26 de Janeiro de 2012

O descortês mestre de cerimônias Kotsuké no Suké

Depositado em juízo por   Paulo Brabo


Estocado em Pormenor

 

O INFAME DESTE CAPÍTULO é o descortês mestre de cerimônias Kotsuké no Suké, sinistro funcionário que motivou a degradação e a morte do senhor da Torre de Ako e não quis se eliminar como um cavalheiro quando a apropriada vingança o apertou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e foi a negra e necessária ocasião de uma empresa imortal. Uma centena de novelas, de monografias, de teses doutorais e de óperas comemoraram o feito – para não falar das efusões em porcelana, em lápis-lázuli gravado e em laca. Até mesmo o versátil celulóide o serve, já que a História Doutrinal dos Quarenta e Sete Capitães – é este o seu nome – é a mais repetida inspiração do cinema japonês. A minuciosa glória que essas ardentes atenções afirmam é algo mais do que justificável: é imediatamente justo para qualquer um.

Sigo o registro de A. B. Mitford, que omite as contínuas distrações que obra a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episódio. Essa boa ausência de “orientalismo” deixa suspeitar que se trata de uma versão direta do japonês.

O LAÇO DESATADO

Na desvanecida primavera de 1702 o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e agasalhar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns mitológicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepção. O enviado representava o imperador, porém à maneira de alusão ou símbolo: matiz que não era menos improcedente reforçar do que atenuar. De modo a impedir erros facilmente fatais, um funcionário da corte de Yedo o precedia na qualidade de mestre de cerimônias. Longe da comodidade cortesã e condenado a um feriado montês, que deve ter-lhe parecido um desterro, Kira Kotsuké no Suké conferia, sem boa vontade, as instruções. Às vezes dilatava até a insolência o tom magistral. Seu discípulo, o senhor da Torre, buscava ignorar essas provocações. Não sabia replicar, e a disciplina o vedava a qualquer violência. Certa manhã, no entanto, o laço do sapato do mestre se desatou e este pediu-lhe que o atasse. O cavalheiro o fez com humildade, mas com indignação interior. O mestre de cerimônias disse que ele era de fato incorrigível, e que só um campônes seria capaz de forjar um nó tão torpe. O senhor da Torre puxou a espada e abriu-lhe um corte. O outro fugiu, apenas rubricada a testa por um fio tênue de sangue… Dias depois o tribunal militar emitia sentença contra o injuriador e condenava-o ao suicídio. No pátio central da Torre de Ako ergueram um dossel de feltro vermelho e nele apresentou-se o condenado e entregaram-lhe um punhal de ouro e pedras e confessou publicamente a sua culpa e foi se despindo até a cintura, e abriu o próprio ventre, com as feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores mais distantes não viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso o decapitou com a espada: o conselheiro Kuranosuké, seu padrinho.

O SIMULADOR DA INFÂMIA

A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capitães debandados, sua família arruinada e obscurecida, seu nome vinculado à execração. Um rumor sustenta que na precisa noite em que se matou quarenta e sete de seus capitães deliberaram no cume de uma montanha e planejaram, com toda precisão, o que se produziu um ano mais tarde. O certo é que tiveram de proceder entre justificadas demoras e que algum de seus concílios teve lugar não no cume de uma montanha mas numa capela num bosque, medíocre pavilhão de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contém um espelho. Apeteciam a vingança, e a vingança deve ter lhes parecido inalcançável.

Kira Kotsuké no Suké, o odiado mestre de cerimônias, havia fortificado sua casa e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas guardava seu palanquin. Contava com espiões incorruptíveis, pontuais e secretos. A ninguém rastreavam e vigiavam mais do que o presumido capitão dos vingadores: Kuranosuké, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso, e fundou seu projeto vingatório sobre esse dado.

Mudou-se para Kioto, cidade insuperada em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos prostíbulos, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de seus cabelos brancos, ombreou com rameiras e com poetas, e até com gente pior. Certa vez expulsaram-no de uma taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabeça revolvida num vômito.

Um homem de Satsuma o reconheceu, e disse com tristeza e com ira:

– Não é este, por acaso, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que ajudou-o a morrer e que ao invés de vingar ao seu senhor entrega-se aos deleites e à vergonha? Ah, tu, indigno do nome de Sarumai!

Pisou o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espiões denunciaram essa passividade, Kotsuké no Suké sentiu grande alívio.

Os feitos não pararam aí. O conselheiro mandou embora sua mulher e o mais novo de seus filhos, e adquiriu uma querida num lupanar, famosa infâmia que alegrou o coração e relaxou a temerosa prudência do inimigo. Este acabou por dispensar metade de seus guardas.

