A Bacia das Almas já disse a mesma coisa mais de uma vez.

Manuscritos

Era perto do meio-dia mas o peito do homem tinha dentro um sol baixo e dourado no horizonte, um esplendor no ar e uma revoada de pássaros que lhe girava sem cessar o domo do coração. Pousou a mão sobre o peito nu como que para estancar aquela ternura e impedir que lhe roubasse todo o fôlego.

Deitou um peixe sobre a tábua de cortar e neste momento chegou o jegue trazendo o enge­nheiro Mateus, que pisou o chão agreste inter­me­di­ado por sapa­ti­lhas finas de brocado.

> continue lendo

Talvez

Eu tinha menos de dezoito anos quando Jorge Luis Borges beijou-me pela primeira vez numa papelaria em Bauru1. A maior parte das páginas que meus leitores atribuem a mim consiste no registro das ondas de choque que pro­du­zi­ram no meu relevo interior aquele encontro.

E dos bens que Borges deixou-me no seu tes­ta­mento, talvez o mais valioso tenha sido a fé neces­sá­ria para dizer e pensar talvez.

Eu era um jovem que queria ter muitas certezas. Para o rapaz que fui a beleza (e portanto também a verdade) residia no imutável e no certo: na profissão de fé, nas tábuas de pedra da lei, na crença per­fei­ta­mente formulada. Meu autor favorito era o apóstolo Paulo, porque não conseguia conceber pessoa com con­vic­ções mais firmes2.

> continue lendo

ManuscritosTraduzindo Borges ,,,,,,,,,,,,,,,,,,

Eu tinha menos de dezoito anos quando Jorge Luis Borges beijou-me pela primeira vez numa papelaria em Bauru1. A maior parte das páginas que meus leitores atribuem a mim consiste no registro das ondas de choque que pro­du­zi­ram no meu relevo interior aquele encontro.

E dos bens que Borges deixou-me no seu tes­ta­mento, talvez o mais valioso tenha sido a fé neces­sá­ria para dizer e pensar talvez.

Eu era um jovem que queria ter muitas certezas. Para o rapaz que fui a beleza (e portanto também a verdade) residia no imutável e no certo: na profissão de fé, nas tábuas de pedra da lei, na crença per­fei­ta­mente formulada. Meu autor favorito era o apóstolo Paulo, porque não conseguia conceber pessoa com con­vic­ções mais firmes2.

> continue lendo

Manuscritos ,,,,

Não teve por usurpação ser igual a Deus – ao contrário, aniquilou-se a si mesmo.
Fili­pen­ses 2:6,7

 

Que o ocidente encontra-se em franco processo de secu­la­ri­za­ção a ninguém ocorreria negar. Cada dia se levanta e encontra Deus mais distante do centro do palco, onde uma vez incon­tes­ta­vel­mente esteve. Menos gente se considera religiosa, menos gente acredita em Deus, menos gente fala com ele. Menos gente se mostra disposta a moldar o seu com­por­ta­mento diante da ameaça do inferno e do pecado; menos gente acredita em milagres, menos gente os espera e os pede. Há menos orações públicas, menos cru­ci­fi­xos nas paredes, menos menções a alguma divindade na festa de entrega do Oscar. Menos gente recorre a Deus para prover ajuda, e mais gente duvida que Deus seja capaz de prover qualquer ajuda.

> continue lendo

Manuscritos ,,,,,,,,,,,,,

Antes de ser questão política, a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém dizia respeito à iden­ti­dade cristã

 

Somos todos culpados de tudo.
Dimitri Karamazov, em Os irmãos Karamazov de Dostoiévski

 

 

A diferença entre esquerda e direita, obvi­a­mente, é que os par­ti­dá­rios da esquerda podem dizer todo ser humano me repre­senta e insistem em fazê-lo.

A direita prefere evitar qualquer iden­ti­fi­ca­ção com a esquerda, mas para ser de esquerda é preciso identificar-se até certo ponto com a direita. É preciso entender até o seu cerne as aspi­ra­ções e os argu­men­tos da direita – sentir o completo fascínio da sua tentação, por assim dizer, antes de tomar a decisão de proteger o mundo inteiro do estrago que tem feito e pode continuar a fazer.

> continue lendo

Goiabas Roubadas

Abri mão do suborno do céu. Que a obra de Deus seja realizada por seus próprios méritos: a obra que ele teve de criar-nos para fazer porque não pode ser executada a não ser por homens e mulheres vivos. Quando eu morrer seja Deus o devedor, e não eu.

George Bernard Shaw, Major Barbara (1905) Ato 3

Leia também:
Temor e fé

Política ,,,,,,,,,,,,,,

Todas as vezes que falo da cultura judaica numa luz positiva, como em A verdade na assem­bleia dos dis­cor­dan­tes, fico com medo de estar dando a impressão de que aprovo a política histórica do estado judeu, e que nada tenho contra o público estran­gu­la­mento da Palestina. O Estado de Israel fez muito para seques­trar em seu favor o termo “judeu”, esvaziando-os de suas impli­ca­ções reli­gi­o­sas e culturais e restringindo-o ao âmbito político e nacional.

