complexo, o Brasil é excep­ci­o­nal­mente. As correntes que cortam e definem o planeta são pelo menos visíveis e mapeadas. Em com­pa­ra­ção, não há nome ou dis­ci­plina que cor­res­ponda a muita coisa que acontece no Brasil.

Não é à toa que entre nós tanta gente reputada escreve tolice sem perder a reputação. O Brasil é um estado de exceções

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O resto do mundo não opera a partir de lógicas que se aplicam aqui A confissão: escrever sobre a crise da zona do euro ou a ascensão do naci­o­na­lismo no mundo é covar­de­mente mais fácil do que se pro­nun­ciar com qualquer lucidez sobre o que acontece neste país. Se o mundo é complexo, o Brasil é […]

Manuscritos

– O que você está lendo? – Esse aqui. – É romance? Nunca ouvi falar. – Todo mundo já ouviu falar dO esfolador de anjos. Todo mundo já leu O esfolador de anjos. Ou pelo menos sabe o final. – Eu não. Do que se trata? – De que planeta você é? Bom, o que posso contar que é a […]

O anjo e a meritocracia

Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os pri­vi­lé­gios que vai ter

– Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona. Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta e é liberado imediatamente.

Eu tinha muito mais que uma pergunta, mas fiz que sim com a cabeça.

Onde – eu disse, do modo mais claro e deli­be­rado que consegui.

– Onde, onde – disse o anjo, e deslizou o dedo sobre a tablet que trazia na mão. – Olha, parabéns, você vai nascer no Brasil, um país muito legal.

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Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os pri­vi­lé­gios que vai ter – Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona. Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta […]

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This entry is part 2 of 2 in the series Os usos políticos do ateísmo

Houve tempo em que o principal método para se jus­ti­fi­car o uso da violência era alegando-se o direito divino dos gover­nan­tes. Nos nossos dias, para subs­ti­tuir as obsoletas jus­ti­fi­ca­ti­vas reli­gi­o­sas inventaram-se outras. Essas novas jus­ti­fi­ca­ti­vas são tão ina­de­qua­das quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua […]

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No Novo Tes­ta­mento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo impor­tante substrato (uma daquelas rea­li­da­des sociais tão unânimes que per­ma­ne­cem ocultas, subindo poucas vezes à super­fí­cie da cons­ci­ên­cia ou do discurso) todas as vezes que o assunto é men­ci­o­nado ou aludido. A questão é na verdade de importância […]

A Bacia das Almas já foi atualizada com maior frequência


Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma nA Forja Universal, no twitter, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas discorda da posição do colega