Numa das noites atrozes do inverno de 1703 os quarenta e sete capitães reuniram-se num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto de uma ponte e de uma fábrica de baralhos. Iam com as bandeiras do seu senhor. Antes de empreender o assalto, advertiram os vizinhos que não se tratava de um tumulto, mas de uma operação militar de estrita justiça.

A CICATRIZ

Dois grupos atacaram o palácio de Kira Kotsuké no Suké. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que estava para completar dezesseis anos e que morreu nesta noite. A história conhece os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitação dos defensores, os arqueiros postados no terraço, o destino direto das flechas até os orgãos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente que depois é glacial; os impudores e desordens da morte. Nove capitães morreram; os defensores não eram menos valentes e não quiseram se render. Pouco depois da meia-noite toda resistência cessou.

Kira Kotsuké no Suké, razão ignominiosa dessas lealdades, não aparecia. Procuraram-no em todos os cantos desse agitado palácio, e já desesperavam de encontrá-lo quando o conselheiro notou que os lençóis de sua cama estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela, dissimulada por um espelho de bronze. Lá de baixo, num patiozinho sombrio, olhava para eles um homem de branco. Um espada tremia na sua mão direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem lutar. Cortava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do aço de Takumi no Kami.

Então os sangrentos capitães se arrojaram aos pés do odiado e disseram-lhe que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição e de cujo fim ele era culpado, e rogaram que se suicidasse, como deve fazer um samurai.

Em vão propuseram esse decoro a sua alma servil. Era o homem inacessível à honra; de madrugada tiveram que degolá-lo.

O TESTEMUNHO

Já satisfeita a sua vingança (porém sem ira, e sem agitação, e sem lástima), os capitães tomaram o rumo do templo que guarda as relíquias de seu senhor.

Num caldeirão levam a incrível cabeça de Kira Kotsuké no Suké e fazem turnos para guardá-la. Atravessam os campos e as províncias, sob a luz sincera do dia. Os homens os abençoam e choram. O príncipe de Sendai oferece-se para hospedá-los, mas respondem que faz quase dois anos que os aguarda o seu senhor. Chegam ao obscuro sepulcro e oferecem a cabeça do inimigo.

A Suprema Corte emite seu veredito. É o que esperam: outorga-se a eles o direito de se suicidarem. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado do seu senhor. Homens e crianças vem rezar no sepulcro desses homens tão fiéis.

O HOMEM DE SATSUMA

Entre os peregrinos que chegam, há um rapaz empoeirado e cansado que deve ter vindo de longe. Prostra-se diante do monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta:

– Eu te vi virado à porta de um lupanar de Kioto e não pensei que estavas meditando a vingança do teu senhor, e te cri um soldado sem fé e te cuspi no rosto. Vim oferecer-te satisfação.

Disse isso e cometeu harakiri.

O prior condoeu-se da sua valentia e deu-lhe lugar onde repousam os capitães.

Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais – salvo que não tem final, porque os outros homens, que não somos talvez leais, mas que nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, seguiremos honrando-os com palavras.

 

Jorge Luis Borges, em História Universal da Infâmia

Publicado originalmente em 18 de janeiro de 2006



10 de Maio de 2006

ENQUANTO ISSO NOS ARQUIVOS DA BACIA:
A vida sem a Bacia

Auditado por   Paulo Brabo


Estocado em Pormenor

 

O Universo funcionou por quase vinte horas sem a Bacia entre ontem e hoje, e notavelmente não foi observada nenhuma catástrofe planetária, testemunhado nenhum desabrochamento universal de flores ou anunciada nenhuma greve de fome de figura política. Teimoso e egocêntrico como é, irremediavelmente mergulhado em seus próprios interesses, o Universo parece não ter percebido que gira ao redor de mim e do meu sáite.



24 de Janeiro de 2012

Sabedoria e mortalidade

Incorporado por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

Tal como a nuvem se desfaz e some,
aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.
Jó 7:9

 

Talvez aproximar-se da Bíblia sem grandes prejulgamentos baste para se entender que é com muita hesitação que o próprio texto bíblico se aproxima da ideia de imortalidade. Em termos narrativos, históricos e literários, é só a terceira terça parte da Bíblia que tem algo a dizer sobre vida eterna – e mesmo assim não fala, muito provavelmente, da vida eterna como a estamos acostumados a imaginar.

Porém, o que quer que se conclua sobre a vida eterna em Daniel e no Novo Testamento, permanece o fato de que os dois primeiros terços da Bíblia tendem a sugerir, com impressionante consistência, que o que existe é esta vida – que deve ser bem vivida, com gratidão, com integridade e com gosto, porque é somente esta.