> continue lendo

Nunca é cedo demais para lembrar o que o PT e o capi­ta­lismo têm em comum

As pessoas acham que o cres­ci­mento diminui a pobreza. O cres­ci­mento, na verdade, produz e reproduz a pobreza. Na medida em que ele tira gente da pobreza, ele tem que criar outros pobres no lugar. . . . Índio é jus­ta­mente o contrário do pobre. Eles se definem pelo que têm de diferente, uns dos outros e eles todos de nós, e por alguém cuja razão de ser é continuar sendo o que é. . . . O que aconteceu com a história do Brasil é que foi um processo circular de trans­for­ma­ção de índio em pobre. Tira a terra, tira a língua, tira a religião. Aí o cara fica com o quê? Com a força de trabalho. Virou pobre. Qual foi sempre o truque da mes­ti­ça­gem bra­si­leira? Tiravam tudo, con­ver­tiam e diziam: agora, se vocês se com­por­ta­rem bem, daqui a 200, 300, 400 anos, vocês vão virar brancos. . . . O Brasil está sendo reco­lo­ni­zado por ele mesmo com esse modelo sulista/europeu/americano. Essa cultura country que está invadindo a Amazônia junto com a soja, junto com o boi. E ao mesmo tempo trans­for­mando quem mora ali em pobre. E pro­du­zindo a pobreza. O ribei­ri­nho vira pobre, o qui­lom­bola vira pobre, o índio vai virando pobre. Atrás da colhei­ta­deira, atrás do boi, vem o programa de governo, vem o Bolsa Família, vem tudo para ir reci­clando esse lixo humano que vai sendo pisoteado pela boiada.
Eduardo Viveiros de Castro em
Diálogos sobre o fim do mundo

> continue lendo

BrasilGoiabas RoubadasPolítica ,,,,,,,,,

As pessoas acham que o cres­ci­mento diminui a pobreza. O cres­ci­mento, na verdade, produz e reproduz a pobreza. Na medida em que ele tira gente da pobreza, ele tem que criar outros pobres no lugar. . . . Índio é jus­ta­mente o contrário do pobre. Eles se definem pelo que têm de diferente, uns dos outros e eles todos de nós, e por alguém cuja razão de ser é continuar sendo o que é. . . . O que aconteceu com a história do Brasil é que foi um processo circular de trans­for­ma­ção de índio em pobre. Tira a terra, tira a língua, tira a religião. Aí o cara fica com o quê? Com a força de trabalho. Virou pobre. Qual foi sempre o truque da mes­ti­ça­gem bra­si­leira? Tiravam tudo, con­ver­tiam e diziam: agora, se vocês se com­por­ta­rem bem, daqui a 200, 300, 400 anos, vocês vão virar brancos. . . . O Brasil está sendo reco­lo­ni­zado por ele mesmo com esse modelo sulista/europeu/americano. Essa cultura country que está invadindo a Amazônia junto com a soja, junto com o boi. E ao mesmo tempo trans­for­mando quem mora ali em pobre. E pro­du­zindo a pobreza. O ribei­ri­nho vira pobre, o qui­lom­bola vira pobre, o índio vai virando pobre. Atrás da colhei­ta­deira, atrás do boi, vem o programa de governo, vem o Bolsa Família, vem tudo para ir reci­clando esse lixo humano que vai sendo pisoteado pela boiada.
Eduardo Viveiros de Castro em
Diálogos sobre o fim do mundo

> continue lendo

Goiabas Roubadas ,,,,,,,,,,,

Por outro lado, há na cultura da internet uma tendência crescente à indig­na­ção como fim em si mesmo. Nos últimos anos a contínua exibição de revolta, jul­ga­mento e punição pela internet tem sido elemento ines­ca­pá­vel da vida con­tem­po­râ­nea. Car­re­ga­mos todos no bolso um cir­cuns­pecto, hiper­crí­tico, oni­pre­sente, inces­sante e impre­vi­sí­vel sistema judi­ciá­rio. Você pega o celular e começa a sessão do tribunal; coloca no bolso e ele entra em recesso.

> continue lendo

Manuscritos

Na boca da caverna não me acomete temor nem apreensão, apenas um vago assombro – não diante da tarefa que me aguarda nem dos horrores arbi­trá­rios que espreitam, mas de mim mesmo: minha própria ima­cu­li­dade, minha ator­do­ante autonomia, meu indis­cu­tido valor.

Desde de que Ferôdio tombou em Êlia e, quem sabe muito antes, maior que eu não há homem sobre a terra. Minha própria sombra, seja num terraço de Creta ou num campo de batalha em Hipossos, aponta inces­san­te­mente para o mais temido, o mais temível, o mais incan­sa­vel­mente desejado dos homens. Um mortal que tem mais estátuas que juntos todos os deuses, mais san­tuá­rios que o divino casal de Elêusis, mais devotos que os touros de Poreleno e mais iniciados que o bode de mil filhos.

> continue lendo

FotografiaGírias e Falares ,,,,,,,

Minha paixão pela huma­ni­dade é per­fei­ta­mente bipolar, alter­nando pes­si­mismo e exaltação que não têm apa­ren­te­mente nenhum estágio inter­me­diá­rio. Por vezes a mera diver­si­dade das culturas tecidas pelas gentes – um sotaque, uma nova gíria, um folheto de cordel, descobrir que no Ceará rede de dormir às vezes se diz baladeira, descobrir que em italiano mappa é feminino e ponte é masculino, tomar suco de cajá pela primeira vez, uma expressão que colho ao acaso do Dici­o­ná­rio do Nordeste de Fred Navarro, comer buchada de bode pela primeira (e última) vez, visitar a ala de carnes do mercado de Patos, receber um beijo comovido de um italiano hete­ros­se­xual no mesmo dia em que nos tornamos amigos, ver um casal de romeiros de cabelos brancos dormindo descalços e abraçados no chão fresco de uma igreja em Canindé (enquanto esperam que passe a hora mais quente do dia) – basta para me encher de esperança que é um farol.

> continue lendo

A Bacia das Almas não tem fontes confiáveis, mas as informações que nos passam são interessantíssimas (Ashleigh Brilliant).


Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma nA Forja Universal, no twitter, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas provavelmente discorda de você também nesse ponto.