Esse silêncio em relação à vida depois da morte é no mínimo curioso, tendo em vista que a ideia de imortalidade pessoal é mais antiga do que os mais antigos textos bíblicos. A antiquíssima cultura egípcia, em particular, desenvolveu muito cedo as noções de [1] uma sobrevivência do eu depois da morte, de [2] um tribunal no além em que os atos desta vida eram pesados contra uma medida eterna de integridade, e de [3] uma eternidade de glória no céu (literalmente no céu, entre o sol e as estrelas) para os que se mostrassem dignos depois de passar por uma série de provas. Inicialmente esse destino eterno estava reservado exclusivamente ao faraó, mas pouco a pouco foi se estendendo ao restante da aristocracia egípcia (essencialmente, todos que tinham recursos suficientes para cobrir os custos dos rituais necessários, inclusive a mumificação).

O Egito foi um dos dois berços de Israel, mas o Antigo Testamento testemunha que o sonho egípcio de uma vida depois da morte no céu não deixou qualquer marca na religião judaica. Alguns trechos do Pentateuco parecem ter sido escritos de modo a polemizar e desacreditar a religião egípcia, deixando clara a superioridade do Deus e da fé dos hebreus, mas alguma forma vida depois da morte não parece ter sido considerada necessária para comprovar essa supremacia.

O pacto de Deus com a descendência de Abraão prometia, essencialmente, realização e fertilidade e prosperidade nesta vida para os que cumprissem a lei e os mandamentos. A eternidade que a Israel seria dada experimentar residia no fato de serem um povo, uma genealogia, uma semente: uma eternidade fundamentada na hereditariedade e na perpetuação do sangue, não na imortalidade pessoal.

E não é só que a Bíblia hebraica tem pouco a dizer sobre a questão da imortalidade; o espantoso é o quanto ela tem a dizer sobre a mortalidade.

A mortalidade é, na verdade, tema essencial do fio da narrativa bíblica e do modo bíblico de explicar o mundo. E sua tese central é esta: para seres humanos como nós, mortalidade e sabedoria devem andar sempre juntas. Não há um modo aceitável de separá-las.

Se refletimos sobre assunto, parecerá haver algo de terrível e trágico, algo de fundamentalmente injusto, no fato de sermos sábios e de sermos simultaneamente mortais. Para a Bíblia hebraica, que não pensa como nós, é apenas inevitável que gente sábia seja mortal e que gente mortal seja sábia. Uma coisa não deve existir sem a outra.

Um dos argumentos mais recorrentes dos livros de sabedoria – Salmos, Provérbios, Eclesiastes – é precisamente este: não é apesar de sermos mortais, é porque somos mortais que devemos aprender a viver com sabedoria. Quem tem visto temporário nesta terra não se pode dar ao luxo de viver sem prudência, sem integridade e sem inteligência. É precisamente isso o que dizem e querem dizer declarações como “ensina-nos a contar os nossos dias, de modo a que alcancemos corações sábios” (Salmo 90:12). O motor para se viver bem deve ser a consciência de que ninguém vive para sempre.

O fundamento dessa tradição bíblica é a ideia de que a sabedoria deve ser abraçada com gosto e com paixão porque ela é um dom divino. A sabedoria é um atributo de Deus do qual – pelo tempo limitado da sua vida na terra – é dado ao homem a possibilidade de desfrutar. Por isso, “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:10). Viva com sabedoria hoje, porque “[quando alguém morre] sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos” (Salmo 146:4).

Segundo essa visão, a vida humana é duplamente preciosa porque é curta e porque, em sua brevidade, permanece ainda estendida ao homem a oportunidade de viver (de modo temporário e honorário) como Deus – em sua sabedoria. Nesse modo de ver as coisas, os animais têm vida mas não têm sabedoria, o homem tem sabedoria mas não é eterno: Deus é único a pisar simultaneamente os domínios da vida, da sabedoria e da eternidade.

É por isso que a única forma nobre de se viver esta vida mortal é vivê-la com aquilo que ganhamos em comum com Deus: o conhecimento da maneira certa de se portar e de se viver.

É precisamente isso o que ensina – é isso o que explica – a história da árvore do conhecimento do bem e do mal no livro de Gênesis: sabedoria e mortalidade são coisas inseparáveis nesta condição humana. O mesmo fruto que nos deu o dom da sabedoria (porque, na história, o conhecimento do bem e do mal é uma coisa boa, um verdadeiro dom e atributo de Deus) nos vedou o acesso à imortalidade. O preço de ser sábio é ser mortal, e a compensação de ser mortal é ser sábio. É menos a história da queda do que a história das contradições da condição humana.

De certo modo, essa história fundacional de Gênesis antecipa o que acabaram concluindo antropólogos, psicólogos e pensadores existencialistas muito tempo depois: a angústia da condição humana e sua simultânea glória reside no fato de sabermos que nossos dias estão contados. Os animais não chegarão a ser sábios porque não sabem que vão morrer.

Leia também:
Antes que houvesse o paraíso



20 de Janeiro de 2012

“Igreja” entre aspas

Entregue em consignação por   Paulo Brabo


Estocado em Família

 

As pessoas aparentemente continuam escrevendo livro sobre Deus. Meu irmão Tuco Egg (da Trilha) está lançando Igreja entre aspas pela Editora Grafar, com prefácio do Paulo Brabo1. Como o livro da Bacia e os livros de Brennan Manning publicados no Brasil, Igreja entre aspas já vem com a capa previamente envelhecida, que é para tentar convencer você subliminarmente de que o que podem parecer heresias novas são na verdade tradições muito antigas.

Só há uma maneira de saber.

 

 

Ande também:
nA Trilha

NOTAS
  1. Em que ele diz coisas como “E se a igreja for um lugar de onde ninguém pode sair, mesmo se quiser? E se for uma graça estendida ao mundo, e não um projeto de seleção? E se a expressão ‘os portões do inferno não prevalecerão contra ela’ for indicação de que só o inferno tem portões, e não a igreja?” Esse tipo de coisa. []


19 de Janeiro de 2012

Enquanto resta alguma lei neste mundo

Fermentado por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

PILATOS. Você está desrespeitando seu pai e sua mãe. Está desrespeitando a sua Igreja. Está violando os mandamentos do seu Deus, e alegando ter direito a agir assim. Está pleiteando em favor dos pobres, e declarando que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no paraíso de Deus; apesar disso você banqueteou-se na mesa dos ricos, e encorajou meretrizes a gastar em perfume para os seus pés o dinheiro que poderia ter sido dado aos pobres, deixando nisso o seu tesoureiro tão revoltado que ele o traiu ao Sumo Sacerdote por um punhado de prata. Ora, banqueteie-se o quanto quiser: não culpo você por recusar-se a fazer-se de faquir e a tornar-se exposição ambulante de austeridades tolas. Porém preciso impor um limite quando você promove tumulto no templo e arremessa o dinheiro dos cambistas para ser disperso entre os seus simpatizantes. Tenho uma lei para administrar. A lei proíbe obscenidade, sedição e blasfêmia, e você foi acusado de sedição e de blasfêmia. Você não as nega: você fala sem parar sobre a verdade, que acontece de ser apenas aquilo em que você gosta de acreditar. Sua blasfêmia não representa nada para mim: toda a religião judaica, do começo ao fim, é blasfêmia do meu ponto de vista romano; mas significa muito para o Sumo Sacerdote, e não posso manter a ordem em meio aos hebreus a não ser lidando com os tolos judeus de acordo com a tolice judaica. Já a sedição diz respeito a mim e ao meu cargo muito de perto. Quando você promete suplantar o Império Romano com um reino em que é você e não César a ocupar o trono, torna-se culpado da mais grave sedição. Sou avesso a mandar crucificá-lo; embora seja judeu, e como se não bastasse jovem e imaturo, percebo que você é à sua maneira judia um homem de qualidade. Não me sinto à vontade em atirar à multidão um homem de qualidade, mesmo que sua qualidade seja meramente judaica. Pois como aristocrata sou eu mesmo um homem de qualidade, e falcão não arranca olho de falcão. Na verdade, se condescendo em parlamentar com você tão extensamente é na misericordiosa esperança de encontrar uma desculpa para tolerar sua blasfêmia e sedição. Em sua defesa você oferece apenas uma frase vazia sobre a verdade. Sou sincero quando digo que desejo poupá-lo, porque se não libertá-lo terei de libertar aquele patife Barrabás, que foi mais longe do que você e cometeu assassinato, enquanto entendo que você só ressuscitou dos mortos um judeu. Então, pela última vez, faça seu juízo funcionar, e encontre-me uma razão sólida para deixar partir em liberdade um blasfemador sedicioso.

JESUS. Não peço que me liberte; também não aceitaria minha vida ao preço da morte de Barrabás, mesmo se acreditasse que você tem poder para revogar o suplício ao qual estou predestinado. Mas para satisfazer seu anseio pela verdade, direi que a resposta às suas questões está em seu próprio argumento de que nem você nem o prisioneiro que você está julgando são capazes de provar que têm razão; sendo assim você não deve me julgar, para não ser julgado. Sem sedição e blasfêmia o mundo permaneceria imóvel, e o reino de Deus nunca chegaria a estar um estágio mais próximo. O império romano começou com uma loba dando de mamar a duas crianças. Se essas crianças não tivessem sido mais sábias do que sua madrasta, seu império seria uma matilha de lobos. É por crianças que são mais sábias que os pais, por súditos que são mais sábios que seus imperadores e por mendigos e vagabundos que são mais sábios que seus sacerdotes que os homens alçam-se de serem animais predadores a crerem em mim e serem salvos.

PILATOS. O que você quer dizer com “crer em você”?

JESUS. Ver o mundo como eu vejo. O que mais poderia significar?

PILATOS. E você é Cristo, o Messias, certo?

JESUS. Se eu fosse Satanás meu argumento permaneceria válido.

PILATOS. Devo então poupar e encorajar todo herege, todo rebelde, todo transgressor e todo velhaco, porque ele pode acabar se mostrando mais sábio do que todas as gerações que fizeram o Direito Romano e construíram sobre ele o Império Romano?

JESUS. Pelos frutos você os reconhece. Cuidado quando você mata um pensamento que é novo pra você; esse pensamento pode ser o fundamento do reino de Deus na terra.

PILATOS. Pode ser também a ruína de todos os reinos, de toda lei, de toda sociedade humana. Pode ser o pensamento do animal predador lutando para voltar.

JESUS. Não é o animal predador que está lutando para voltar; é o reino de Deus que está lutando para vir. O império que olha para trás com terror dará lugar ao reino que olha para a frente com esperança. O terror enlouquece os homens; a esperança e a fé dão-lhes sabedoria divina. Os homens que você enche de temor não se intimidarão diante de nenhum mal e perecerão em seu pecado; os homens que encho de fé herdarão a terra. A você eu digo: expulse o medo. Pare de me dizer coisas vãs sobre a grandeza de Roma. Aquilo que você chama de grandeza de Roma não passa de medo: medo do passado e do futuro, medo dos pobres, medo dos ricos, medo dos sumos sacerdotes, medo dos judeus e gregos que são cultos, medo dos gauleses e dos godos e dos hunos que são bárbaros, medo da Cartago que vocês destruíram para salvá-los do medo que tinham dela e que agora temem mais do que nunca, medo do César imperial, o ídolo criado por vocês mesmos, e medo de mim, o vagabundo sem um tostão, espancado e ridicularizado, medo de tudo exceto o domínio de Deus: fé em coisa alguma que não seja sangue e ferro e ouro. Você, representando Roma, é o covarde universal; eu, representando o reino de Deus, enfrentei tudo, perdi tudo, e ganhei uma coroa eterna.

PILATOS. Você ganhou foi uma coroa de espinhos, e vai usá-la na cruz. Você é um sujeito mais perigoso do que eu imaginava. Com sua blasfêmia contra o deus dos sumos sacerdotes pouco me importo: no que me diz respeito você pode espezinhar a religião deles até o inferno. Mas você blasfemou contra César e contra o Império; e falou sério, e tem poder para dobrar o coração dos homens contra ele, como dobrou o meu. Devo portanto por um fim em você, enquanto resta alguma lei neste mundo.

JESUS. A lei é cega sem conselho. O conselho com que concordam os homens é vão: não passa do eco de suas próprias vozes. Um milhão de ecos não irão ajudá-lo a governar com justiça, mas quem não tem medo de você e mostra o outro lado é uma pérola do maior valor. Mate-me e você ficará cego, para sua própria condenação. O maior dos nomes de Deus é Conselheiro; quando o seu império for pó e o seu nome uma lembrança, entre as nações os templos do Deus vivo ecoarão ainda o louvor a ele como Maravilhoso! Conselheiro! O Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz.

Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

Leia também:
Nenhum motivo e nenhuma recompensa
Se ele era inocente



18 de Janeiro de 2012

Uma palavra que não conheço

Investigado por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

Às vezes penso que há muito de semelhante entre aprender uma nova língua e aprender a viver com gente. O problema está sempre nos pronomes e nas preposições, aquelas pequenas palavras e pequenos gestos que ligam uma coisa à outra. Uma palavra errada, um gesto errado, e tudo muda, todo o sentido e toda uma intenção se podem arruinar.



Tarde demais para esquecer
Há um ano: • Há 2 anos: Você acaba de perder o Jogo • Há 3 anos: Atenção! • Há 4 anos: • Há 5 anos: As demarcações do amor: quem Deus ama, quando e porquê• Há 6 anos: O problema com a virtude• Há 7 anos: Mais de uma
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